Fluência em leitura no ES: 30% dos avaliados são pré-leitores

O seminário Evidências, Perspectivas e Proposições já foi realizado: aconteceu na segunda-feira, dia 16 de setembro de 2024, no auditório da Escola Estadual de Ensino Médio (EEEM) Professor Agenor Roris, em Vila Velha. Não há inscrição a fazer, vaga a disputar nem transmissão anunciada. O que sobra a quem não estava naquele auditório são os números da Avaliação de Fluência em Leitura 2024 apresentados ali — e a promessa, feita no dia, de que o material de análise chegaria depois às unidades escolares mantidas pelo Estado.

O encontro foi promovido pela Secretaria da Educação (Sedu) em parceria com o Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (CAEd/UFJF). Pelo que a secretaria divulgou, o objetivo era examinar os resultados da avaliação e desenhar estratégias voltadas sobretudo aos estudantes do 2º ano do Ensino Fundamental. Nenhuma medida, meta, prazo ou norma foi anunciada como decisão do seminário.

O que a Avaliação de Fluência em Leitura 2024 chegou a medir

A prova é anterior ao encontro: foi aplicada entre os dias 5 e 13 de agosto de 2024, mais de um mês antes. A Sedu registra a participação de mais de 44 mil estudantes e uma adesão de 97%.

Os dois números não medem a mesma coisa, e vale separá-los. O primeiro chega acompanhado da expressão mais de, marcador que fixa um mínimo em vez de um número fechado. O segundo é uma proporção — e a secretaria não informa sobre qual base de matriculados os 97% foram calculados, o que impede saber quantos alunos ficaram de fora.

Na comparação com 2023, o balanço oficial aponta dois movimentos. A parcela de estudantes classificados no perfil Pré-Leitor recuou de 39% para 30%. A dos Leitores Fluentes subiu de 18% para 32%, avanço que o próprio material da secretaria descreve como quase o dobro do ano anterior. Foram os únicos indicadores divulgados.

Os dois perfis citados não cobrem toda a rede

Aqui aparece a primeira lacuna, e ela é visível na própria conta da secretaria: os percentuais de Pré-Leitor e de Leitores Fluentes, somados, não chegam ao conjunto dos avaliados. Existe uma faixa de estudantes entre um extremo e outro que o comunicado simplesmente não descreve.

A Sedu não nomeia os demais perfis da escala, não diz quantos são, não informa que fatia representam nem esclarece o que distingue, na prática, um leitor iniciante de um leitor fluente. Fluência, no vocabulário da avaliação escolar, não é sinônimo de decifrar palavras: envolve ler com precisão, ritmo e entonação suficientes para que a criança compreenda o que acabou de ler. Sem a definição dos critérios usados, o leitor recebe a variação percentual sem a régua que a produziu.

O destino prometido aos relatórios apresentados

Segundo a gerente de Avaliação da Sedu, Ivia Sampaio Zambom, o encontro teria ido além de exibir planilhas: na formulação oficial, funcionou como momento para pensar o modo como a leitura vem sendo ensinada nas escolas capixabas. Ela informou que o conteúdo levado ao seminário — relatórios, guias de análise e sugestões de atividades — seria encaminhado a todas as escolas e às Superintendências Regionais de Educação (SREs).

Atenção à fase: no dia do seminário essa distribuição ainda não tinha ocorrido. Estava no futuro. O material oficial não fixa data de envio, não diz por qual canal os documentos circulariam, não informa se houve gravação do evento e não menciona nenhuma via de acesso para famílias, estudantes ou público em geral. Tudo o que foi apresentado permaneceu, pelo que a secretaria descreveu, dentro da rede.

Exposição e discussão, não deliberação

A única declaração do seminário que trata do que viria depois é da gerente de Avaliação:

Este seminário é uma oportunidade para consolidarmos o que deu certo e traçarmos novas estratégias. Os resultados da avaliação nos ajudarão a aprimorar as políticas públicas e oferecer o suporte necessário para o aprendizado de cada estudante

A avaliação é de Ivia Sampaio Zambom, gerente de Avaliação da Sedu. Repare nos verbos: consolidarmos, traçarmos, ajudarão. Todos apontam para frente. Pela descrição oficial, o dia 16 serviu para apresentar dados e discutir caminhos — as estratégias ainda seriam formuladas.

O secretário de Estado da Educação, Vitor de Angelo, também falou no evento. Sua manifestação divulgada pela secretaria é de balanço institucional, sem número novo nem compromisso datado; dela interessa um dado de política pública: o secretário situa a avaliação como alinhada ao Plano Nacional de Educação e ao Compromisso Nacional Criança Alfabetizada.

Quem aplica, apresenta e avalia é o mesmo órgão

Todo o relato reproduzido acima nasce de uma nota assinada pela própria Sedu. É a secretaria que aplica a avaliação, que organiza o seminário, que seleciona quais indicadores divulgar e que qualifica o próprio resultado como positivo — o adjetivo empregado para descrever os dados é dela.

Não há, no comunicado, leitura independente dos números: nenhuma manifestação de professores alfabetizadores, de equipes das escolas avaliadas, de famílias, de entidade representativa da categoria ou de pesquisador externo à parceria firmada para o evento. Um comunicado de assessoria é, por definição, documento de parte. A falta de vozes discordantes nele não prova que elas inexistam: prova apenas que a secretaria não as chamou para o mesmo texto.

Há ainda um ponto deixado em branco: a nota nunca diz quem aplicou e quem corrigiu as provas de agosto. A parceria com o CAEd/UFJF é declarada para a realização do seminário; sobre a operação da avaliação em si, o comunicado nada informa.

Uma comparação entre anos, sem dizer entre quem

O confronto entre 2023 e 2024 é o coração do anúncio, e é justamente onde falta uma informação decisiva: o comunicado não diz se os percentuais comparam os mesmos estudantes ao longo do tempo ou turmas diferentes de um mesmo ano escolar, avaliadas em anos consecutivos. São leituras distintas. Uma mede o progresso de crianças específicas; a outra compara grupos que nunca foram os mesmos.

Tampouco há recorte por cidade, por unidade escolar ou por região administrativa da rede. O leitor que queira saber como a rede foi em sua cidade não encontra a resposta no material — e essa granularidade é exatamente o que transforma um percentual estadual em informação útil.

As perguntas que a nota da Sedu deixa em aberto

  • quantas pessoas assistiram ao seminário, e se o acesso era livre ou por convite;
  • quem podia comparecer — professores, gestores, famílias — e se houve inscrição prévia;
  • se o encontro foi gravado ou transmitido, e onde a gravação poderia ser assistida;
  • a data em que relatórios, guias e sugestões de atividades chegariam às escolas e às SREs;
  • se esse material teria alguma versão pública, fora da rede;
  • quais anos escolares foram avaliados pela prova de agosto, além da menção ao 2º ano do Ensino Fundamental como foco das estratégias;
  • a base de matriculados sobre a qual os 97% de adesão foram calculados;
  • quais são os demais perfis da escala e que percentual reúnem;
  • se a comparação com 2023 acompanha os mesmos estudantes;
  • o custo do seminário e o custo da aplicação da avaliação;
  • que providência concreta, com prazo e responsável, decorreu do encontro.

Onde essa avaliação se encaixa no calendário da rede

A prova de fluência não foi o único instrumento a passar pelas salas de aula capixabas naquele ano. Um mês antes do seminário, em agosto de 2024, a secretaria começava a organizar outro programa de avaliação da educação básica, então ainda sem data de aplicação divulgada — o que ajuda a dimensionar quantas medições a mesma rede acumula em um único semestre.

Para quem quer acompanhar o desfecho, dois marcos posteriores a este seminário ajudam. Em julho de 2025, quase um ano depois, o desempenho do Espírito Santo em alfabetização foi apresentado como estável. E em setembro de 2025 a Sedu voltou ao mesmo instrumento e divulgou os resultados gerais da edição seguinte da Avaliação de Fluência em Leitura — o passo que permite comparar o que foi apresentado em 2024 com o que veio depois.

Medir atividade não é medir resultado

O nome do seminário promete evidências, e é justo reconhecer que houve dado: quatro percentuais e um total de participantes, o que já é mais do que muitos balanços oficiais entregam. Mas os indicadores divulgados descrevem a própria avaliação — quantos fizeram, quantos aderiram, como se distribuíram em dois perfis.

Nada no comunicado liga esses percentuais a uma ação pedagógica específica, a um programa nomeado, a um investimento ou a uma turma acompanhada. O avanço é creditado, em bloco, ao trabalho pedagógico do ano letivo, sem que uma única iniciativa seja nomeada. É a diferença entre informar que a rede mediu e demonstrar o que a rede mudou — e, no material disponível, apenas a primeira metade está documentada.

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