Aula de campo em São Mateus leva turma de Ibiraçu a quilombo

Alunos da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Narceu de Paiva Filho, de Ibiraçu, deixaram o município para uma aula de campo em São Mateus dedicada à história dos povos negros e à resistência dos escravizados. A atividade é de agosto de 2024, terminou naquele mesmo dia e completa dois anos agora. Nada aqui está em aberto: não há inscrição, roteiro à venda nem convite ao público — restou o registro de uma jornada escolar cumprida e encerrada.

Foi a saída de uma turma, organizada pela própria unidade de ensino. O material divulgado não menciona calendário comum, verba destinada, meta de rede nem coordenação acima da escola, e não anuncia repetição com outras turmas. Quem lê e pensa em cobrar percurso igual na escola dos próprios filhos precisa saber com o que está lidando: uma aposta de professores alcança uma turma e dura o que durar a disposição de quem a puxou; diretriz com orçamento atrás é outra coisa. Três semanas depois desta aula de campo, em setembro de 2024, outra turma da mesma escola, em Ibiraçu, escreveu cordéis e montou um mural aberto a quem circulava pelo prédio — outro trabalho, outra turma, o mesmo endereço.

Sítio Histórico do Porto, Casa de Constância e Quilombo São Cristóvão: três paradas sem cena

O texto oficial nomeia três lugares — o Sítio Histórico do Porto, a Casa de Constância e o Quilombo São Cristóvão — e não informa se houve outras paradas no percurso. Sobre o que a turma fez em cada um deles, existe um verbo só: os estudantes exploraram os três pontos. Não há trilha percorrida, conversa com morador, oficina, medição, entrevista nem registro produzido pelos alunos. Ninguém aparece recebendo o grupo. Dá para dizer onde a turma pisou; o que ela fez enquanto esteve lá, não.

Os endereços também não são explicados. São apresentados apenas como pontos que guardam passagens do percurso afrodescendente no país — e o texto encerra o assunto nessa linha. Não conta o que foi a Casa de Constância, de que época é o Sítio Histórico do Porto, quantas famílias vivem no Quilombo São Cristóvão nem em que parte do município cada um fica. Percursos parecidos voltaram a São Mateus depois: em outubro de 2025, mais de um ano após esta saída, outra visita pedagógica levou uma turma da rede estadual a pontos históricos da mesma cidade.

Segunda-feira (19) ou sexta-feira (16): a data da aula de campo em São Mateus não bate

Há uma divergência de calendário entre as duas versões do mesmo release, e ela não se resolve por dedução. A página oficial da rede estadual data a saída de uma segunda-feira, dia 19. A versão que circulou a partir daquele material traz sexta-feira, dia 16. Cada texto é coerente consigo mesmo — um casa o dia da semana com o número 16, o outro casa com o 19 —, de modo que não existe pista interna que derrube nenhum dos dois. As duas datas ficam aqui, com a procedência de cada uma, porque nenhuma foi confirmada por terceira via.

Imersão e senso crítico eram os objetivos; o efeito ficou sem descrição

O material declara o que a saída pretendia alcançar: aproximar os estudantes da história e da cultura dos povos negros, promover imersão e reforçar neles senso crítico e consciência social. Tudo isso é intenção, escrita para justificar a atividade. Uma aula que aconteceu comprova agenda cumprida, não aprendizado obtido — e o texto em momento nenhum diz o que a turma passou a saber, o que foi cobrado depois ou o que a saída mudou no trabalho de sala.

Quem avalia o efeito é a própria escola. Na fala divulgada, o professor de História se coloca como quem levou os alunos, chama a saída de viagem no tempo e diz ter enxergado reação no grupo:

Foi magnífico levar os alunos para vivenciar o encontro com nossas origens e com os povos tradicionais. Eles registraram tudo em suas memórias e consciências. Em alguns, foi visível a indignação com as vulnerabilidades de comunidades tão importantes para nossa história e identidades

Assina a frase Cassio Coelho Barbosa, professor de História da escola, num relato prestado ao próprio comunicado oficial — a única voz adulta ouvida sobre o dia.

A eletiva citada pela aluna é a única pista de currículo no texto

Quais componentes curriculares organizaram a saída, o material não diz. A única indicação aparece de raspão, dentro da fala de uma estudante, que conta estar tratando o tema na eletiva. Eletiva, no jargão da escola, designa a parte do Ensino Médio em que o aluno opta por um tema entre as ofertas da unidade, além da carga que todos cumprem igual. Qual é essa eletiva, quem a conduz, há quanto tempo ela corre e se a aula de campo valeu como avaliação: nada disso está escrito.

Pude ver com outros olhos a verdadeira realidade da vida do povo quilombola. Foi incrível ver um povo tão sofredor nunca desistir. Na eletiva, estamos aprendendo a cada dia o significado da representatividade do povo negro no Brasil, e contextualizar isso com os lugares visitados foi enriquecedor

Falou uma estudante da turma que participou da saída, também em depoimento recolhido pelo material oficial. O ensino de história e cultura negra tomou outros formatos na sequência: em dezembro de 2024, quatro meses depois desta aula de campo, uma escola de São Mateus passou a usar um jogo eletrônico para contar a história da resistência negra no Brasil.

A estudante que falou entra aqui sem nome; o professor de História, não

O texto oficial identifica a autora do depoimento acima. Esta reportagem, não. Não é dúvida sobre o que ela disse: a fala está reproduzida inteira, sem corte por dentro. É que nome de aluno colado à escola e à cidade deixa rastro permanente em buscador sobre alguém que ainda cursa a educação básica, e um depoimento não é ato público — ela não foi eleita, convocada por lista oficial nem premiada individualmente; contou a um comunicado o que achou de um dia de estudo fora da escola. Com o professor a conta é outra: adulto, servidor da rede e autor da proposta, ele assina profissionalmente o que organizou — e por isso segue identificado.

Quem pagou o deslocamento até São Mateus, e o resto que ficou sem resposta

A turma saiu de Ibiraçu e a aula aconteceu em outra cidade. Deslocamento custa dinheiro, exige autorização e consome um turno inteiro — e é justamente aí que o comunicado emudece: não há uma linha sobre transporte, custo, quem bancou nem quem autorizou. Falta também a outra ponta. As duas falas divulgadas vêm de dentro da escola, professor e aluna; de fora dela, ninguém — nem morador, nem liderança, nem representante dos lugares percorridos. Como o grupo foi recebido, se houve acerto prévio e com quem, o comunicado silencia. Não é defeito exclusivo deste caso: já em maio de 2025, uma turma de outra escola da rede caminhou por trilha e roteiro histórico dentro de uma comunidade quilombola, e ali também nenhum morador foi ouvido pelo material oficial.

O que não foi informado ocupa mais espaço que o informado:

  • quantos estudantes participaram, de que série e de quantas turmas;
  • quantos profissionais acompanharam o grupo;
  • como a turma chegou a São Mateus e quem arcou com o transporte;
  • quanto tempo durou a aula de campo e em que horário;
  • quem recebeu os estudantes em cada um dos três pontos e se houve combinação prévia;
  • o que é, historicamente, cada um dos lugares percorridos;
  • qual eletiva e quais disciplinas, além de História, entraram no trabalho;
  • se a saída gerou algum produto — relatório, exposição, seminário, mural, registro fotográfico;
  • se houve avaliação depois, e de que tipo;
  • se outras turmas da escola farão o mesmo percurso.

Sobre o último item cabe uma ressalva. O material não nega que haverá nova edição — ele simplesmente passa ao largo do tema. Isso é lacuna, não recusa: ausência de menção não equivale a resposta negativa, e ninguém pode ler no texto uma promessa que ele não faz.

Fica uma observação final sobre a natureza do papel de onde tudo isto saiu. A atividade foi narrada pela mesma estrutura que a executou, e ninguém de fora entrou na conversa: nenhum avaliador independente, nenhuma resposta dos lugares percorridos, nenhuma voz em desacordo. Documento com essa origem entrega o recorte que interessava a quem o assinou.

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