70 gestores da Sedu foram ao Chile; custo não foi informado

Uma comitiva de 70 profissionais da Rede Pública Estadual do Espírito Santo embarcou na sexta-feira, 21 de novembro de 2025, rumo a Santiago, no Chile, para a etapa presencial do Programa Conexões de Liderança, formação promovida pela Secretaria da Educação (Sedu). O grupo era formado por 50 diretores escolares, 11 superintendentes regionais e nove servidores da Sedu Central.

Pelo comunicado da secretaria, a imersão foi programada para o período de 24 de novembro a 03 de dezembro de 2025, na Universidad Diego Portales, descrita pela Sedu como instituição chilena reconhecida por sua excelência em gestão educacional. Os três grupos informados fecham com o total de 70 participantes divulgado, sem sobra nem diferença.

Quanto custou a viagem e de onde saiu o dinheiro

O comunicado que anunciou o embarque não informou o custo da etapa internacional nem a fonte de recurso usada para bancá-la. Não há, no texto divulgado, valor de passagens, hospedagem, alimentação, seguro, taxas da universidade ou diárias dos servidores. Também não consta qual dotação orçamentária cobriu a despesa, como os serviços foram contratados, nem se houve qualquer custo para os participantes.

É uma ausência que vale registrar, porque separa a informação disponível da prestação de contas: quantos foram, para onde e em que período estão no anúncio; quanto custou e quem pagou, não. Em deslocamento de servidores públicos, são justamente esses os itens que permitem a qualquer pessoa avaliar a decisão por conta própria. A falta deles no comunicado não indica irregularidade — indica que os dados não foram divulgados junto com o anúncio.

As 60 horas no Chile dentro de uma formação de mais de 150 horas

O secretário de Estado da Educação, Vitor de Angelo, informou que o Conexões de Liderança reúne mais de 150 horas de formação, combinando aulas teóricas, atividades práticas e visitas técnicas. Sobre a parte realizada no exterior, ele detalhou a carga horária:

A etapa internacional compreende 60 horas presenciais e inclui ainda 4 horas de observação em escolas chilenas, permitindo contato direto com ambientes educacionais que se destacam no cenário latino-americano

A informação é do secretário de Estado da Educação, Vitor de Angelo.

Vale entender a diferença entre os dois números, porque eles medem coisas distintas: as 60 horas presenciais descrevem apenas o trecho vivido no Chile, enquanto as mais de 150 horas descrevem o programa inteiro, que começou antes do embarque e teria continuidade depois dele. O comunicado não detalha como as horas restantes se distribuem ao longo do percurso.

O objetivo declarado pela secretaria e o que ele não mede

Ao tratar do que esperava da viagem, Vitor de Angelo apresentou a multiplicação do aprendizado como finalidade do desenho da formação:

Quando pensamos nessa formação internacional, planejamos para que ela não fosse um enriquecimento que se encerrasse nos participantes. O objetivo é que cada gestor volte ao Espírito Santo preparado para multiplicar conhecimentos e inspirar novas práticas dentro de sua comunidade escolar.

A avaliação é do secretário de Estado da Educação, Vitor de Angelo.

O que está registrado nessa fala é objetivo, não resultado. O comunicado não apresenta indicador, meta numérica ou instrumento de avaliação que permitisse verificar, mais tarde, se a multiplicação chegou às escolas, e não menciona a publicação de qualquer balanço depois do retorno do grupo.

O que estava previsto para depois do retorno

O gerente de Gestão Escolar, Ronald da Silva Alves, explicou que os cursistas já haviam iniciado o ciclo formativo antes da viagem, com atividades on-line. Segundo ele, essas atividades seguiriam até abril de 2026 e envolviam a elaboração de um projeto integrador a ser implementado nas escolas capixabas.

Pelo calendário divulgado, portanto, a viagem não encerrava o percurso: era a etapa presencial de um processo iniciado à distância, com desdobramento previsto dentro das unidades de ensino. O comunicado não informa quantos projetos integradores seriam elaborados, como seriam acompanhados nem quem verificaria a implementação.

Uma nota sobre o calendário desta matéria

O anúncio da secretaria é de novembro de 2025 e descreve o cronograma previsto naquele momento. O embarque já havia ocorrido quando o texto foi publicado; as etapas seguintes, incluindo a imersão de 24 de novembro a 03 de dezembro de 2025 e as atividades on-line até abril de 2026, aparecem no comunicado como programação, e não como execução confirmada. Nada no material informa o que foi efetivamente cumprido.

As perguntas que o anúncio deixou em aberto

  • Custo e fonte de recurso. Não informados, em nenhuma rubrica.
  • Critério de seleção. O comunicado não explica como os 50 diretores foram escolhidos entre as escolas da rede estadual, nem quais unidades ficaram representadas.
  • Cobertura das escolas. Não há informação sobre quem respondeu pelas unidades durante a ausência dos diretores.
  • Retorno para a rede. Não há menção a relatório, balanço, prestação de contas ou divulgação pública de resultados após o fim do percurso.

Essas lacunas não são acusação nem elogio: são o que falta para que o leitor avalie sozinho uma viagem de gestores públicos, e registrá-las é diferente de supor o que elas escondem.

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