Escola de Anchieta leva resumo de projeto eólico-solar à Ufes

Estudantes da 2ª série do Curso Técnico em Sistemas de Energias Renováveis do Centro Estadual de Ensino Médio em Tempo Integral (CEEMTI) Paulo Freire, em Anchieta, foram ao Campus de Goiabeiras, em Vitória, no dia 3 de junho, para a XV Semana de Ciência Aplicada da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). O que levaram foi o resumo de um trabalho sobre um sistema híbrido eólico-solar, pensado para demandas energéticas de regiões costeiras.

A visita já tinha acontecido quando esta página nasceu. O dia no campus foi 3 de junho; o registro entrou no portal em 14 de julho de 2025, mais de um mês depois. E o material oficial que o originou não anuncia nova edição, não abre inscrição e não convoca ninguém — não há data futura a guardar aqui.

Foi o resumo que subiu à Ufes, não o equipamento

A nota da rede estadual é precisa num ponto e vaga logo em seguida. Sobre o dia em Vitória, ela diz que a turma participou do evento e apresentou o resumo de um projeto. Resumo, em encontro científico, é o texto curto que descreve o trabalho — o que circula antes da coisa montada, e às vezes no lugar dela.

Não há, no material, menção a estande, bancada, demonstração ou ligação do aparelho diante de alguém. O protótipo pode ter ido junto; a nota não afirma que foi.

Quem construiu o protótipo: a pergunta que o texto oficial contorna

É aqui que o material se esquiva, e ele se esquiva pela gramática. Diz que o projeto envolveu a construção de um protótipo funcional e que a apresentação tratava do desenvolvimento de um sistema híbrido eólico-solar. Nas duas frases o sujeito sumiu: sobraram substantivos — a construção, o desenvolvimento — sem ninguém para praticá-los.

Em nenhum momento a nota escreve que os alunos projetaram, montaram, soldaram, programaram ou mediram. Os verbos que ela dá a eles são outros: participaram, apresentaram, ocuparam, dialogaram, demonstraram. Nenhum deles constrói coisa alguma.

O adulto responsável, quando fala, também não reivindica a obra para si — e não a entrega inteira à turma. Ele descreve o que assistiu:

Foi uma experiência enriquecedora ver nossos alunos ocupando espaços de produção científica, propondo ideias criativas e se reconhecendo como protagonistas do próprio aprendizado.

Falou assim o professor Vinícius Cardoso, que coordenou a atividade — coordenar é, na nota, o único papel adulto declarado em toda a história. Repare no verbo dele: ver. E no que credita aos estudantes: propor ideias.

A única vez em que alguém diz ter desenvolvido

A autoria aparece em primeira pessoa uma única vez no material inteiro, e vem de dentro de um depoimento. Uma estudante da turma contou como foi estar no campus:

Estar na Ufes, apresentando um projeto que desenvolvemos com tanto empenho, foi uma experiência única. Me senti valorizada e inspirada a continuar nesse caminho.

Esse desenvolvemos é relato de quem participou, e vale como relato. Não é a mesma coisa que a rede estadual registrar quem fez o quê — o depoimento diz como a pessoa se sentiu, não descreve etapa de trabalho, divisão de tarefas ou autoria. O material traz ainda um segundo depoimento estudantil, sobre motivação para seguir na área das energias renováveis, que também não acrescenta nada sobre a montagem do aparelho.

O sistema híbrido eólico-solar que a nota nomeia sem descrever

Híbrido, neste caso, é o encontro de duas fontes que o próprio texto nomeia: eólica e solar. Nomear é tudo o que ele faz. Não há potência, quantidade de painéis, tipo de gerador, informação sobre armazenamento em bateria, nem indicação de que o arranjo funcionaria isolado ou conectado à rede elétrica.

Também não há resultado. O protótipo é chamado de funcional, e nenhuma medição, ensaio, gráfico ou dado de desempenho aparece para sustentar a palavra. Funcional, no material, é adjetivo — não é medida.

O destino declarado é atender demandas energéticas de regiões costeiras. Quais demandas, por que o litoral e se a escolha tem alguma relação com o próprio município da escola: nada disso é explicado.

Apresentar não é ser premiado, e a nota não fala em disputa

Não existe no texto oficial uma palavra sobre seleção, banca, nota, classificação, colocação ou prêmio. O que ele descreve é presença: a turma foi, apresentou o resumo e conversou com pesquisadores da área de Física da Ufes.

Falta também o universo, que é o que daria tamanho a qualquer resultado — quantos trabalhos foram apresentados na XV edição, quantas escolas estiveram lá, quantos estudantes de Anchieta viajaram. Sem esses números, não há como dizer se a participação foi rara ou rotineira, e o material não os oferece.

E falta a porta de entrada, que é a primeira coisa que outra escola perguntaria: a nota não informa se houve convite, inscrição aberta, seleção prévia, indicação da rede ou parceria formal para que o CEEMTI Paulo Freire chegasse ao campus.

De onde veio a ideia, pela versão da própria nota

Há uma frase no material que conta mais do que parece querer contar. A proposta, escreve a nota, nasceu para estimular o engajamento da turma, vencendo obstáculos — e o exemplo que ela dá de obstáculo é a falta de interesse inicial dos próprios alunos.

Pela versão oficial, então, o projeto nasceu como estratégia pedagógica diante de uma turma que não estava interessada — e não como iniciativa espontânea dos estudantes. As duas leituras convivem no mesmo texto: a origem é da escola, o empenho é atribuído aos alunos.

Repare ainda no como daquela frase. A falta de interesse entra como exemplo de desafio, não como o único. Quais foram os outros obstáculos, o material não conta.

Por que os nomes dos estudantes não estão nesta página

A nota oficial publica dois. Nesta página, quem falou é apresentado pelo lugar que ocupa na história: uma estudante da 2ª série, e um segundo depoimento vindo da mesma turma. A troca é decisão de redação, não buraco de apuração.

Protótipo montado em curso técnico é trabalho de grupo, e o material nem informa quantas pessoas o assinam. Dar visibilidade permanente a duas delas, escolhidas por terem dado entrevista, seria arbitrário com as demais — e o cruzamento de nome com escola, curso e série encolhe demais o grupo de adolescentes a que a busca pode chegar, num arquivo que dura muito mais que o projeto. Vinícius Cardoso continua nomeado por outro motivo: coordenar a atividade é ato de trabalho, e quem exerce função pública de coordenação responde por ela com o próprio nome.

A Ufes recebeu o trabalho e não disse uma palavra sobre ele

Tudo o que sustenta este texto é uma nota da rede estadual de ensino sobre uma escola da rede estadual de ensino. A Ufes não fala em lugar nenhum: os pesquisadores de Física aparecem citados em terceira pessoa, sem uma linha própria, e nenhum deles avalia o trabalho que recebeu. Nenhum estudante que não deu depoimento é ouvido, e o elogio final ao ensino público capixaba é do emissor sobre a própria rede.

Do protótipo à viagem: o que o material não conta

  • Quantos foram. O número de estudantes que viajaram não aparece, nem quantos assinam o projeto.
  • Quem pagou. Transporte, alimentação e material do protótipo não têm custo declarado nem responsável nomeado.
  • Se há parceiro. Nenhuma empresa, instituto, edital ou programa de financiamento é citado. A Ufes aparece como anfitriã do evento, não como parceira do projeto.
  • Se o projeto continua. Não há etapa seguinte, orientação da universidade, feira posterior ou registro do protótipo. Isso não equivale a dizer que o trabalho parou — o material simplesmente não trata do assunto.
  • Se é política de rede. Nenhum programa é nomeado, nenhuma verba, meta ou calendário comum às escolas estaduais aparece. Pelo que o texto sustenta, a ida foi da unidade de Anchieta.
  • As edições anteriores. O algarismo XV indica uma série que já vinha de longe, e a nota não diz quando ela começou nem se Anchieta esteve em alguma das anteriores.
  • O ano. A data vem escrita apenas como dia 3 de junho, sem ano; o registro no portal é de julho de 2025.

A mesma escola, seis meses antes, e outra turma no mesmo campus depois

Não foi a primeira aparição do CEEMTI Paulo Freire fora de Anchieta. Cerca de seis meses antes, em dezembro de 2024, a escola levou dois trabalhos de cursos técnicos a uma mostra nacional em Brasília — outros projetos, outra viagem, que a nota desta vez não menciona.

E o campus de Goiabeiras voltou a receber a rede pública meses depois: em novembro de 2025, estudantes de Cariacica passaram um dia de aula de campo dentro da Ufes, sem projeto a apresentar. É outra escola, outro município e uma data quatro meses posterior à deste registro.

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