O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, revogou duas ordens executivas assinadas pelo antecessor no cargo, Eric Adams, que expressavam apoio a Israel. A revogação ocorreu logo no primeiro dia de mandato — a posse foi em 1º de janeiro de 2026 — e levou o Ministério das Relações Exteriores de Israel a publicar uma crítica direta ao prefeito na rede social X, episódio incomum entre um governo nacional e um administrador municipal estrangeiro.
O que o governo israelense publicou
A manifestação foi feita em duas partes, no mesmo perfil oficial. O texto original está em inglês:
On his very first day as New York City mayor, Mamdani shows his true face: He scraps the IHRA definition of antisemitism and lifts restrictions on boycotting Israel,
A declaração é do Ministério das Relações Exteriores de Israel, em publicação na rede social X. A segunda parte da mesma publicação diz:
This isn’t leadership. It’s antisemitic gasoline on an open fire.
Em resumo, o ministério afirma que o prefeito, já no primeiro dia, abandonou a definição de antissemitismo da IHRA usada pela prefeitura e retirou restrições ligadas ao boicote a Israel. A expressão gasolina antissemita em fogo aberto é do próprio ministério, e a acusação de antissemitismo parte dele, não é uma avaliação independente. Até a publicação do boletim que registrou o caso, não havia resposta do prefeito ao texto israelense.
O que é uma ordem executiva municipal
Ordem executiva é um ato administrativo do chefe do Poder Executivo — no caso, o prefeito — dirigido à própria máquina que ele comanda. Ela não é lei: não passa pelo Legislativo municipal, não cria crime nem tributo e não obriga cidadãos e empresas do mesmo modo que uma lei obriga.
O que ela faz é organizar a administração por dentro. Uma ordem desse tipo costuma determinar que órgãos da prefeitura adotem certo procedimento, que contratos passem a exigir determinada cláusula, que um comitê seja criado ou que um conceito específico seja usado como parâmetro na análise de denúncias. Vale enquanto durar a vontade de quem assina — e é exatamente aí que está o ponto do episódio: o prefeito seguinte pode revogar o ato do anterior com uma assinatura, sem precisar de votação, audiência pública ou processo legislativo.
O que a revogação muda na prática
Revogar uma ordem executiva não anula nada que tenha acontecido enquanto ela vigorou, nem apaga leis estaduais ou federais sobre o mesmo assunto. O efeito é para frente e é limitado ao raio de alcance da prefeitura. Na prática, três consequências são as mais concretas:
- O parâmetro interno deixa de valer. Se um ato determinava que a administração usasse determinada definição de antissemitismo ao avaliar denúncias e casos de discriminação, essa referência deixa de ser obrigatória para os órgãos municipais. A conduta continua sujeita às leis antidiscriminação em vigor; muda o texto que servia de régua administrativa.
- As restrições ligadas a boicote saem do fluxo de contratação. Quando uma ordem condiciona contratos, compras ou investimentos da cidade à postura do fornecedor em relação a um país, revogá-la retira essa exigência dos processos da prefeitura.
- A mudança é reversível. Como não depende do Legislativo, um novo ato pode restabelecer as regras anteriores a qualquer momento, inclusive por outro prefeito.
O simbolismo, porém, pesa mais que o efeito jurídico. Ordens executivas de apoio a um país estrangeiro têm alcance prático estreito, mas funcionam como sinalização política — e é a sinalização, mais do que a norma revogada, que está no centro da reação.
A posse com dois Alcorões e a presença de Bernie Sanders
Mamdani prestou juramento sobre dois Alcorões de família, em cerimônia realizada em 1º de janeiro de 2026. Entre os presentes estava o senador Bernie Sanders, de Vermont, que compareceu sem as luvas que se tornaram sua marca visual em eventos ao ar livre — detalhe que rendeu manchete própria no boletim de origem.
Os outros itens do mesmo boletim
O texto que deu origem a esta matéria é um boletim de política dos Estados Unidos e reúne assuntos distintos. Vale separar o que é o caso Mamdani do que apenas divide espaço com ele na mesma edição:
- Um levantamento aponta as cidades americanas que poderiam receber envio da Guarda Nacional em 2026, dentro da agenda de segurança da Casa Branca.
- Outra reportagem lista cinco mudanças de política migratória que passam a valer em todo o país.
- O FBI informou ter frustrado um suposto plano de ataque na véspera de Ano Novo, inspirado no ISIS, que teria como alvo um supermercado na Carolina do Norte. O suspeito, Christian Sturdivant, de 18 anos, foi acusado de tentar fornecer apoio material a organização terrorista estrangeira — acusação, não condenação.
- No noticiário internacional, o boletim trata da repressão interna no Irã e das opções americanas aquém da intervenção militar, além do aumento de tensão entre China e Taiwan.
- Em Washington, a pauta é a disputa que pode definir o controle do Congresso nas eleições de 2026.
Vale registrar que a publicação de origem é um veículo estrangeiro com linha editorial própria e que as falas reproduzidas aqui são de uma das partes envolvidas. As acusações são atribuídas a quem as fez.
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