Um artigo técnico publicado em 26 de novembro de 2025 na Revista Cães e Gatos explica o que são os chamados bióticos — prebióticos, probióticos, simbióticos e pós-bióticos — e por que a comunidade de microrganismos que vive no intestino de cães e gatos virou assunto de consultório. O texto é assinado por Monique Paludetti, médica-veterinária e mestranda em Clínica Médica com ênfase em Nutrição de Cães e Gatos pela FMVZ-USP, e saiu na trilha Artigos revista, seção Clínica e Nutrição — não em espaço de marca nem de produto.
Vale dizer logo o que o artigo não traz: nenhuma marca, nenhum produto, nenhuma dose, nenhuma indicação por doença e nenhum tempo de uso. Ele define e classifica os termos. Quem decide se um animal precisa de algum desses compostos, qual deles e por quanto tempo é o médico-veterinário que examina o animal.
Microbiota e microbioma não são a mesma coisa
A microbiota intestinal é a comunidade de microrganismos que habita o trato gastrointestinal, e ela inclui bactérias, fungos, vírus e protozoários. Já o termo microbioma foi refinado depois para incluir não apenas os microrganismos vivos presentes em um ambiente, mas também seus genomas, seus produtos metabólicos e as interações deles com o hospedeiro — no caso, o próprio animal.
A diferença parece preciosismo de vocabulário, mas os dois termos não são intercambiáveis: um nomeia os moradores do intestino; o outro, os moradores mais aquilo que eles produzem e trocam com o organismo do cão ou do gato.
Segundo o artigo, a investigação sobre o microbioma intestinal de cães e gatos se intensificou nas últimas décadas e revelou a importância dele na manutenção da homeostase fisiológica, imunológica e metabólica dos animais domésticos — homeostase é o nome do equilíbrio interno que o corpo trabalha para manter.
O que a microbiota faz num animal saudável
Em cães e gatos saudáveis, a microbiota intestinal é composta predominantemente por bactérias de três filos: Firmicutes, Bacteroidetes e Fusobacteria. Estudos metagenômicos mostram, de acordo com o texto, que essa composição bacteriana desempenha papéis essenciais em:
- digestão de nutrientes;
- produção de vitaminas;
- fermentação de fibras;
- modulação da resposta imunológica;
- atuação como barreira contra patógenos entéricos, ou seja, contra agentes causadores de doença que chegam pela via intestinal.
Repare no verbo: o artigo diz que os estudos mostram esses papéis. Não diz que os comprovam de forma definitiva, nem que a microbiota garante qualquer resultado. Essa diferença de grau é o que separa informação de promessa.
Outro ponto que o leitor precisa saber: as pesquisas citadas aparecem apenas como referências numeradas. O trecho publicado não informa quantos animais participaram de cada estudo, como cada um foi conduzido nem quanto tempo durou. Também não dá para saber, só por ele, se determinado resultado veio de cão, de gato, de outra espécie ou de teste feito em laboratório — e isso faz diferença, porque resultado obtido fora da espécie não é resultado obtido na espécie.
Disbiose: quando o equilíbrio se rompe
A disbiose intestinal é caracterizada por uma redução na diversidade bacteriana e pelo aumento de microrganismos potencialmente patogênicos. Disfunções nessa comunidade microbiana, informa o artigo, têm sido associadas a uma ampla variedade de condições patológicas, como enteropatias crônicas, diarreias agudas, obesidade e até distúrbios imunomediados, ligados ao funcionamento do sistema de defesa do organismo.
Associação não é causa. Dizer que a disbiose foi associada à obesidade não é o mesmo que dizer que ela causa obesidade, nem que mexer na microbiota resolva o quadro. O texto de origem não faz essa afirmação, e ela não deve ser feita por conta própria a partir dele.
Bióticos: quatro categorias, uma definida no trecho publicado
O crescente entendimento sobre a interação entre microbiota e hospedeiro abriu espaço para o uso terapêutico de compostos moduladores da microbiota, conhecidos como bióticos. São quatro categorias — prebióticos, probióticos, simbióticos e pós-bióticos —, definidas e refinadas pela International Scientific Association for Probiotics and Prebiotics (ISAPP).
No trecho publicado, apenas uma delas aparece definida. É a dos prebióticos:
Prebióticos são definidos como substratos não digeríveis que são seletivamente utilizados por microrganismos hospedeiros e que conferem benefícios à saúde.
Essa é a definição apresentada no artigo. Em linguagem de tutor: são ingredientes que o organismo do animal não digere e que microrganismos do intestino utilizam de forma seletiva, com benefício à saúde, conforme essa definição.
O que o trecho publicado não traz é a definição de probióticos, de simbióticos e de pós-bióticos, nem a diferença prática entre as quatro categorias. Quem precisa dessa parte precisa do artigo completo — qualquer explicação apressada sobre a distinção entre eles vai além do que está escrito ali.
Os prebióticos mais investigados na veterinária
No contexto veterinário, os prebióticos mais investigados incluem os frutooligossacarídeos (FOS), os galactooligossacarídeos (GOS), os mananoligossacarídeos (MOS), a inulina e os beta-glucanos.
Mais investigado não significa mais eficaz. A lista indica onde a pesquisa se concentrou, e não qual composto funciona melhor, para qual problema, em que quantidade ou por quanto tempo. Nada disso consta do trecho publicado. Nenhuma cepa é indicada, nenhuma dosagem é sugerida e nenhum produto de mercado é avaliado ou comparado.
O que o tutor faz com essa informação
Suplemento não substitui diagnóstico. Quadros como diarreia aguda ou doença intestinal de longa duração, citados no artigo entre as condições associadas à disbiose, pedem avaliação de um médico-veterinário — e não teste de suplemento por conta própria, que pode atrasar a identificação do problema real.
Três pontos práticos para levar da leitura:
- o material não recomenda dose, marca nem tempo de uso; quem apresentar esses números como se viessem dali está indo além do que o texto diz;
- o artigo define e classifica os bióticos, mas não avalia nem compara produtos disponíveis no mercado pet;
- a decisão de usar ou não usar, e em que caso, é de quem examina o animal — de preferência com histórico alimentar e clínico em mãos.
Onde ler o artigo completo
O texto assinado por Monique Paludetti foi publicado na página 35 da edição de novembro (nº 315) da Revista Cães e Gatos e disponibilizado na íntegra e sem custo. O material recebido não trouxe o endereço da edição na internet, e nenhum link foi montado por conta própria — a referência de página e número da edição é suficiente para quem quiser conferir a íntegra e as referências científicas numeradas que sustentam cada afirmação.
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