A Porto Seguro fecha 2025 com um conselho de administração formado por quatro conselheiras e três conselheiros. A proporção de mulheres no colegiado chega a 57,1%, composição que, segundo o levantamento que motivou o anúncio, não tinha precedente entre as empresas listadas no Ibovespa.
O recorte exato do “primeiro”: Ibovespa, não o país inteiro
O dado precisa ser lido pelo que ele mede. O Ibovespa é o principal índice da bolsa brasileira e reúne as ações mais negociadas do mercado — algumas dezenas de companhias, não todas as empresas do país nem todas as que têm capital aberto. O inédito, portanto, é dentro desse grupo: entre as companhias que compõem o índice, é a primeira vez que um conselho de administração tem mais mulheres do que homens.
Fora desse recorte, conselhos com maioria feminina já existiam em empresas menores, de capital fechado e no terceiro setor. O que muda aqui é a vitrine: as integrantes do índice são as de maior liquidez e maior escrutínio de investidores, e é nelas que a composição de conselho vira referência de mercado.
O que um conselho de administração decide — e o que ele não decide
Conselho de administração não administra a empresa no dia a dia. Essa confusão é comum e ela muda o alcance da notícia.
O colegiado responde pelas decisões de longo prazo: aprova o rumo estratégico, autoriza investimentos e operações de grande porte, aprova as contas e o orçamento antes de irem à assembleia de acionistas, escolhe a auditoria independente e, principalmente, elege, avalia e destitui a diretoria executiva. É o órgão que contrata quem toca a empresa e que cobra resultado dessa equipe.
O que ele não faz: preço de produto, política de atendimento, contratação de equipe, rotina de sinistro e de venda. Isso é da diretoria executiva. Por isso o avanço na composição do conselho não se traduz automaticamente em mudança na operação — são instâncias distintas, com poderes distintos.
Também não é cargo vitalício. Conselheiro cumpre mandato de prazo determinado, definido no estatuto da companhia, e depende de reeleição pela assembleia de acionistas para permanecer. Quer dizer que a marca de 57,1% vale para a composição atual e pode mudar na próxima renovação do colegiado — não é um patamar garantido.
Quem são as quatro conselheiras
- Paula Magalhães Cardoso Neves — publicitária pela PUC-RJ, com MBA pela Fundação Dom Cabral e Pós-MBA pela Kellogg University. Foi CEO da Redecard, do eBusiness e do Banco Carrefour CSF, com passagens anteriores por HSBC e Citigroup. Integra ainda o conselho consultivo do iFoodPago, o conselho de administração da Localiza & Co. e o comitê digital da LASA.
- Lie Uema do Carmo — advogada com mais de 20 anos de atuação em direito societário, fusões e aquisições, mercado de capitais e governança corporativa. Doutora em Direito Comercial pela USP, mestre pela PUC-SP e LL.M. pela University of Chicago, é professora na FGV Direito SP. Já havia integrado o comitê de auditoria da Porto Seguro em dois períodos, de 2005 a 2010 e de 2015 a 2020.
- Patrícia M. Muratori Calfat — formada em Publicidade pela Universidade Paulista e alumni da Harvard Business School, com pós-graduação em Direitos Humanos pela PUC-RS. Foi diretora-geral de mídia na DM9DDB Brasil e ocupa hoje, na Google Brasil, o cargo de diretora do YouTube na América Latina. É também conselheira independente na Rio Alto Energias Renováveis S.A. desde 2021.
- Célia Kochen Parnes — administradora com mais de 35 anos de trajetória em gestão, governança e no setor social. Foi secretária estadual de Desenvolvimento Social de São Paulo em 2019 e liderou o conselho da Unibes por mais de três décadas. É conselheira da Fundação OSESP e da Fundação Bienal e cofundadora do Instituto Pacto Contra a Fome.
Os três conselheiros homens não foram identificados na divulgação do caso.
Por que a palavra “independente” pesa na leitura
Duas delas — Lie Uema do Carmo e Patrícia M. Muratori Calfat — são classificadas como membros independentes pelos critérios do Regulamento do Novo Mercado da B3. O termo tem definição objetiva: independente é o conselheiro sem vínculo empregatício, societário relevante ou comercial com a companhia, seu controlador ou sua administração.
A exigência existe porque o conselho fiscaliza a diretoria executiva. Quem depende financeiramente de quem é fiscalizado tende a fiscalizar menos. É por isso que a contagem de independentes costuma pesar tanto quanto a contagem por gênero na avaliação de investidores.
A diretoria executiva continua majoritariamente masculina
A própria companhia reconhece que o avanço ficou restrito a um nível de liderança. A diretoria executiva — a instância que toca a operação — segue majoritariamente masculina, e a empresa assumiu compromissos públicos de ampliar a representatividade feminina até 2030.
Esse é o ponto que separa composição de conselho de mudança estrutural: o conselho é escolhido por acionistas em assembleia e pode ser alterado numa única eleição; a diretoria depende de trajetória interna, de sucessão e de quem chega às gerências antes de chegar ao topo, o que leva anos.
O retrato do mercado por trás do número
O contraste explica por que a composição virou notícia. Segundo levantamento recente, cerca de 79,5% das empresas listadas têm menos de 30% de mulheres em seus conselhos — ou seja, na maioria dos casos a presença feminina não passa de uma ou duas cadeiras num colegiado inteiro.
Estudos aplicados ao mercado brasileiro apontam correlação entre presença consistente de mulheres em conselhos e melhor desempenho financeiro e de governança. Correlação, vale registrar, não é a mesma coisa que causa: empresas que diversificam o conselho costumam ser também as que já adotam práticas mais formais de governança, e os dois fatores caminham juntos nos levantamentos.
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