A Operação Atlas, apresentada como o maior exercício militar conjunto das Forças Armadas em 2025, movimentou meios por mais de 92 mil quilômetros até chegar às áreas de treinamento na Amazônia. A fase final foi acompanhada em Boa Vista, em Roraima, na sexta-feira (3), pelo ministro da Defesa, José Mucio Monteiro. Antes de qualquer tiro de exercício, o problema a resolver era outro: como levar navio, blindado, aeronave, tropa e combustível até onde não existe estrada.
O que os 92 mil quilômetros dizem — e o que ainda não foi informado
O número é a soma dos deslocamentos realizados para montar o exercício, e não a distância de um único trajeto. Ele reúne percursos por mar, por rio, por ar e por terra, feitos por unidades que partiram de pontos diferentes do país e convergiram para a mesma região.
Falta, porém, a referência que dá sentido ao total. Não foi divulgado em quantos dias a movimentação foi concluída, nem quanto coube a cada meio de transporte — quantos quilômetros por via aérea, quantos por via fluvial e marítima, quantos por estrada. Também não há detalhamento das cidades de origem dos comboios. Sem essas informações, o total serve para dimensionar o esforço, mas não permite comparação com outras operações.
Por que logística é o problema central de uma operação na Amazônia
Em grande parte da região, o transporte pesado não tem alternativa rodoviária contínua: os trechos são vencidos por embarcação ou por aeronave. Isso muda a natureza do planejamento militar. Um blindado que rodaria por conta própria em outra parte do país precisa ser embarcado; uma tropa que chegaria de ônibus depende de vaga em avião ou em navio.
A consequência prática é que tudo o que a força vai consumir viaja junto. Combustível, munição, peças de reposição, água, alimentação e estrutura de manutenção têm de ser levados na mesma janela em que a tropa se desloca, porque não há como recorrer a um fornecedor próximo. Cada quilômetro percorrido, portanto, representa também carga que precisou ser embarcada, abastecida e recebida no destino.
Navios como base móvel na Frente Leste
Na chamada Frente Leste, com saída a partir de Belém, a Marinha empregou o Navio Aeródromo Multipropósito Atlântico, descrito como a maior embarcação de guerra da América Latina. Um navio dessa classe funciona como plataforma flutuante: leva helicópteros, opera pouso e decolagem em alto-mar e concentra a bordo alojamento, oficina e depósito, o que reduz a dependência de instalações em terra.
O navio Almirante Saboia foi usado no transporte de tropas e de helicópteros. Aeronaves P-95 Bandeirulha da Força Aérea fizeram o patrulhamento da Foz do Amazonas. A escolha por meios navais na parte leste do exercício é, em si, uma resposta ao terreno: onde o acesso é fluvial e costeiro, o navio faz o papel que em outra região caberia a um comboio de caminhões.
500 blindados em terreno que não foi feito para eles
Em Roraima, cerca de 500 veículos blindados — entre eles os modelos Leopard, Guarani e o sistema de artilharia Astros — operaram em terreno amazônico. Blindados sobre lagartas e sistemas de artilharia estão entre os equipamentos mais difíceis de deslocar: são pesados, consomem muito combustível e impõem limite de peso a pontes e a pistas.
No ar, caças A-1M, Super Tucano e helicópteros Black Hawk compuseram os meios empregados. Na Base Aérea de Boa Vista foi realizado o Apronto Dinâmico, com infiltrações de forças especiais, assaltos aeromóveis e disparos com mísseis e artilharia. A base aérea cumpre, nesse arranjo, papel duplo: é local de treinamento e é ponto de entrada de gente e de carga.
Uma região que já tinha duas operações em andamento
O comandante do Exército, General Tomás Paiva, apontou que a área do exercício já abriga operações simultâneas. A Operação Catrimani II atua contra a mineração ilegal em terras Yanomami, e a Operação Acolhida atende refugiados venezuelanos desde 2017.
Isso significa que a Operação Atlas não chegou a um espaço vazio: dividiu estradas, pistas, pátios de carga, hospedagem e cadeia de abastecimento com atividades que já estavam em curso. É o que está por trás do termo interoperabilidade, usado para descrever a capacidade de forças diferentes trabalharem com os mesmos canais de comunicação, os mesmos procedimentos e a mesma estrutura de apoio, em vez de cada uma montar a sua.
O tamanho do arranjo e os dados que faltam
Ao todo, aproximadamente cem organizações militares participaram do exercício — o que, do ponto de vista logístico, equivale a coordenar cem calendários de embarque, cem listas de material e cem necessidades de abastecimento em uma mesma janela de tempo.
Três informações continuam sem detalhamento público e ajudariam a avaliar a operação: o período total de duração da movimentação, a divisão dos 92 mil quilômetros entre os meios de transporte e o custo do deslocamento. Enquanto não forem divulgadas, o número disponível descreve a escala, mas não o desempenho.
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