Ilhas de calor: alunos de Colatina mapeiam bairros mais quentes

Estudantes da EEEFM Honório Fraga, em Colatina, mapearam a desigualdade térmica da cidade e chegaram a um retrato de por que alguns bairros do município ficam mais quentes que outros. O trabalho foi feito entre julho e setembro e usou o QGIS, software de geoprocessamento empregado em pesquisas ambientais e urbanas.

O produto final foi um mapa temático do município. Ele mostrou um padrão: as áreas com menor cobertura vegetal e maior concentração de edificações são as que registram as temperaturas mais elevadas. Não é impressão de quem anda na rua — é o efeito que os pesquisadores chamam de ilha de calor.

O que é uma ilha de calor e por que ela não atinge a cidade toda igual

Ilha de calor é a diferença de temperatura entre um trecho densamente construído e o entorno com mais vegetação e solo exposto. A explicação está no material da superfície. Asfalto, concreto, alvenaria e telha absorvem a radiação solar ao longo do dia, acumulam esse calor e o devolvem ao ar devagar, inclusive depois do pôr do sol — por isso a rua sem sombra continua quente à noite.

A vegetação faz o contrário em duas frentes. A copa da árvore intercepta a radiação antes que ela chegue ao chão, e a folha libera vapor d’água num processo que consome energia e resfria o ar em volta. Corpos d’água e solo permeável atuam na mesma direção: parte do calor vira evaporação em vez de virar temperatura.

É daí que nasce a desigualdade térmica. Quadras com árvore adulta, quintal e área verde ficam mais frescas; quadras com lote inteiramente construído, calçada estreita e pouca superfície permeável concentram calor. A diferença é de ocupação do solo, não de sorte. Em Colatina, o calor já havia sido tema de sala de aula por outro caminho, num experimento em que alunos com deficiência visual identificaram a temperatura pelo tato.

O que a pesquisa dos alunos mediu de fato

Geoprocessamento é, em termos simples, cruzar camadas de informação sobre um mesmo pedaço de território até que o padrão apareça. Foi o que a turma fez. Segundo o material divulgado sobre o projeto, quatro conjuntos de dados entraram na análise:

  • impermeabilização do solo — quanto do terreno está coberto por asfalto, concreto e construção;
  • presença de vegetação — a cobertura verde de cada área;
  • corpos d’água — a presença de água na paisagem;
  • densidade de ocupação — quanto se construiu por metro quadrado.

O projeto atravessou cinco disciplinas: Geografia, Química, Física, Matemática e Biologia. A divisão não é enfeite. A física explica a absorção e a devolução do calor pelas superfícies; a química, o comportamento da água e dos materiais; a biologia, o papel da vegetação; a matemática, o tratamento dos dados; a geografia, a leitura do território. Sem as cinco, o mapa seria um desenho bonito sem explicação.

“Ao aplicar o QGIS, os estudantes compreenderam conceitos de geotecnologia e visualizaram, na prática, como o ambiente urbano se transforma com a ação humana. A desigualdade térmica é um reflexo direto do modo como ocupamos o território e planejamos nossas cidades”

A avaliação é da professora Angélica Comper, responsável pela atividade.

A leitura de quem fez o mapa

“Foi interessante ver como a tecnologia ajuda a entender nossa realidade. No mapa, percebemos que os bairros com mais árvores são mais frescos, enquanto os com muito asfalto e poucas áreas verdes são bem mais quentes”

A observação é da estudante Ana Clara Alves da Silva, da 3ª série do Ensino Médio Integrado.

O que o material divulgado não informa

A leitura do mapa é clara, mas o material sobre o projeto deixa perguntas em aberto — e vale registrar quais, porque elas mudam o alcance do que foi produzido:

  • quais bairros apareceram como os mais quentes e os mais frescos não é informado;
  • não há temperatura em graus: o resultado é apresentado como comparação entre áreas, não como medição divulgada;
  • a origem dos dados — se houve medição em campo, uso de bases públicas ou imagens de satélite — não é detalhada;
  • quantos estudantes participaram e se o mapa terá alguma destinação fora da escola também não constam.

Para que serve um mapa térmico de bairro

Um levantamento como esse aponta onde a intervenção rende mais: arborização de rua, calçada com faixa permeável, preservação de área verde remanescente, escolha de cobertura clara em telhado e recuo construtivo. São medidas de planejamento urbano, e o mapa serve justamente para dizer em que ponto da cidade cada uma faz mais diferença. A discussão sobre como a tecnologia pode organizar melhor o espaço urbano também apareceu em outro trabalho de estudantes de Colatina, que propuseram soluções contra lixo e desperdício.

No caso da Honório Fraga, o dado saiu de uma escola pública e da mão de quem mora na cidade que foi medida.

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