Uma turma do curso técnico em Administração da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Camila Motta, de Alfredo Chaves, passou a quinta-feira, dia 24, fora da sala: cumpriu uma visita técnica a fábrica de alimentos em Marechal Floriano, município vizinho. O que o comunicado oficial narra é um roteiro de observação — apresentação institucional, percurso pelas instalações e uma parada nomeada, as estações de tratamento de água e esgoto da unidade. Em nenhum ponto ele põe os estudantes operando equipamento, manuseando produto ou fabricando alguma coisa.
O comunicado, assinado pela rede estadual de ensino, omite o ano: registra só o dia da semana seguido do número 24. Como foi publicado em 28 de abril de 2025, a data se fecha em 24 de abril de 2025. É arquivo de fato consumado, e não convite para atividade marcada.
Visita técnica a fábrica de alimentos: o roteiro, passo a passo
A saída começou sentada. Segundo o material, o primeiro bloco foi uma apresentação institucional, conduzida pela anfitriã, que percorreu as características da empresa, a trajetória da marca e os cuidados com segurança do trabalho. Vieram depois, ainda pelo relato, marketing, logística e práticas sustentáveis da rotina da casa.
Repare na fórmula que abre essa enumeração: o material escreve temas como antes de citar os três. Com isso a enumeração fica aberta: esses foram os assuntos nomeados, não obrigatoriamente todos os que apareceram. Dizer que foram três seria conta nossa, não informação da escola.
Marketing e logística, aliás, são conteúdo do próprio curso de Administração, que é o da turma. A imersão na indústria de alimentos é o enquadramento que o texto dá à saída; o que ele nomeia de concreto pertence ao currículo administrativo.
A única estação nomeada no percurso não é de produção
Nas instalações, o texto identifica um único ponto com nome próprio: as estações de tratamento de água e esgoto da unidade. Nenhum setor de produção é apontado — não há sala, etapa, máquina nem processo descrito em lugar algum do material.
E há um resultado afirmado sem que o caminho até ele apareça: o comunicado sustenta que a experiência abriu aos estudantes um panorama amplo do que envolve fabricar alimentos à base de carne de frango, segmento principal da empresa. O percurso descrito nas linhas anteriores não passa por nada disso. O objetivo anunciado na abertura e o roteiro narrado em seguida não se encontram, e nada ali costura um ao outro.
O que as estações de tratamento fazem, que exigência elas cumprem e quem as fiscaliza também ficaram de fora. Vale o mesmo para as práticas sustentáveis mencionadas: elas entram no texto como descrição que a própria empresa faz de si, sem indicador, sem número e sem conferência de terceiro.
Uma aula de campo também é vitrine para quem recebe
Isto o comunicado não escreve, e cabe escrever. Ele é peça de comunicação de escola pública, só que o roteiro narrado foi desenhado pela anfitriã — uma empresa privada — e o primeiro bloco da atividade consistiu nela falando de si: marca, histórico, cuidados, práticas. A empresa aparece nomeada, elogiada e agradecida, sem que ninguém de fora dela pese o que foi apresentado à turma.
Nada disso desfaz o valor pedagógico da saída, e contrapartida de espécie alguma foi registrada. Ainda assim, vale marcar: o mesmo comunicado que arquiva uma atividade escolar rende à fábrica uma exposição que ela não pagou. E ninguém da empresa é ouvido ali — nem para explicar o que a unidade faz, nem para contar por que abre as portas a estudantes.
Duas falas, as duas de dentro da escola
A vivência em ambientes reais amplia a visão dos estudantes sobre o funcionamento das organizações e complementa os conteúdos abordados em sala de aula. Foi uma oportunidade rica de aprendizado.
A avaliação é de Alan Machado, coordenador do curso técnico e responsável pela aula de campo.
A aproximação entre escola e setor produtivo é essencial para uma educação técnica de qualidade. Agradecemos à Oi Alimentos pela receptividade e por proporcionar uma experiência tão significativa aos nossos alunos
Quem fala é o diretor escolar, Felipe De Nadai. Não há terceira voz no comunicado: nos dois trechos, quem se pronuncia responde pela escola. Nenhum estudante é citado, nem em fala nem em número, e nenhuma avaliação chega de fora da atividade. Um texto assim carrega o ponto de vista de quem o assina — o que não está ali não foi negado a ninguém, apenas não chegou a ser perguntado.
O que a escola não informou sobre a saída
- Quantos estudantes participaram. Não constam o total de alunos, a série que cursam nem quantas turmas foram.
- Quanto tempo durou e como a turma chegou lá. Houve travessia de um município a outro, sem uma linha sobre veículo, horário de ida e volta ou a conta do percurso.
- Se a visita integra um plano de ensino. Não há menção a tarefa posterior, relatório, seminário ou disciplina a que a atividade se vincule.
- Como a visita foi combinada. Sabe-se quem respondeu pela aula de campo dentro da escola, mas não se a escola bateu à porta da empresa, se a empresa ofereceu o roteiro ou se alguém intermediou.
- O porte da unidade visitada. A fábrica é descrita apenas pelo segmento em que atua, sem número de trabalhadores, sem linha de produtos e sem indicação de onde eles chegam.
- Se existe programa de visitas. Se outras escolas podem agendar o mesmo percurso, e por onde, ficou sem resposta.
- Se há caminho de estágio ou de emprego. A aproximação com o setor produtivo é o argumento das duas falas, mas o material não menciona vaga, seleção nem convênio.
Depois do dia 24, o texto silencia
Não há anúncio de desdobramento: nem nova saída, nem parceria assinada, nem projeto conjunto, nem retorno da empresa à escola. A precisão importa aqui — a respeito do que veio em seguida, o comunicado apenas se cala. É lacuna do que se divulgou; não é declaração de que a história tenha parado no portão da fábrica.
A mesma escola já havia trocado a carteira pelo campo
Não é a primeira aula de campo registrada na EEEFM Camila Motta. Em agosto de 2024, oito meses antes desta, turmas de outros cursos técnicos da escola cumpriram uma visita técnica à Mata Atlântica — atividade anterior a esta, em outra área de formação e sem ligação com ela.
O formato também se repetiu adiante: um mês depois, em maio de 2025, outra turma do mesmo curso técnico em Administração percorreu uma fábrica de chocolates — fato posterior a este, protagonizado por outra escola, em outra cidade e em outro ramo. Postos lado a lado, os dois indicam que a saída para a indústria se repetiu no período; nenhum deles, porém, narra o que aconteceu em Marechal Floriano.
Direto Notícias Imparcial, Transparente e Direto!

