O pacote de obras em Viana apresentado pelo Governo do Estado no aniversário de 163 anos de emancipação política do município reunia quatro itens — e, na quarta-feira, 23 de julho de 2025, apenas um deles estava pronto. As duas maiores cifras do dia não eram obra em andamento nem obra concluída: eram editais de licitação recém-publicados, sem empresa contratada e sem prazo de início definido. A única entrega efetiva foi a revitalização asfáltica de 11,7 quilômetros de estrada rural, orçada em R$ 5,85 milhões — o item mais barato da lista.
As obras em Viana, item por item, com o estágio de cada uma
O material distribuído pelo Governo do Estado trata os quatro anúncios em sequência, sem separar o que já existe do que ainda depende de licitação. Separado, o pacote fica assim:
- Revitalização asfáltica de 11,7 km, da BR-262 até o Bairro Universal, passando por Formate e Piapitangui — ENTREGUE. É o único item inaugurado na data. Custou R$ 5,85 milhões e integra o Programa Caminhos do Campo.
- Dique e Estação de Bombeamento de Águas Pluviais (EBAP) no bairro Santo Agostinho — APENAS EM EDITAL. Investimento estimado em R$ 45,7 milhões e prazo de execução de 18 meses. O edital publicado é para contratar a empresa que fará a obra; até a data do anúncio, portanto, não havia empresa escolhida.
- Rede de macrodrenagem nos quilômetros 297 e 298 da BR-101 — APENAS EM EDITAL. Investimento estimado em R$ 46,9 milhões e prazo de 20 meses, também na fase de contratação da executora.
- Nova unidade de Ensino Fundamental no bairro Campo Verde — SÓ ANUNCIADA. São R$ 7,6 milhões de repasse estadual para obra a ser executada pela Prefeitura. O material fala em construção prevista, sem informar edital, contrato, ordem de serviço ou data de início.
Vale registrar uma armadilha de leitura do próprio material: o trecho asfaltado entre a BR-262 e o Bairro Universal aparece duas vezes no texto oficial — uma no parágrafo de abertura e outra no bloco final de investimentos. É a mesma estrada, com a mesma extensão e o mesmo valor, e não dois trechos diferentes. Quem lê corrido pode contar cinco itens onde há quatro.
Por que esta reportagem não soma as cifras do dia
Seria fácil juntar os quatro valores e publicar um número redondo de investimento em Viana. Seria também enganoso, por quatro motivos que o material deixa à vista:
- Os estágios são diferentes. Somar dinheiro já gasto em asfalto pronto com dinheiro que ainda vai a disputa de preços mistura o que existe com o que é intenção orçamentária.
- Duas cifras são estimativas de edital. O texto oficial diz, nas duas obras de drenagem, investimento estimado. Estimativa de edital é o valor de referência que o poder público leva à licitação; o preço que vale é o do contrato assinado depois, que pode ficar abaixo ou acima.
- Um valor não é obra, é repasse. Os R$ 7,6 milhões da escola são transferência do Estado para a Prefeitura executar. Quem paga e quem constrói são entes diferentes, e a unidade resultante será da rede municipal.
- Nem toda cifra é do dia. O valor do asfalto rural corresponde a serviço já realizado antes do evento; os demais projetam gasto futuro. Colocá-los na mesma linha faz o passado parecer anúncio novo.
O que muda entre edital publicado e obra em andamento
Esta é a informação que o anúncio não dá e que decide o que o morador vai ver da janela. Edital publicado é o começo do processo, não o começo da obra. O poder público divulga as regras e o valor de referência, empresas apresentam propostas, uma é escolhida, o contrato é assinado e só então sai a ordem de serviço que autoriza o canteiro a abrir.
A consequência prática está nos prazos. Os 18 meses do dique de Santo Agostinho e os 20 meses da drenagem da BR-101 são prazos de execução: eles começam a correr quando a obra começa, e não da data em que o edital foi publicado. Entre uma coisa e outra existe o tempo de julgamento das propostas, eventuais recursos de concorrentes e, nos casos em que nenhuma proposta é aceita, a repetição do certame. O material não informa quanto tempo essa etapa deve levar em nenhuma das duas obras.
Enchentes: o problema que as duas obras licitadas pretendem atacar
Os dois editais tratam de macrodrenagem — termo que não é sinônimo de boca de lobo nem de limpeza de galeria de rua. Macrodrenagem é a estrutura de grande porte que recebe a água já concentrada de bairros inteiros e a conduz até um rio ou canal. Quando ela falta ou está subdimensionada, a rua até escoa, mas a água volta.
No bairro Santo Agostinho, a solução escolhida combina duas peças. O dique é a barreira de contenção que impede a água de invadir a área ocupada quando o córrego de mesmo nome transborda. A estação de bombeamento de águas pluviais resolve o efeito colateral do dique: com a barreira erguida, a chuva que cai do lado de dentro deixa de escoar sozinha por gravidade e precisa ser bombeada para fora. Segundo o material oficial, a intervenção deve beneficiar diretamente cerca de 15 mil pessoas — trata-se de estimativa de alcance da obra, não de número aferido de atingidos pelas cheias, e o texto não diz quantos imóveis alagam hoje nem com que frequência.
Na BR-101, entre os quilômetros 297 e 298, a rede vai levar a água da pista até o Rio Formate. O material menciona o uso de tecnologia mista: escavação convencional em parte do traçado e, em outra, o método não destrutivo do tipo tunnel liner, que abre a galeria por baixo do solo em vez de rasgar a superfície. É a técnica indicada para não interditar a rodovia durante a obra. O texto oficial não informa se haverá desvio de tráfego, em que trechos, nem se algum imóvel precisará ser desapropriado em qualquer uma das duas frentes.
São obras que vão muito além do concreto e do asfalto.
A frase é do secretário de Estado de Saneamento, Habitação e Desenvolvimento Urbano, Marcos Soares, cuja pasta — a Sedurb — coordena as duas intervenções. Ela foi dita no presente, sobre obras que naquele momento ainda estavam na fase de escolha da empresa executora.
A escola de Campo Verde: dinheiro do Estado, obra da Prefeitura, rede municipal
O anúncio de uma nova unidade de Ensino Fundamental no bairro Campo Verde é o item que exige a leitura mais atenta, porque três papéis diferentes se sobrepõem. O repasse é integralmente estadual, no valor de R$ 7,6 milhões, feito por meio do Fundo Estadual de Apoio à Ampliação e Melhoria das Condições de Oferta da Educação Infantil (Funpaes). A execução é da Prefeitura. E a escola, quando existir, será da rede municipal — não da rede estadual.
Há um ponto que o material não esclarece e que merece registro: o fundo nomeado no texto oficial é descrito como voltado à oferta de Educação Infantil, enquanto a unidade anunciada é de Ensino Fundamental. São etapas distintas da educação básica, com faixas etárias distintas. O texto não explica a relação entre o nome do fundo e a etapa da escola financiada, e esta reportagem não a supõe.
Do projeto, o material informa dois números: 12 salas de aula e área aproximada de 1.900 metros quadrados. Não informa quantos estudantes a unidade vai atender, quantos já são atendidos hoje na região, se a escola substitui alguma unidade existente ou se representa vagas inteiramente novas. Sem esses dados, não é possível dizer qual é o ganho líquido de vagas — número de salas é capacidade construída, não matrícula garantida.
É um compromisso com o presente e o futuro das nossas crianças, fortalecendo a rede municipal e garantindo o direito à educação de qualidade
A avaliação é do secretário de Estado da Educação, Vitor de Angelo. A própria fala confirma o destino do investimento: rede municipal.
O único item pronto: 11,7 km de estrada rural
A revitalização asfáltica inaugurada na data liga a BR-262 ao Bairro Universal e atravessa as comunidades de Formate e Piapitangui. São 11,7 quilômetros, ao custo de R$ 5,85 milhões, pelo Programa Caminhos do Campo, da Secretaria da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag) — programa voltado à pavimentação de vias rurais usadas no escoamento da produção agrícola e no acesso a serviços no interior do Estado.
Para quem mora ao longo do trecho, é o único item do pacote que já mudou alguma coisa na rotina. O material não informa quando a obra começou, se houve atraso em relação ao prazo original, nem quantos quilômetros do programa já haviam sido executados em Viana antes desta etapa.
A revitalização em Viana é mais uma entrega importante do Caminhos do Campo, que vem ampliando a conectividade entre comunidades e mercados, com foco na valorização da agricultura capixaba
A observação é do secretário de Estado da Agricultura, Enio Bergoli.
O balanço político do governador, e o que ele não responde
O governador Renato Casagrande usou a data para fazer balanço dos próprios mandatos, citando os períodos de 2011 a 2014 e de 2019 em diante e afirmando ter trabalhado com três prefeitos ao longo desse tempo. O trecho mais substantivo da fala trata da imagem que o município carrega:
Muita gente dizia que Viana só recebia presídios, mas nós mudamos essa história.
A afirmação é do governador, feita durante o evento de aniversário do município. É avaliação de gestão, e o material não traz dado que a sustente ou a contradiga — nem indicador de investimento comparado, nem série histórica de obras no município.
O que o material oficial não informa
- O número dos editais, a data de abertura das propostas e onde o cidadão pode consultá-los.
- Quando começam a contar os prazos de 18 e de 20 meses, e qual a previsão de conclusão de cada obra de drenagem.
- Quantos imóveis, moradores e comerciantes são atingidos hoje pelos alagamentos em Santo Agostinho e no trecho da BR-101, e com que frequência.
- Se haverá desapropriação, remoção de famílias ou interdição de pista durante as obras.
- A data de início e de entrega da escola de Campo Verde, se o terreno já está definido e se o projeto já foi aprovado.
- Quantos estudantes a nova unidade vai atender e se as vagas são adicionais ou substitutivas.
- Se há contrapartida da Prefeitura no valor repassado pelo Estado.
- Por que um fundo descrito como de Educação Infantil financia unidade de Ensino Fundamental.
- Qualquer valor total do pacote — que, como explicado acima, não existe enquanto os itens estiverem em estágios diferentes.
Um lado só: quem não foi ouvido sobre as obras em Viana
O texto que originou esta reportagem é comunicação institucional de governo e traz exclusivamente vozes do próprio poder público: o governador e três secretários estaduais. Não há morador de Santo Agostinho, comerciante da BR-101, mãe ou pai de aluno de Campo Verde, engenheiro independente nem parlamentar de oposição.
O prefeito de Viana, Wanderson Bueno, estava presente ao evento, assim como o vice-governador Ricardo Ferraço, o deputado federal Gilson Daniel, os deputados estaduais Alexandre Xambinho, Janete de Sá, Fabio Duarte e Hudson Leal, o secretário de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, Filipe Rigoni, além de Givaldo Vieira (Detran) e Coronel Alexandre Cerqueira (Corpo de Bombeiros). Nenhum deles é citado com declaração no material.
A ausência de crítica no material não significa que exista consenso sobre o pacote: significa apenas que quem produziu o texto não procurou quem discorda. Esta reportagem registra a lacuna em vez de apresentá-la como aprovação geral.
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