Um artigo assinado por Junior Borneli, fundador da StartSe, publicado em 10 de novembro de 2025 no site da própria empresa, sustenta que a era das telas está terminando e que o próximo estágio da relação entre pessoas e máquinas será o que ele chama de Economia da Intenção: um arranjo em que o desejo, e não o clique, aciona o serviço. O texto é opinião de um executivo do setor de educação em tecnologia, não relato de produto em funcionamento nem resultado de pesquisa.
A distinção importa porque a tese circula sem prazo verificável, sem número medido e sem estudo citado. O que o artigo apresenta é uma previsão, formulada por quem atua no mercado que ela descreve.
O que o autor chama de Economia da Intenção
Hoje a interação com o mundo digital passa por intermediários: celular, relógio, notebook, óculos. Cada um deles é uma camada entre a pessoa e a informação, e todos exigem uma ação explícita, o toque, o comando de voz, a frase digitada.
Borneli argumenta que a fase seguinte elimina essa camada. Sistemas de inteligência artificial captariam a intenção no instante em que ela surge e devolveriam o resultado sem toque e sem frase pronta. No exemplo construído pelo próprio autor, ninguém precisaria dizer quero pedir comida: bastaria querer, e o pedido se resolveria. A mesma lógica valeria para traduzir, buscar, calcular ou criar.
De onde vem o prazo de cinco anos
O único prazo do artigo não é do autor. Borneli o atribui a Elon Musk, que teria afirmado recentemente que a Economia da Intenção começa em, no máximo, cinco anos. O texto não informa onde nem em que ocasião a declaração foi feita, não reproduz a frase e não indica em que cálculo, teste ou levantamento o prazo se apoia.
Não há no artigo pesquisa, instituto, amostra ou projeção de mercado. A origem do número, portanto, não foi informada além do nome de quem o disse. O próprio Borneli registra a ressalva: Musk fala do lugar de quem é dono de uma empresa que implanta chips na cabeça de humanos.
Por que o ativo deixaria de ser a atenção
O argumento econômico do texto se apoia num contraste. No modelo que o autor chama de Economia da Atenção, o negócio se mede por tempo de tela, cliques e visualizações: quanto mais tempo a pessoa permanece, mais espaço publicitário existe para vender. É esse o desenho que sustenta boa parte dos aplicativos gratuitos.
Se a intenção passasse a ser captada e resolvida no mesmo instante, esse desenho perderia o chão. Sem navegação, não há vitrine para percorrer nem página para exibir anúncio. O artigo levanta as perguntas e não as responde: como competir por um desejo que nasce e se realiza quase ao mesmo tempo, e como vender a quem deixou de navegar e passou apenas a manifestar.
A privacidade que o texto deixa em aberto
Um sistema que age a partir da intenção precisa, antes, interpretar a intenção. Isso implica leitura contínua de sinais da pessoa, e é aí que o debate sai da tecnologia e entra em direitos. O artigo cita a ética entre as áreas que seriam afetadas, ao lado do marketing, do varejo e do desenho de produtos, mas não descreve salvaguarda, mecanismo de consentimento ou limite de uso desses dados.
Também não trata de quem seria dono do registro do desejo, por quanto tempo ele ficaria armazenado nem o que aconteceria com quem preferisse não ser lido. São pontos que o próprio texto abre e deixa sem resposta.
O que existe hoje e o que é promessa
Nada no artigo indica produto disponível, preço, data de lançamento ou local de venda. O presente descrito é o das telas, dos assistentes de voz e dos aparelhos vestíveis, todos já em uso. A leitura direta da intenção, sem toque e sem fala, aparece como cenário futuro.
Sobre a empresa de implantes cerebrais mencionada, o texto não traz estágio de testes, número de pessoas envolvidas, autorização de uso ou resultado clínico. Quem ler o artigo esperando saber quando poderá usar algo assim não encontra a informação, porque ela não está lá.
Quem assina e de onde fala
Junior Borneli se apresenta, no perfil que acompanha o artigo, como fundador da StartSe, empresa de educação continuada com sede no Brasil e operações no Vale do Silício e na China. O texto foi publicado na área de artigos do site institucional da própria empresa, o mesmo ambiente em que ela divulga suas atividades de formação em tecnologia.
Isso não invalida o raciocínio, mas situa de onde ele parte. Quem sustenta que o mercado vai se reorganizar em cinco anos atua no negócio de preparar profissionais para mudanças de mercado. Lida assim, a Economia da Intenção é o que o artigo de fato é: uma tese autoral, com um prazo emprestado de terceiro e sem dado próprio que a sustente.
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