A premiação da OBMEP no Espírito Santo pela edição de 2024 aconteceu em setembro de 2025: o que se lê aqui é a memória de uma festa encerrada, e não a chamada para uma que ainda vá ocorrer. Na terça-feira (16), no Centro de Convenções de Vitória, a Secretaria da Educação (Sedu) chamou ao palco 296 estudantes na Cerimônia Capixaba de Premiação da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas e Privadas (OBMEP): 23 com medalha de ouro, 68 com prata e 205 com bronze. O governador Renato Casagrande e o secretário de Estado da Educação, Vitor de Angelo, acompanharam a solenidade, ao lado de professores, familiares, gestores escolares e representantes de instituições de ensino.
Falta ao comunicado uma informação elementar: ele identifica a data apenas por uma terça-feira e por um número de dois dígitos, sem mês e sem ano. Confrontado o calendário com o dia em que o material foi publicado, essa terça-feira é 16 de setembro de 2025. O órgão não datou o próprio evento; a conta acima foi feita aqui.
Medalha, e mais o quê? A nota descreve só o metal
O texto registra que os 296 foram homenageados pelo desempenho na competição e associa cada um a uma faixa de metal. Aí termina a descrição do que saiu da cerimônia. Certificado, dinheiro, bolsa, vaga em etapa seguinte, apoio de qualquer natureza — nada disso é citado como parte do que o estudante recebeu.
Fica em aberto também quem decidiu essas medalhas. O material trata a solenidade como capixaba e as medalhas como fruto de uma competição nacional, sem esclarecer se as peças entregues ali são as que a organização da olimpíada atribuiu ou uma honraria estadual montada em paralelo sobre o mesmo resultado. Tampouco se sabe quem bancou as peças, quem bancou a festa e quem, afinal, assina a premiação: três papéis que o comunicado deixa embolados num só.
Vale reparar no que o 296 está contando: pessoas. O que se mede ali é quantos estudantes foram chamados, arrumados em três faixas de metal que fecham com esse mesmo total. Em nenhum trecho as peças distribuídas são contadas — e trocar gente por objeto no meio de um balanço já desfigurou muito número oficial.
Sem denominador: 296 entre quantos?
Aqui está o que mais falta. Em nenhum ponto o comunicado diz quantos estudantes capixabas fizeram a prova da edição de 2024 — nem na primeira fase, nem na segunda —, quantas escolas do Estado inscreveram alunos ou de que tamanho foi a disputa nacional. Sem denominador, o 296 vira número sem régua: um Estado que dobrou o total de inscritos e um Estado que passou a ensinar melhor produzem exatamente o mesmo anúncio.
Falta ainda o recorte por rede de ensino. O nome da competição, tal como o próprio texto o escreve, alcança escolas públicas e privadas, e a plateia reuniu representantes de instituições de ensino em geral. Quantos dos 296 estudavam na rede que a Secretaria administra ninguém informa.
A premiação da OBMEP no Espírito Santo tem duas datas, e nenhuma é a da prova
Decidir quem ganha e entregar a peça são momentos distintos, e neste caso o intervalo entre eles beira um ano. A edição disputada é a de 2024; a solenidade narrada no material é de setembro de 2025. Ninguém foi escolhido medalhista naquela terça-feira — quem subiu ao palco carregava o título havia meses e foi ali apanhar o objeto que o comprova.
O começo do ciclo está registrado: o desempenho capixaba na edição de 2024 foi divulgado ainda em dezembro daquele ano, bem antes desta cerimônia. E a entrega tampouco foi um ato único: em junho de 2025, um grupo de medalhistas da mesma edição já havia recebido as peças em outra solenidade no Estado, três meses antes do encontro em Vitória. Se o ato de setembro fechou o ciclo ou apenas se somou aos anteriores, e por que a edição de 2024 demorou tanto a chegar às mãos dos premiados, o comunicado não explica.
Nenhuma escola e nenhum município na relação
Para quem lê fora da capital, a pergunta é direta: de onde vieram esses 296? A nota não responde. Ela não publica a lista dos premiados, não nomeia uma única escola e não cita nenhum município além de Vitória, que aparece apenas como sede do evento. Não há distribuição por região, não há contagem de cidades com medalhista, e o texto sequer diz onde tal relação poderia ser consultada.
O silêncio não autoriza a conclusão contrária. Um documento sem recorte municipal não está dizendo que esta ou aquela cidade ficou de fora — está dizendo que foi escrito sem o recorte de que precisa quem mora longe da capital.
Três trechos entre aspas, e só um é declaração
O release apresenta três passagens entre aspas. Só a primeira resiste ao teste de ser fala de alguém, e ela carrega um dado concreto:
“Quero parabenizar todos os estudantes que participaram e também aos que foram premiados. A matemática nos segue em todos os momentos da nossa vida. Na pandemia, por exemplo, as nossas decisões foram tomadas com base em uma matriz de risco que utilizava dados estatísticos. A matemática nos ensina a ter um pensamento lógico e prático. Quando você apresenta um dado, você convence mais do que um grande e belo discurso”
Casagrande falava a professores, famílias e gestores escolares, no Centro de Convenções, quando puxou o exemplo da pandemia — o único ponto de todo o material em que a matemática aparece amarrada a uma decisão concreta de governo, e não a elogio.
A segunda passagem, também do governador, é celebração de cerimônia do início ao fim: diz que o prêmio dos alunos é, no fundo, um prêmio para o Estado, e associa ensino de qualidade a benefício coletivo. Fato novo, nenhum — e por isso ela não foi transcrita.
A terceira é o caso mais estranho, e o defeito é da fonte. Vem entre aspas e atribuída ao secretário, mas está escrita na terceira pessoa, chamando-o de o gestor. Ninguém se cita assim. O que o comunicado publica como declaração é prosa do próprio redator sobre o que o secretário teria pensado. E a linha de abertura que anuncia esse trecho fala de outra coisa: garante que ele teria realçado o papel da competição como estímulo ao protagonismo estudantil, expressão que some por completo do que vem citado logo abaixo. A apresentação e a suposta fala tratam de assuntos distintos — e o efeito prático é que nenhuma frase do secretário chega ao leitor com autoria confiável.
O que a rede oferece antes da prova
A medalha não é apresentada como mérito isolado de cada escola. O comunicado descreve o Programa Matemática na Rede, que o Governo do Estado mantém junto com a Coordenação Regional da OBMEP/ES e com a Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes), e cita duas frentes pelo nome: a Iniciação Científica de Matemática e a Monitoria de Matemática. A finalidade declarada tem três partes — difundir conhecimento como caminho de inclusão social, elevar a qualidade da Educação Básica e aproximar as escolas de universidades, institutos de pesquisa e sociedades científicas.
Antes das entregas, a programação teve uma Minifeira: projetos montados por estudantes da Rede Pública de Ensino dividiram espaço com os de laboratórios de instituições de Ensino Superior. Houve também roda de conversa com multimedalhistas da olimpíada.
Nenhum número liga o programa aos 296. Quantos medalhistas passaram por ele é informação ausente. E a porta de entrada fica igualmente fechada: para quem quiser a iniciação científica ou a monitoria, faltam regra de seleção, data, quantidade de vagas e endereço onde se candidatar.
A conta é de medalhas; de aprendizagem, não há nenhuma
Convém separar o que um balanço desses de fato mede. Cerimônia realizada é atividade. Medalha contada é o desempenho da ponta de uma prova voluntária, feita por quem se inscreveu e chegou à fase final. Nenhuma das duas coisas é indicador de aprendizagem do conjunto da rede — e o material não oferece um só: nem nota, nem percentual de acerto, nem evolução por ano de escolaridade, nem confronto com qualquer outra régua educacional.
Quem quiser inscrever um aluno não sai daqui com um endereço
Encerrada a leitura, o pai ou o professor que quiser colocar alguém na disputa fica sem caminho. Nada de site, telefone, e-mail, prazo ou instrução de inscrição, e nenhuma palavra sobre a edição seguinte. O problema não é um link que parou de funcionar: link nenhum foi publicado.
Duas leituras ajudam a preencher a lacuna. Como a disputa funciona — de quem é a tarefa de inscrever, quantas fases a prova tem, quem pode concorrer — já foi destrinchado a partir do comunicado que abriu as inscrições no início de 2025, um passo anterior a esta cerimônia. E a competição seguiu tendo edições depois dela: em fevereiro de 2026 as escolas voltaram a ter prazo para inscrever alunos — momento posterior a este texto, com datas e regras próprias, que se confirmam na secretaria da escola.
O que falta para saber se 296 é muito ou pouco
- Quantos estudantes capixabas fizeram a prova da edição de 2024, em qualquer fase.
- Quantas escolas do Estado inscreveram alunos, e quantas terminaram com medalhista.
- De que municípios vieram os 296.
- Quantos estudavam em escola estadual, municipal, federal ou particular.
- Quem atribuiu as medalhas entregues: a organização da competição ou o Estado.
- Se veio junto com o metal algum certificado, apoio financeiro ou convite para etapa seguinte.
- O custo das peças e da solenidade, e de que orçamento ele saiu.
- Que fatia dos 296 passou pelo Programa Matemática na Rede.
- Que caminho leva um aluno à Iniciação Científica de Matemática e à Monitoria de Matemática.
- Quantas cerimônias houve no Estado para a mesma edição, e se esta foi a última.
Resta dizer de onde saiu tudo isso. As duas vozes do material pertencem à cúpula da estrutura que organizou a festa: o governador e — de forma duvidosa, como se viu acima — o secretário. Nenhum dos 296 medalhistas foi ouvido. Nenhum professor de Matemática que preparou essas turmas foi ouvido. Nenhuma direção de escola, nenhum avaliador de fora do Estado. Quem saberia dizer se a medalha mudou alguma coisa na trajetória escolar do premiado é justamente quem não foi procurado.
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