Estudantes da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Marinete de Souza Lira, na Serra, montaram um aplicativo de comércio local para o bairro de Feu Rosa: um programa para celulares Android que aponta ao morador onde ficam os serviços da própria vizinhança — beleza e moda, restaurantes e supermercados — e que ainda abre um caminho para denunciar descarte irregular de lixo. O trabalho foi feito em equipes, com apoio das professoras Michelle Ribeiro Amorim e Crisley Maria Mendes, e terminou apresentado numa feira de ciências. O registro é de 11 de novembro de 2024, e em nenhum ponto do material divulgado na época se diz onde esse aplicativo pode ser obtido.
O único endereço do texto oficial hoje leva a um site de apostas
Há um endereço de internet no comunicado, e ele não é do aplicativo: é da feira em que o programa foi mostrado. Aparece no meio da frase, entre parênteses, precedido da palavra hiperlink — ou seja, o que foi publicado não é um link, e sim a instrução para quem deveria transformá-lo em link e não transformou. O endereço continua ali, em texto puro, na página de origem que segue no ar.
Conferido em 21 de agosto de 2026, o que esse endereço faz é pior do que não abrir. O domínio geniosdemultigeneros.org responde com redirecionamento permanente e joga o visitante num site de apostas on-line em português, de jogo de cassino. Não é página fora do ar, não é caminho que mudou de lugar dentro do mesmo site, não é prazo vencido: é endereço que trocou de dono. Quem clicar hoje não encontra feira de ciências nenhuma. É por isso que ele não vai reproduzido aqui como link.
A consequência prática atinge quem procura o projeto: o único rastro on-line que o material oferecia deixou de existir como tal, e com ele foi embora a chance de conferir por fora o que a escola apresentou.
Quem desenvolveu o aplicativo, pela conta do próprio comunicado
Convém olhar de quem é a obra, porque em texto de secretaria a autoria costuma se dissolver na gramática. Some o sujeito da oração, entra um particípio, e o trabalho passa a existir sem que ninguém o tenha feito — sobra o adulto que coordenou, e os adolescentes descem à condição de quem usou uma coisa já pronta. Não é o que está escrito neste caso. O comunicado põe os estudantes na posição de sujeito e o verbo em voz ativa: eles desenvolveram o aplicativo. As duas professoras aparecem na mesma oração na condição de apoio, e em nenhum trecho do material reivindicam a obra para si.
A fala de estudante reproduzida adiante empurra para o mesmo lado: quem fala usa a primeira pessoa do plural para o feito — conseguimos, criamos — e coloca a professora no papel de quem orientou.
Dito isso, o crédito está afirmado, não narrado. O comunicado não informa em que linguagem ou com que ferramenta o programa foi escrito, quanto tempo o trabalho levou, quantos estudantes participaram nem em quantas equipes eles se dividiram. Um aplicativo para Android pode ter sido escrito em código puro ou montado em ambiente de blocos, e a diferença de esforço entre os dois caminhos é enorme — o material não permite saber qual foi. Fica o verbo, sem a descrição do trabalho que o sustentaria.
O que o aplicativo de comércio local faz, e o que ninguém explicou
São dois usos numa coisa só. De um lado, um guia do comércio de Feu Rosa organizado em três frentes que o comunicado nomeia: beleza e moda, restaurantes e supermercados. De outro, uma ferramenta para denúncia de descarte irregular de lixo — a parte ambiental que os estudantes acoplaram ao guia.
É justamente na denúncia que falta a informação mais elementar de serviço: o material não diz para onde ela vai. Se a reclamação chega a algum órgão de limpeza urbana, se fica num registro da própria escola, se alguém a responde — nada disso está escrito. Do lado do comércio, também não se sabe quantos estabelecimentos entraram na lista, quem os cadastrou, se a lista era atualizada por alguém e se o programa precisava de internet para funcionar. Um guia de bairro envelhece rápido: loja fecha, muda de endereço, troca de telefone.
E há um recorte que o próprio comunicado impõe sem comentar: o programa é para Android. Quem carrega celular de outro sistema operacional fica de fora, e o material não menciona versão alguma que atenda esse público.
O caminho até o aplicativo passou por entrevistas na rua
A parte mais concreta do relato oficial é a etapa anterior ao código. Divididos em equipes, os estudantes foram conversar com moradores de Feu Rosa para levantar do que a comunidade precisava e o que vinha primeiro. Só depois disso o programa ganhou as funções que ganhou — o guia de comércio e o canal de denúncia saíram, segundo o material, dessa escuta.
Quantas pessoas foram ouvidas, em quantos dias, com que roteiro de perguntas: nada consta. A etapa é descrita, mas não é medida.
Apresentar numa feira não é o mesmo que ser premiado nela
O ponto final da história, no comunicado, é a apresentação do aplicativo na Feira de Ciências: Gênios de Multigêneros +Cultura +Arte Descobrindo a ciência que existe dentro de cada um!. Ali os estudantes demonstraram as funções do programa e deram um treinamento básico de uso.
Repare no que o texto oficial não afirma. Ele não fala em inscrição, em avaliação, em categoria, em colocação nem em prêmio. Apresentar, ser avaliado e ser premiado são três coisas diferentes, e só a primeira está escrita. Isso não permite concluir que o projeto ficou de fora de alguma premiação — o comunicado simplesmente cala sobre o assunto, e calar não é negar. Também não há data da feira, nem onde ela aconteceu, nem quantos projetos disputaram com o dos estudantes.
Impacto imediato: a avaliação de quem divulga, sem nenhuma medida
O comunicado encerra a passagem da feira dizendo que a demonstração gerou um impacto imediato na comunidade. Essa é a leitura de quem publicou o texto, e ela não vem acompanhada de nada que dê para conferir: não há número de instalações do aplicativo, de moradores treinados, de comerciantes listados, de denúncias registradas ou de acessos.
Aliás, o texto oficial vai do começo ao fim sem um único número — nem estudantes, nem equipes, nem entrevistas, nem lojas, nem dias de trabalho. O que ele mede é a intenção; o resultado fica por conta do adjetivo.
A fala que ficou do projeto
“O desenvolvimento do aplicativo foi uma chance incrível para arriscarmos e tentarmos algo novo. Desenvolver um aplicativo do zero foi um desafio, mas com a ajuda dos colegas e a orientação da professora Michelle, conseguimos. Nosso objetivo foi usar a tecnologia para beneficiar a comunidade de Feu Rosa. Criamos um aplicativo que não só ajuda os moradores a conhecerem melhor o bairro, mas também promove a conscientização ambiental, que é muito importante. Trabalhar nesse projeto nos permitiu unir o que aprendemos na escola com algo que faz a diferença para todos aqui no bairro. Foi uma experiência difícil, mas gratificante, e estou muito orgulhoso do que conseguimos alcançar juntos”
Um dos estudantes que fizeram o aplicativo falou assim ao contar como tinha sido o trabalho, e a rede estadual de ensino publicou o depoimento no fecho do relato da atividade. É a única voz de dentro do projeto em todo o material — nem as professoras, nem a direção da escola, nem ninguém da comunidade aparece falando.
Por que o nome desse estudante não aparece nesta matéria
Há um argumento honesto do outro lado, e ele merece ser dito antes da decisão: programa de computador é obra, e quem escreve código assina o que fez. Omitir nome, num caso desses, tira de adolescentes um crédito técnico que eles conquistaram e que costuma valer mais adiante, num currículo ou numa entrevista.
Pesou contra duas coisas. A primeira é que o comunicado não distribui autoria nenhuma: ele credita o aplicativo aos estudantes no plural, conta que trabalharam em equipes e traz um deles falando. A pessoa foi nomeada porque deu um depoimento, não porque alguém tenha atribuído a ela esta ou aquela parte do programa. Publicar o nome seria repartir um crédito que a fonte nunca repartiu — e deixar de fora todos os outros que a fonte não nomeou. A segunda é de durabilidade: nome completo de estudante grudado ao nome da escola e ao nome do bairro é o tipo de resultado de busca que continua respondendo por alguém muito tempo depois de a feira de ciências acabar.
Com as professoras o critério é outro. Elas aparecem no material como as profissionais responsáveis pelo acompanhamento do projeto, respondem por ele no exercício do ofício — e por isso seus nomes ficam.
Sem estas informações, ninguém instala o aplicativo
Quem lesse o comunicado e quisesse pôr no celular o aplicativo de comércio local esbarraria, uma a uma, nestas lacunas:
- onde o aplicativo pode ser baixado ou visto: não há loja, página, arquivo nem qualquer endereço do programa em ponto algum do texto;
- para quem vai a denúncia de descarte irregular de lixo, e o que acontece depois que ela é enviada;
- quantos estudantes participaram, em quantas equipes, e de que série ou etapa de ensino;
- em que linguagem ou ferramenta o programa foi escrito e quanto tempo o desenvolvimento levou;
- quantos comerciantes de Feu Rosa entraram no guia e quem manteria a lista atualizada;
- quando e onde ocorreu a feira de ciências, e se houve avaliação, categoria ou colocação;
- se o aplicativo continuou em uso depois daquele dia, se recebeu novas versões ou se parou ali.
O comerciante de Feu Rosa não foi ouvido, nem quem recolhe o lixo
O material é comunicação institucional de rede de ensino, e traz a escola contando o próprio feito. Faltam nele dois interlocutores que a matéria pedia. Um é o comerciante de Feu Rosa — o guia existe para promover o comércio do bairro, e nenhum dono de mercado, restaurante ou salão diz se apareceu no aplicativo, se soube dele ou se sentiu diferença. O outro é quem responde pela coleta de lixo na região, que teria de dizer se recebeu alguma dessas denúncias. Sem os dois, o que se sabe do uso do app de comércio local é o que a própria escola relatou.
Projetos parecidos, antes e depois de Feu Rosa
O aplicativo da Serra não foi caso isolado no calendário escolar capixaba, e a comparação ajuda a ver o que está e o que não está neste material. Dois meses antes, em setembro de 2024, o portal registrou um aplicativo escolar que acendia lâmpadas pelo celular, feito por três alunas em Ibatiba — episódio anterior a este, em outra escola e outro município, e igualmente sem endereço divulgado para o programa.
Depois vieram outros dois. Em abril de 2025, estudantes de Colatina levaram a um projeto de sala de aula propostas de controle de lixo e de uso mais econômico de água e energia, um ano depois do caso da Serra. E em outubro de 2025 um aplicativo escolar de Piúma que mapeia barreiras de acessibilidade e recebe denúncias dos usuários chegou a uma feira do sul do Estado com colocação anunciada pela própria feira — a informação que falta exatamente aqui.
A própria EEEFM Marinete de Souza Lira voltaria ao noticiário cinco meses depois, em abril de 2025, quando uma turma da escola isolou material genético de morangos no laboratório do prédio — atividade posterior a esta e de outra disciplina. Naquele registro, o aplicativo de Feu Rosa não é mencionado.
Em nenhum desses registros aparece verba, meta, calendário comum ou coordenação de um com o outro. Pelo que cada comunicado diz de si, o que há é uma sucessão de iniciativas tocadas por cada unidade — não um programa de rede que as tenha encomendado.
Fica, de 11 de novembro de 2024, um trabalho de sala de aula que foi longe: os estudantes ouviram os vizinhos, dividiram-se em equipes e entregaram um programa de celular que reunia o comércio de Feu Rosa e um canal de denúncia ambiental, mostrado a quem passou pela feira. O que nunca foi anunciado é o passo seguinte — pôr o programa num lugar público e dizer ao morador onde achá-lo. E o único endereço que o texto oficial chegou a publicar pertence hoje a outra gente.
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