Disney fecha acordo com a OpenAI e libera personagens no Sora — Direto Notícias

Disney fecha acordo com a OpenAI e libera personagens no Sora

A Walt Disney Company anunciou um acordo com a OpenAI que inverte a relação entre as duas empresas: em vez de disputar na Justiça o uso de personagens protegidos, a dona de Mickey Mouse e Darth Vader passa a licenciar mais de 200 deles para o Sora, a plataforma de geração de vídeos por inteligência artificial da criadora do ChatGPT. O anúncio, de dezembro de 2025, prevê uma parceria de três anos e um aporte de US$ 1 bilhão da Disney na OpenAI.

O que vale hoje é o anúncio. O material divulgado descreve o desenho do acordo e informa que as experiências geradas por usuários estão previstas para o início de 2026. Não há informação sobre a data em que o licenciamento passa a valer na prática, sobre quais personagens entram primeiro nem sobre a confirmação pública dos números pelas duas empresas. Quem usa o Sora hoje não tem, por causa do anúncio, permissão automática para gerar vídeos com esses personagens.

O que estava em disputa: personagem protegido virando imagem nova

O conflito não era sobre exibir um desenho antigo, e sim sobre um sistema de inteligência artificial produzir imagens e vídeos novos com personagens que pertencem a um estúdio. Em junho de 2025, a Disney e a Universal entraram com uma ação contra a Midjourney, acusando a empresa de violar direitos autorais ao gerar imagens que replicavam personagens protegidos sem licença.

A empresa afirmou que “pirataria é pirataria, e o fato de ser feita por uma IA não a torna menos infratora”. A frase aparece como posição institucional da companhia — o material não identifica quem a assinou.

A ofensiva não parou aí. Em outubro de 2025, a Disney bloqueou o uso de sua propriedade intelectual dentro do próprio Sora, a mesma ferramenta que agora recebe seus personagens, e apoiou críticas de agências de talentos de Hollywood, que classificaram o produto como risco significativo aos direitos artísticos. A companhia também enviou ao Google cartas de cease and desist — notificações extrajudiciais que exigem a interrupção imediata de um uso considerado indevido, antes de qualquer processo — por alegadas infrações envolvendo personagens.

O que o acordo permite, segundo o que foi divulgado

  • Licenciamento: mais de 200 personagens icônicos passam a poder ser usados na plataforma de geração de vídeos Sora.
  • Exclusividade parcial: a OpenAI fica com direitos exclusivos sobre parte do catálogo, em produtos como o Sora e o ChatGPT Images.
  • Conteúdo do usuário: as experiências geradas por quem usa as ferramentas estão previstas para o início de 2026.
  • Participação societária: além do aporte, a Disney receberá warrants, que são o direito de comprar ações adicionais mais adiante, em condições combinadas.
  • Mão dupla: a Disney também vira cliente, usando ferramentas da OpenAI para construir recursos no Disney+ e para uso interno.
  • Limites: o acordo prevê o compromisso de bloquear conteúdo ilegal ou prejudicial e de proteger a voz e a imagem dos talentos associados à companhia.

O que o anúncio não respondeu

Boa parte do que interessa a quem cria, licencia ou consome esse conteúdo ficou de fora do que foi divulgado. Não foi informado:

  • se a exclusividade e o licenciamento valem apenas para o catálogo existente ou também para obras futuras;
  • quais personagens entram no acervo liberado e quais ficam de fora;
  • o que acontece com a ação em curso contra a Midjourney e com as notificações enviadas ao Google;
  • se os outros estúdios que também foram à Justiça mantêm suas ações;
  • quem divulgou o valor de US$ 1 bilhão e se houve comunicado conjunto das duas empresas confirmando a cifra;
  • o que ocorre com o licenciamento depois dos três anos de parceria.

Por que a companhia mudou de tática

A explicação apresentada é de mercado, não jurídica. Com a inteligência artificial generativa virando padrão em produtos de criação e engajamento, ficar fora da corrida custa relevância cultural e econômica — e Netflix, Meta e Google já disputam esse terreno. Sentar à mesa também dá à Disney voz na definição das regras do jogo, em vez de apenas reagir a elas. E há o lado financeiro direto: licenciar o próprio acervo abre uma linha de receita que a defesa em tribunal não abre.

Bob Iger, CEO da Disney, sintetizou a lógica ao afirmar que a tecnologia deve respeitar “criadores e suas obras”, mas também pode “estender de forma criteriosa a narrativa da Disney ao mundo”.

Um acordo, não um fim da disputa

O entendimento entre duas empresas não resolve a questão de fundo, que é saber em quais condições uma obra protegida pode alimentar ou ser reproduzida por um sistema de inteligência artificial. O que o acordo mostra é um caminho possível: em vez de proibir, cobrar e estabelecer limites contratuais. Nada no material indica que esse desenho tenha sido adotado por outros estúdios, nem que as ações judiciais em andamento tenham sido encerradas.

Aproximações entre companhias que até pouco tempo apareciam em lados opostos vêm se repetindo no setor de tecnologia, por motivos diferentes deste. Em outro caso, envolvendo outras empresas e nenhuma disputa de direitos autorais, a assistente de voz Siri passou a ser reconstruída com o Gemini, do Google — vale entender o que muda para quem tem iPhone quando duas rivais fecham um acordo desse tipo.

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