Cães e gatos estão vivendo mais, e a clínica veterinária sentiu a mudança: o paciente idoso deixou de ser exceção e virou rotina nos consultórios do Brasil. Foi para discutir esse perfil que a Sociedade Brasileira de Medicina Veterinária (SBGV) reuniu especialistas em 9 de outubro, num workshop sobre a importância da jornada alimentar para o paciente geriátrico, realizado na sede da Nestlé Purina, em São Paulo.
Vale dizer de saída o que o encontro era e o que não era. Foi um evento de formação para médicos-veterinários, organizado por uma sociedade da categoria, com a alimentação como eixo central da programação e realizado na sede de uma fabricante de alimentos para animais. Nada do que se discutiu ali substitui consulta: o que chega ao tutor é o roteiro que o profissional segue quando o animal envelhece.
Idade não é doença — e o que isso muda dentro do consultório
A palestra de abertura coube ao médico-veterinário Diego Silva Mendes, presidente da SBGV. Ele partiu de um princípio básico da geriatria veterinária: idade não é doença. Na prática, isso significa que ser velho não é motivo para deixar de investigar um sintoma, de tratar ou de oferecer cuidado ao animal — o envelhecimento não é, por si só, um diagnóstico.
Envelhecer todos vamos, inclusive nós, mas o que faz a diferença no processo de envelhecimento é o cuidado que o animal recebe ao longo da vida.
A afirmação é do médico-veterinário Diego Silva Mendes, presidente da SBGV.
Dessa ideia vem a segunda, que costuma surpreender quem só procura o veterinário quando o pet já está velho: o cuidado com o animal idoso começa quando ele ainda é filhote. Mendes pontuou que o clínico geral que atende o filhote é muito importante nessa jornada, porque acompanha o paciente durante toda a vida e tem papel na prevenção de doenças. Traduzindo o raciocínio: é o histórico construído em anos de consultas de rotina que dá ao profissional o parâmetro para reconhecer o que mudou no animal — sem essa linha de base, uma perda de peso lenta ou uma queda de disposição passam a ser lidas como efeito natural da velhice.
Peso e músculo entram na avaliação junto com o histórico
Um dos alertas da apresentação foi a necessidade de avaliar o score corporal dos animais geriátricos — a checagem de gordura e de massa muscular que o veterinário faz observando e apalpando o animal. Mendes colocou esse exame no mesmo patamar de importância do histórico clínico e da anamnese, que é a conversa em que o profissional levanta com o tutor a rotina, a alimentação, o comportamento e as queixas antes de encostar no paciente.
Em gatos, o ideal é um score corporal cinco, enquanto em cães entre quatro e cinco é considerado correto
A avaliação é do presidente da SBGV, Diego Silva Mendes.
Os valores se referem à escala de condição corporal aplicada pelo próprio veterinário durante o exame — não é medida que o tutor faça em casa nem número que se leia na balança. E o alerta vale para os dois extremos: ele informou que é preciso se atentar tanto à obesidade quanto à magreza. Animal magro demais não é sinônimo de animal saudável, e animal gordo não é sinônimo de animal bem alimentado.
Sarcopenia: quando o músculo some e a balança não avisa
Outro desafio comum na rotina de quem atende animais idosos, segundo o que foi apresentado no workshop, é a sarcopenia. A condição foi definida ali como a redução do nível de atividade física, secundária ao estilo de vida do animal ou a quadros que diminuem a sua mobilidade. Ela também pode ser causada por redução de estímulos anabólicos na musculatura esquelética, aumento de estímulos catabólicos e atrofia das fibras musculares esqueléticas.
Em linguagem de tutor: o animal se mexe menos, seja porque a rotina ficou parada, seja porque alguma dor ou limitação o impede de andar como antes — e o músculo que ele deixa de usar vai embora. Como a gordura pode ocupar o lugar, o peso total nem sempre denuncia a perda, o que explica por que a avaliação é feita com as mãos, e não só com a balança.
É fundamental que os médicos-veterinários saibam diferenciar a sarcopenia de caquexia na avaliação do paciente
A observação é de Diego Silva Mendes, presidente da SBGV, ao encerrar a apresentação. A apresentação não detalhou em que consiste a caquexia nem o método dessa diferenciação — trata-se de distinção clínica, feita por médico-veterinário no exame, e é ela que orienta a conduta a seguir.
Quando levar o pet idoso ao veterinário
Os sinais destacados no workshop são exatamente os que o tutor consegue observar em casa: perda de peso e magreza, ganho de peso e obesidade, e redução da atividade física — o animal que passou a andar, brincar ou pular menos do que andava. Diante de qualquer um deles, o caminho é agendar consulta com médico-veterinário, e não esperar a próxima vacina.
Duas coisas que esta matéria não faz, de propósito: indicar ração, suplemento, dieta terapêutica ou qualquer protocolo, e dizer a partir de que idade um cão ou um gato é considerado idoso. O material do evento não trouxe essa idade, que varia conforme espécie e porte, e a conduta alimentar de um animal geriátrico é definida por médico-veterinário depois de examinar aquele animal — o mesmo alimento que ajuda um paciente pode agravar o quadro de outro.
O que mais estava na grade científica do encontro
Além da palestra de abertura, a programação do workshop abordou a modulação intestinal e seus reflexos sistêmicos, a clínica nutricional voltada ao cuidado do idoso e os desafios e oportunidades no atendimento ao paciente geriátrico. São temas de consultório, dirigidos a quem atende — o recado que sobra para o tutor é mais simples: consulta de rotina no animal idoso não é formalidade, é o momento em que peso, músculo e histórico são medidos lado a lado.
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