A Secretaria da Educação (Sedu) fechou 2024 com mais de 90 mil certificações emitidas em ações de formação continuada de professores e demais profissionais da Rede Estadual de Ensino, e um investimento declarado como superior a R$ 3 milhões. Os números vêm de um balanço que a própria secretaria divulgou em janeiro de 2025, dentro de uma série de retrospectivas do ano anterior. É um registro fechado, não uma oferta em aberto: o material não traz calendário, canal de inscrição, prazo nem qualquer informação sobre a continuidade dos cursos.
As ações ficaram a cargo do Centro de Formação dos Profissionais da Educação do Espírito Santo (Cefope), a estrutura da Sedu encarregada de capacitar quem trabalha na rede. Ainda segundo o balanço, foram mais de 100 cursos ao longo do ano.
A formação continuada de professores em 2024, item a item
Separando cada linha do material pelo estágio em que ela se encontra, pela cifra que carrega e por quem executou, o balanço fica assim:
- Certificações emitidas — mais de 90 mil. Estágio: concluído, dentro de 2024. Executor: Cefope. Valor da linha: não divulgado.
- Cursos oferecidos — mais de 100. Estágio: concluído. Executor: Cefope. Valor da linha: não divulgado.
- Curso de Noções Básicas em Primeiros Socorros – Presencial — cerca de nove mil profissionais certificados. Estágio: concluído. Executores: Cefope e Corpo de Bombeiros Militar do Espírito Santo (CBMES), dentro do Projeto Juntos. Valor da linha: não divulgado.
- Investimento — superior a R$ 3 milhões. Estágio: apresentado como gasto já realizado no ano. Responsável: Sedu. Sem repartição por curso, por área ou por tipo de despesa.
Duas coisas saltam da lista. A primeira é que três das quatro linhas não têm cifra nenhuma — o dinheiro aparece só como total. A segunda é que o único curso nomeado no balanço, o de primeiros socorros, é também o único em que a contagem é de pessoas, e não de certificados.
Os R$ 3 milhões aparecem duas vezes, e são o mesmo dinheiro
A cifra de R$ 3 milhões surge em dois pontos do texto oficial: na linha de abertura, amarrada ao conjunto das mais de 90 mil certificações, e mais adiante, amarrada aos profissionais certificados até o final de 2024 em formações diversas. É o mesmo valor repetido, não dois investimentos. Quem lê corrido conta o dobro do que existe.
A repetição deixa um problema em aberto: o escopo do total. O material não diz se os R$ 3 milhões cobrem todas as mais de 100 formações do ano ou apenas a fatia descrita naquele segundo trecho. As duas leituras cabem no que a Sedu escreveu, e o balanço não escolhe uma.
Também não há como conferir a conta por dentro. O balanço traz um total de certificações, um total de cursos, uma contagem de nove mil no curso de primeiros socorros e um valor global — e nenhuma parcela que ligue uma coisa à outra. Não informa quanto custou um curso isolado, nem quantas certificações vieram de cada um. Dividir o total pelo número de certificados produziria um valor médio que a secretaria não divulgou; por isso ele não aparece aqui. Os números publicados são os do órgão, na forma em que o órgão os publicou.
Certificação não é professor: 90 mil documentos não são 90 mil pessoas
Esta é a distinção que o balanço não faz e que muda a leitura de tudo o mais. O que foi contado são certificações emitidas, ou seja, documentos de conclusão de curso. Um mesmo profissional que conclua três formações no mesmo ano gera três certificações. O material não informa quantas pessoas distintas passaram pelas formações — e, sem esse dado, não é possível afirmar que 90 mil profissionais foram capacitados em 2024.
A diferença está visível dentro do próprio texto oficial. Para o curso de primeiros socorros, a Sedu conta cerca de nove mil profissionais. Para o conjunto do ano, conta certificações. São duas unidades de medida diferentes na mesma página, e o balanço não converte uma na outra.
A mesma cautela vale para o alcance da política. O material não diz qual proporção da rede foi atingida, quantos servidores a Rede Estadual de Ensino tem, quantos se inscreveram e desistiram, nem quantos concluíram o que começaram.
A lista de temas é recorte, não catálogo
O balanço cita seis frentes de formação: Letramento Racial, Educação em Tempo Integral, Atendimento Educacional Especializado (AEE), Itinerário de Educação Profissional e Técnica (EPT), Metodologias Inovativas e Gestão Democrática. A relação é parcial. O texto oficial a apresenta como exemplos de temas trabalhados, e no mesmo parágrafo fala em mais de 100 cursos. Ler as seis frentes como se fossem a grade do ano é contar bem menos do que houve — e a relação completa das formações não foi divulgada.
Vale traduzir o que o material usa sem explicar. O Atendimento Educacional Especializado é o apoio complementar oferecido a estudantes com deficiência, transtornos do desenvolvimento ou altas habilidades, em paralelo à sala de aula comum. O Itinerário de Educação Profissional e Técnica é a parte do ensino médio voltada à formação para o trabalho, escolhida pelo estudante além da base comum. E o Regime de Colaboração com os Municípios, citado como alinhamento das ações, é o arranjo em que a rede estadual e as redes municipais atuam de forma articulada em vez de isolada — embora o balanço não detalhe quantos municípios participaram nem em que cursos.
O que o balanço se propôs a mostrar e o que ele efetivamente mede
O texto oficial atribui às formações um papel na melhoria da qualidade da educação e dos indicadores educacionais capixabas. O balanço, porém, não apresenta um único indicador: não há nota, série histórica, comparação com anos anteriores nem avaliação do efeito dos cursos sobre a sala de aula. O que ele mede é atividade — quantos cursos houve, quantos certificados saíram, quanto se gastou. Atividade e resultado não são a mesma coisa, e a ponte entre as duas é afirmada pela própria secretaria, sem número que a sustente no material.
O verbo também pede leitura atenta. O balanço fala em investimento superior a R$ 3 milhões, sem informar se o valor foi empenhado, liquidado ou efetivamente pago dentro do exercício — três estágios distintos da despesa pública, que descrevem situações diferentes. Tampouco informa a origem do recurso.
Quem fala no balanço
A única passagem do material que descreve o conteúdo dos cursos é a fala da gerente do Cefope, que resume o desenho da oferta:
Oferecemos uma variedade de cursos que abordam as necessidades atuais do ensino, preparando os profissionais para enfrentar os desafios do dia a dia e melhorar suas práticas, seja em termos de novas metodologias, do uso de tecnologia na sala de aula e ainda nas dimensões da gestão e liderança no que se refere aos gestores educacionais
A descrição é de Karoliny Mendes da Costa, gerente do Cefope.
A outra declaração do balanço é do secretário de Estado da Educação, Vitor de Angelo, e não acrescenta informação verificável. Ela reafirma o compromisso da pasta, aponta o Ideb como aquilo que mais evidencia o trabalho do ano — sem informar edição, etapa de ensino ou nota — e se encerra com um agradecimento ao governador. Por ser integralmente avaliativa, não foi reproduzida aqui.
O órgão avaliando a si mesmo
As duas vozes do balanço pertencem à mesma secretaria que executou as formações e que agora as julga. Não há no material um único professor que tenha feito os cursos, nenhum estudante, nenhuma entidade representativa dos profissionais da educação, nenhum colegiado de acompanhamento da política educacional, nenhum levantamento produzido fora do governo e nenhuma voz de oposição.
Isso não invalida os números: eles são a informação que o órgão prestou, e é o órgão que responde por ela. Mas convém registrar o que a ausência significa. Não haver crítica no material não é o mesmo que haver consenso — significa apenas que ninguém foi ouvido para divergir.
O que o balanço não informa
- Quantos profissionais distintos se formaram, já que o número divulgado é de certificações.
- Quanto custou cada curso e como os R$ 3 milhões se repartem.
- Se os R$ 3 milhões cobrem o ano inteiro ou apenas parte das formações.
- A distribuição das vagas por município ou por regional de ensino.
- A taxa de conclusão: quantos começaram e quantos terminaram cada curso.
- A carga horária das formações e se houve dispensa de ponto, pagamento ou progressão vinculada à participação.
- Qual efeito as formações tiveram, de forma medida, no trabalho em sala de aula.
- Como um profissional da rede se inscreve, em que período e por qual canal.
- Se os cursos citados foram repetidos nos anos seguintes.
- A relação completa das mais de 100 formações.
O que ainda vale hoje
O balanço é um retrato de 2024, publicado em janeiro de 2025, e é assim que ele precisa ser lido mais de um ano depois. Do que está no material, permanece válido só o registro histórico: certificados emitidos naquele ano não caducam, e a contagem do período não muda. Tudo o que tem aparência de oferta — os cursos, as áreas, a parceria de primeiros socorros — descreve o catálogo de um ano encerrado, e nada no texto garante que a mesma grade siga disponível. Quem procura formação continuada agora precisa conferir a oferta corrente do Cefope: este documento não é edital, não abre inscrição e não fixa prazo.
A retrospectiva da formação de professores foi só uma das peças que a Sedu publicou sobre 2024. No dia anterior, a secretaria havia divulgado o balanço das ações de apoio psicossocial e de combate à evasão escolar na rede estadual, outro capítulo da mesma série — e um bom contraponto para ver o que o número de certificados, sozinho, não mostra.
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