Alunos da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Ana Monteiro de Paiva, em Alegre, montaram e apresentaram uma quadrilha afro junina batizada de Nas Terras do Quilombo: Amor, Resistência e Festa!. Participaram estudantes do 6º ano do Ensino Fundamental à 3ª série do Ensino Médio, e o espetáculo fechou um trabalho interdisciplinar da escola. A apresentação já ocorreu: o comunicado da rede estadual que a divulgou é de julho de 2025, não registra a data exata em que a quadrilha foi ao palco e não anuncia nova edição.
Quem fez a quadrilha afro junina: roteiro, música, coreografia e figurino saíram dos alunos
É o ponto que o material oficial sustenta com mais detalhe, e é o que diferencia o projeto de uma apresentação escolar comum. A organização coube a dois professores da casa: Ronilson Oliveira Paulino, de Geografia, e Ulysses Santos Liberatori, de Sociologia e Filosofia. A criação, essa ficou com os estudantes. Foram eles que construíram o roteiro, escolheram as músicas, criaram as coreografias e produziram os figurinos e os adereços afro juninos.
A distinção importa para quem lê. O comunicado não descreve coreógrafo contratado, ensaiador de fora nem grupo cultural convidado para montar o número. Ele credita a criação aos próprios alunos, com os dois professores na organização. Quem procura saber quem ensinou os passos encontra, no material, uma resposta única: a escola diz que os passos foram criados dentro dela.
No palco, um professor narrando e outro na trilha sonora
Durante a apresentação, o professor Ronilson Paulino assumiu a narração e explicou, em tempo real, cada elemento cultural e histórico que estava sendo representado. Na prática, o público recebeu a explicação junto com a dança, e não depois dela, o que transforma a plateia em parte da aula.
A parte sonora ficou com o professor Ulysses Liberatori, que mesclou ritmos afro-brasileiros ao samba junino. O acompanhamento, informa o comunicado, teve tambores, berimbau e cantos tradicionais.
Os quadros que entraram no espetáculo, e o que o material deixa sem explicar
Os números nomeados no texto oficial são a dança da colheita, o casamento afro, a dança do xirê e o tradicional bate-flechas. Segundo o documento, o conjunto simboliza resistência, espiritualidade e celebração das raízes afro-brasileiras.
Até aí vai o documento. Ele não explica o que cada quadro representa, não diz de onde vieram as referências que a escola usou e não menciona a participação de mestres, de grupos culturais ou de moradores de fora da escola na pesquisa ou na montagem. Quem lê fica com a lista dos números apresentados, não com o significado de cada um.
O que disseram o professor e a estudante
Foi emocionante ver os alunos se reconhecendo como parte ativa da história afro-brasileira. A quadrilha não foi apenas uma apresentação, mas uma aula viva de cidadania e cultura. Cada passo de dança contava uma história de luta, amor e resistência
A avaliação é do professor Ronilson Oliveira Paulino, um dos organizadores do trabalho.
Eu nunca tinha dançado quadrilha falando de quilombo. Aprendi que festa também é lugar de lutar, lembrar dos nossos ancestrais e mostrar que a gente tem orgulho da nossa cor. Foi a melhor festa junina que já participei!
O relato é da estudante Rhutyelly Narcizo de Andrade, que participou da apresentação.
As matérias que desembocaram todas no mesmo espetáculo
As finalidades que a escola declara para o trabalho são estas:
- dar valor à cultura afro-brasileira dentro da própria festa junina, em vez de tratar as duas coisas como assuntos separados;
- estimular o respeito à diversidade étnico-racial;
- colocar o estudante como autor das narrativas culturais, e não como intérprete de um roteiro que chega pronto;
- puxar para dentro da brincadeira conteúdos de História, Geografia, Arte, Língua Portuguesa e Sociologia.
É o que a escola chama de trabalho interdisciplinar: em vez de cada matéria tratar o assunto separadamente, na sua própria aula e na sua própria prova, o conteúdo de todas elas desemboca num único produto. Aqui, esse produto foi o espetáculo, e ele veio no fim do percurso, como fechamento.
Vale reparar no vocabulário do próprio documento. Ele fala em valorizar a cultura afro-brasileira e em alunos que se reconhecem como parte ativa dessa história. Não fala em recuperar nada que estivesse perdido. A diferença não é de estilo: uma coisa é a escola abrir espaço, no calendário e no palco, para uma cultura que já é a dos seus estudantes; outra, bem diferente, seria tratar essa cultura como algo distante que alguém precisaria trazer de volta.
Os resultados que a escola declara, e como eles foram apurados
O documento credita ao projeto avanços de naturezas diferentes. No comportamento, fala em competências socioemocionais, em criatividade, em trabalho de grupo e em consciência histórica. No conteúdo, afirma que os alunos passaram a entender melhor o que a escravidão deixou como consequência, para que serviram os quilombos e por que a festa também funciona como espaço de resistência. Aponta ainda progresso na fala em público, na expressão do corpo e no uso que os estudantes fazem dos símbolos da cultura afro-brasileira.
O material não informa como esses avanços foram medidos. Não cita prova, trabalho avaliado, critério de correção nem comparação com quem não participou. É a leitura da própria escola sobre o próprio projeto, e o leitor precisa saber disso para dimensionar o que está lendo.
O que o comunicado não informa
- a data e o local da apresentação: se foi em dia letivo, à noite, no pátio da escola ou fora dela;
- quantos estudantes subiram ao palco, e de quantas turmas;
- se houve público além da comunidade escolar, e se as famílias foram convidadas;
- se alguém de fora da escola participou da pesquisa, dos ensaios ou da produção;
- quanto tempo durou o projeto até chegar à apresentação;
- se o trabalho terá continuidade, será repetido ou entrará no calendário da escola;
- se a apresentação foi gravada e se o registro ficou disponível para quem não assistiu.
Um lado só, e o que isso significa para quem lê
Todo o relato vem de material oficial de divulgação da rede estadual, com fala de um dos professores organizadores e de uma estudante participante. Não há avaliação de quem assistiu de fora, nem manifestação de família, de outras escolas ou de qualquer instância independente. Ausência de crítica no material não é o mesmo que consenso: é o alcance do documento, que foi escrito para divulgar.
Para quem chega agora, a situação é esta: o espetáculo é fato encerrado, e nada no material indica repetição. Quem quiser saber se a quadrilha afro junina volta em nova edição precisa perguntar diretamente à escola, porque o texto que a divulgou não trata do assunto.
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