Comissão da Câmara aprova o parecer do novo PNE

A Comissão Especial da Câmara dos Deputados sobre o próximo Plano Nacional de Educação (PNE) aprovou na quarta-feira (10) o parecer final do relator, deputado Moses Rodrigues (União-CE). A votação foi simbólica e o resultado, unânime. O texto define diretrizes, metas e estratégias para a política educacional brasileira por um período de dez anos.

Nada mudou nas escolas por causa dessa votação. O que foi aprovado é o parecer de uma comissão — não é lei, não é decisão do Plenário e não obriga rede nenhuma a fazer coisa alguma hoje. O projeto ainda precisa percorrer o caminho que a própria Câmara descreve: para virar lei, o texto final terá de ser aprovado pelas duas Casas.

O que falta até o plano valer de verdade

O Projeto de Lei 2614/24, do Poder Executivo, tramita em caráter conclusivo. Na prática, isso significa que a decisão da comissão especial substitui a votação no Plenário — mas essa dispensa não é automática. Se não houver recurso para votação no Plenário da Câmara dos Deputados, o projeto seguirá diretamente para análise do Senado. Havendo recurso, o Plenário volta a decidir antes.

Depois disso ainda há o Senado. E, mesmo aprovado nas duas Casas, o novo PNE só passa a contar o tempo depois de virar norma publicada: o plano valerá para o decênio contado a partir da publicação da futura lei. Ou seja, nem a duração do plano começou.

Vale um alerta para quem lê listas de metas: meta de PNE é compromisso para um período, não retrato do que existe hoje. Nenhum dos objetivos descritos abaixo está em execução por força dessa aprovação. São o que o projeto pretende perseguir se e quando virar lei.

O que é um plano decenal e por que ele importa para a escola do seu filho

Um plano nacional de educação é uma lei que fixa objetivos e prazos para dez anos — um horizonte propositalmente maior que o de um mandato, para que a política educacional não recomece do zero a cada troca de governo. Ele não administra escola nem contrata professor: quem faz isso são os estados e os municípios, dentro das respectivas redes. O que o plano faz é dizer aonde o país quer chegar e em quanto tempo, e servir de régua para cobrar quem executa.

É por isso que ele chega, indiretamente, à sala de aula do seu filho. Metas de plano decenal costumam orientar orçamento, prioridade de matrícula, formação de professor e programas federais que descem até a rede local. O efeito, quando existe, é lento e depende de cada rede — nunca de uma votação em comissão.

Esta é a terceira edição desse tipo de plano. A proposta substituirá a Lei 13.005/14, que definiu o PNE 2014-2024 e teve a vigência prorrogada até o final deste ano. A versão aprovada organiza o novo PNE em 19 objetivos estratégicos, da educação infantil ao ensino superior, cada um com metas e prazos, e prevê a valorização dos profissionais da educação. O plano busca alinhar o planejamento educacional a padrões de qualidade, equidade e eficiência, com foco na erradicação do analfabetismo e na universalização do atendimento escolar.

O dinheiro: 7,5% do PIB em sete anos, 10% no fim do decênio

O ponto de maior disputa é o financiamento — e aqui os prazos importam tanto quanto os números. O texto amplia os investimentos públicos em educação para 7,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em sete anos, chegando a 10% ao final do decênio. São dois horizontes distintos: o primeiro percentual é o alvo de médio prazo, o segundo é o alvo do décimo ano. Nenhum dos dois é o patamar atual. O relator prevê investimento de R$ 280 bilhões para implantar o novo PNE.

Na complementação de voto apresentada no dia da votação, Moses Rodrigues retirou a obrigação de os entes federativos — estados e municípios — apresentarem informações sobre o investimento público em proporção aos respectivos PIBs.

Trata-se de dado de elevada complexidade técnica e, em muitos casos, de difícil obtenção

A explicação é do relator, deputado Moses Rodrigues (União-CE).

Os treze ajustes que compraram o consenso

A unanimidade não saiu de graça. Depois de acordo entre os partidos, o relator apresentou nova versão do projeto ajustando 13 tópicos em relação ao parecer anterior. Os pontos que concentraram as mudanças finais:

  • substituição de expressões específicas por termos mais abrangentes de respeito aos direitos humanos e combate a discriminações, com a retirada de menções explícitas a identidade de gênero e orientação sexual;
  • manutenção da coerência com a defesa da escola pública, deixando de fora a regulamentação do homeschooling (educação domiciliar);
  • ajuste nos mecanismos de financiamento do Custo Aluno-Qualidade, remetendo a definição de valores para regulamentação posterior, em resposta à equipe econômica, que temia impacto fiscal imediato e automático;
  • reforço na gestão democrática das escolas, assegurando que a escolha de diretores por critérios técnicos e de mérito seja condicionalidade para o repasse de recursos.

O terceiro item merece leitura atenta de quem acompanha orçamento escolar: o Custo Aluno-Qualidade é o mecanismo que definiria quanto custa oferecer ensino num padrão mínimo de qualidade por aluno. O projeto manteve o mecanismo, mas empurrou a definição dos valores para uma regulamentação futura — isto é, o número que daria peso financeiro à regra ainda não existe.

O substitutivo prevê ainda metas para combate à violência no ambiente escolar e ao bullying (intimidação sistemática). Define também que metade das novas matrículas no ensino profissionalizante deverá ser integrada ao ensino médio, e que a busca por empregabilidade e renda será foco ao final do ensino superior.

O que os deputados disseram na comissão

Depois da aprovação, parlamentares elogiaram a construção do texto pelo relator e a condução dos trabalhos pela presidente da comissão especial, deputada Tabata Amaral (PSB-SP). O tom das falas registra o tamanho da negociação — e o fato de que ninguém levou tudo o que queria.

Ninguém saiu 100% satisfeito, todo mundo cedeu, mas agradeço bastante. Hoje votamos o principal instrumento da educação brasileira para os próximos dez anos

A avaliação é da deputada Adriana Ventura (Novo-SP), ao defender o substitutivo.

Viva os 10% do PIB para a educação, mantidos no PNE. É claro que o desafio vem agora: colocar em prática cada um dos sonhos e desejos que expressamos nesta proposta

A frase é do deputado Tarcísio Motta (Psol-RJ), que celebrou o resultado. Para Moses Rodrigues, o novo PNE concilia ousadia nas metas com viabilidade de execução.

Em resumo: o que vale hoje

Hoje vale o PNE anterior, definido pela Lei 13.005/14, cuja vigência foi prorrogada até o fim deste ano. O novo plano existe como projeto aprovado numa comissão da Câmara, com uma etapa vencida e outras pela frente. Percentual de PIB, metas de matrícula, regra de escolha de diretor e piso de custo por aluno são texto de projeto — não são obrigação em vigor, e não há como cobrá-los na secretaria de educação ou na direção da escola enquanto o trâmite não terminar.

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