A Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil (Cepdec-ES), a Defesa Civil Estadual do Espírito Santo, completou 50 anos em 2024 e marcou a data com uma solenidade na terça-feira, dia 05 de novembro de 2024, no Quartel do Comando Geral do Corpo de Bombeiros, em Vitória. A cerimônia é de 2024 e o comunicado que a descreve envelheceu mais de um ano e meio desde então: o programa apresentado ali como novidade aparece no texto oficial em tempo futuro, e o material se encerra sem contar o que foi feito dele.
A cerimônia teve retrospectiva histórica, entrega da condecoração comemorativa Medalha Defesa Civil 50 Anos a civis e a militares apontados pelo Estado como prestadores de serviços relevantes, e aquilo a que o comunicado se refere como lançamento de novos projetos para aprimorar a resposta e a prevenção a desastres — sem nomear um único desses projetos. Quem recebeu a medalha também não é identificado nem contado.
Os algarismos do comunicado medem calendário, não atendimento
Um texto oficial de meio século de atuação carrega cinco algarismos, e nenhum deles mede o que foi feito. São eles:
- 50 — os anos completados pela Cepdec-ES, e o nome da medalha entregue na cerimônia;
- 1974 — o ano da criação do órgão;
- 2021 — o ano de inauguração do Centro de Inteligência de Defesa Civil (Cidec), em Vitória;
- 05 e 2024 — o dia e o ano da solenidade.
Cinco datas. Nenhuma ocorrência atendida, nenhuma pessoa retirada de área de risco, nenhum alerta emitido, nenhum município com plano de contingência, nenhum tempo médio de resposta, nenhum servidor, nenhuma viatura, nenhum equipamento contado. O comunicado descreve do que a estrutura é capaz e nunca quantas vezes ela agiu. Também não há um valor em reais, nem uma vez sequer: a palavra investimento aparece três vezes — investimentos importantes, investimentos realizados pelo Governo do Estado e importância de investimentos nesta área —, sempre sem cifra, sem parcela e sem exercício orçamentário. Quem pagou o quê, e quanto, não está no material.
Águas e Paisagens já comprou; o Águas II está no verbo no futuro
O único ponto do comunicado que separa o que já foi feito do que ainda não foi é a fala do coordenador da Cepdec-ES. Lida item por item, ela desenha o seguinte:
- Cepdec-ES — em funcionamento. Criada em 1974, é o órgão central do Sistema Estadual de Proteção e Defesa Civil e coordena as atividades no território estadual.
- Cidec — em funcionamento. Inaugurado em 2021, em Vitória, centraliza dados sobre as condições climáticas e vira centro de decisão quando há desastre.
- Medalha Defesa Civil 50 Anos — entregue. Foi o ato concreto da solenidade.
- Programa Águas e Paisagens, primeira fase — concluída, em parte. A fala diz que permitiu concretizar importantes aquisições. Quais aquisições, quantas e por quanto, o comunicado não informa.
- Programa Águas II — apenas iniciado. A fala põe o verbo no futuro: o programa proporcionará equipamentos a comprar, unidades a erguer e tecnologia a instalar. Nada comprado, nada construído, nada instalado é declarado.
- Novos projetos lançados na cerimônia — apenas anunciados. O texto oficial cita o lançamento e não descreve nenhum.
Celebramos hoje não apenas uma história, mas também os avanços que elevam a nossa capacidade de prevenir, proteger e apoiar a população. O programa Águas e Paisagens, em sua primeira fase, nos permitiu concretizar importantes aquisições. Agora, iniciamos uma nova etapa com o programa Águas II, que proporcionará a aquisição de equipamentos, construção de unidades e a implementação de soluções tecnológicas. É importante ressaltar o papel crescente do governo do Estado, em especial na pessoa do governador, um apoiador inconteste das ações da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros. Este respaldo fortalece nossa missão e valoriza o trabalho incansável de cada membro que integra a nossa Defesa Civil
O coronel Scharlyston Paiva, coordenador Estadual de Proteção e Defesa Civil, descreveu assim a evolução do órgão ao falar na solenidade dos 50 anos. Uma frase da narração do comunicado acompanha a fala e vale ser lida com atenção: os investimentos prosseguem em andamento. Construção sem sujeito, sem valor e sem prazo. Quem investe, quanto, em quê e até quando: nos quatro pontos o texto se cala.
A viagem ao Azerbaijão que o comunicado anuncia e não conclui
Na mesma solenidade, o governador Renato Casagrande anunciou um deslocamento com data marcada: a ida à Conferência do Clima, no Azerbaijão. É o ato mais concreto que o material registra — e é também o que mais envelheceu.
Vivenciamos momentos desafiadores e sabemos o quão importante é ter um Corpo de Bombeiros e uma Defesa Civil equipadas para respondermos às necessidades de forma imediata nos municípios. Estou indo para a Conferência do Clima no Azerbaijão para fazer o debate sobre as mudanças climáticas e levar a nossa experiência do Espírito Santo em termos de organização e execução de obras de adaptação e mitigação. Mostrar como nos preparamos e os nossos planos e programas, incluindo como fizemos com o Cedpdec. Que possamos seguir esse trabalho, com pronta resposta e levando mais qualidade de vida aos capixabas
Casagrande falava a militares e homenageados no quartel, horas depois da entrega das medalhas, e usou o presente do verbo ir para descrever uma viagem que ainda não tinha ocorrido. As obras de adaptação e mitigação que ele diz levar como experiência não aparecem descritas em lugar algum do comunicado: não há uma obra nomeada, um município, uma etapa ou um valor. E o texto oficial termina sem dizer o que foi apresentado na conferência nem o que o Estado trouxe de volta.
Um detalhe da versão oficial merece registro, e a fala vai aqui exatamente como o Governo do Estado a publicou: a sigla grafada na citação é Cedpdec, que não corresponde a nenhuma das duas siglas usadas no restante do texto. Se a referência é à Cepdec, o órgão, ou ao Cidec, o centro inaugurado em 2021, não há como decidir pelo texto.
Cepdec, Cepdec-ES, Cedpdec, Defesa Civil Estadual: o mesmo órgão, quatro nomes
Quem lê o comunicado corrido pode contar mais instituições do que existem. Vale destrinchar o vocabulário antes de seguir:
- Cepdec-ES é a Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil, chamada popularmente de Defesa Civil Estadual. No mesmo texto ela aparece como Cepdec, Cepdec-ES, Defesa Civil Estadual e, dentro de uma das falas, como Cedpdec.
- CBMES é o Corpo de Bombeiros Militar do Espírito Santo. A Cepdec-ES é ligada a ele — não é um órgão à parte.
- Cidec é o Centro de Inteligência de Defesa Civil, a sala inaugurada em 2021 onde equipes reúnem dados climáticos e, em emergência, os órgãos se sentam juntos para decidir.
- Sistema Estadual de Proteção e Defesa Civil é o conjunto; a Cepdec-ES é a peça central dele.
Há ainda uma oscilação de número que o texto não resolve: numa das falas o comandante-geral do Corpo de Bombeiros diz que o Estado tem um dos Centros de Inteligência mais modernos do Brasil, no plural e sem critério de comparação declarado, enquanto a parte histórica descreve um único centro, o Cidec. O comunicado não diz com quais centros a comparação foi feita nem quem a fez.
Como acionar a Defesa Civil: o comunicado de 50 anos não diz
Pergunte a quem mora perto de um morro ou de um córrego o que essa pessoa quer saber sobre defesa civil, e a resposta cabe numa linha: como chamar, e o que fazer enquanto ninguém chega. O comunicado dos 50 anos não responde a nenhuma das duas. Não há telefone, aplicativo, endereço, site nem canal de alerta por mensagem; não há uma instrução para chuva forte, para risco de deslizamento ou para alagamento. Quando sair de casa, para onde ir, o que levar, como pedir socorro — nada disso aparece. E nenhum número de telefone entra aqui de improviso: canal que o comunicado oficial não informa não se inventa numa matéria.
Sobre a divisão de responsabilidades, o comunicado é parcial mas não é omisso. Ele diz que a Cepdec-ES coordena a proteção e a defesa civil em todo o território do Estado e auxilia os municípios, e que pode ceder equipamento e dar treinamento às Defesas Civis Municipais. Ou seja: pela descrição oficial, existe uma estrutura municipal e uma estadual, e a estadual apoia e coordena. Quantos municípios capixabas têm defesa civil própria, quantos têm plano de contingência e quantos receberam esses equipamentos e treinamentos, o texto não informa. Para quem mora no litoral capixaba e precisa decidir a qual das duas portas bater primeiro, o texto oficial não serve.
Mimoso do Sul, em março de 2024: o único resultado citado, e sem uma medida
O comunicado guarda para o último parágrafo a única passagem em que descreve um episódio real, e ela dilui tudo o que vem antes. O texto afirma que, em março daquele mesmo ano — a expressão usada no original é março deste ano, referência relativa que, num material de 2024, aponta para março de 2024 —, o Cidec teve papel crucial na rapidez com que o Estado respondeu às chuvas de Mimoso do Sul.
É uma avaliação do próprio Governo do Estado sobre a atuação do próprio Governo do Estado, e vem sem uma única medida: quantas pessoas foram retiradas, quantas ficaram desabrigadas, em quanto tempo as equipes chegaram, quantos alertas foram emitidos antes da chuva, quanto foi gasto na resposta. Um balanço de 50 anos que descreve um desastre recente sem nenhum desses números está medindo o que o órgão tem, não o que o órgão entregou.
As quatro vozes da cerimônia saíram todas do mesmo Executivo estadual
Falaram na solenidade o governador Renato Casagrande; o secretário de Estado da Segurança Pública e Defesa Social, Leonardo Damasceno; o comandante-geral do Corpo de Bombeiros, coronel Alexandre Cerqueira; e o coordenador da Cepdec-ES, coronel Scharlyston Paiva. Os quatro integram a mesma administração estadual, e dois deles — o comandante do CBMES e o coordenador da Cepdec-ES, unidade ligada ao CBMES — vestem a farda da mesma corporação. Instituições distintas somando forças, aqui, não há: há uma estrutura falando de si mesma no aniversário dela.
Duas das falas foram registradas na íntegra acima porque anunciam atos com data e etapa. As outras duas não entraram: a do secretário descreve a missão do órgão como nobre e difícil e afirma que a Defesa Civil capixaba é referência, sem apresentar um dado; a do comandante-geral fala em atendimento de excelência e em um dos centros mais modernos do Brasil, e credita a coordenação de esforços à compreensão do governador sobre a importância dos investimentos. O que há de verificável nesta última volta aqui em relato: o comandante afirmou, na cerimônia, que o Estado guarda ajuda humanitária pronta para despachar assim que uma comunidade é atingida, e que cede equipamento e dá treinamento às defesas civis dos municípios. Quantos itens, que tipo de item, para quantos municípios e em que prazo, ninguém disse.
Ninguém de fora dessa estrutura foi ouvido no material: nenhum prefeito, nenhum coordenador municipal de defesa civil, nenhum morador atingido pelas chuvas de Mimoso do Sul, nenhum técnico sem vínculo com o Estado. Um texto assinado por um governo sobre o aniversário de um órgão desse mesmo governo é peça de celebração: a fila de elogios que ele traz mede quem o escreveu, não o que pensa quem não foi chamado a falar.
Canal, cifra, efetivo e nomes: sete buracos no comunicado dos 50 anos
- Como o cidadão aciona a Defesa Civil? Nenhum telefone, aplicativo, endereço ou canal de alerta consta do material.
- E enquanto a equipe não chega, diante de chuva forte, deslizamento ou alagamento? Nenhuma orientação prática consta do texto.
- Quais foram as aquisições da primeira fase do Águas e Paisagens? A fala diz que foram importantes e não lista nenhuma.
- Quanto custa o Águas II, e quando entrega? Não há valor, prazo, número de unidades a construir nem lista de equipamentos.
- Quais são os novos projetos lançados na solenidade? O comunicado anuncia o lançamento e não nomeia nenhum.
- Quantas pessoas trabalham na Cepdec-ES, e quantos municípios ela atende com plano de contingência? Nenhum efetivo, nenhuma cobertura, nenhum indicador.
- Quem recebeu a Medalha Defesa Civil 50 Anos? O texto fala em personalidades civis e militares, sem nomes e sem quantidade.
O calendário respondeu parte disso depois, em dois momentos. Em dezembro de 2024, um mês depois da solenidade e como fato separado dela, veio a formação de militares em defesa civil no Espírito Santo. E a agenda climática que o governador levou ao Azerbaijão reapareceu no Estado doze meses adiante: em novembro de 2025, um plano estadual de adaptação às mudanças climáticas foi colocado em consulta pública, sem que o material de 2024 tivesse anunciado essa etapa. O comunicado dos 50 anos, por si só, não permite dizer o que foi comprado, construído ou instalado desde então.
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