Estudantes do 9º ano da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Presidente Lüebke, em Vargem Alta, deixaram a sala de aula para caminhar por uma trilha e por um roteiro histórico dentro da comunidade quilombola de Monte Alegre. A saída fechou um trabalho que a turma vinha fazendo em torno da cultura afro-brasileira e foi divulgada pela Sedu em maio de 2025.
Trata-se de uma atividade pontual, não de um programa aberto ou continuado. O texto oficial diz que a caminhada ocorreu na última semana, sem informar o dia, e a situa dentro de uma proposta pedagógica montada pela própria escola. Em nenhum trecho a Sedu afirma que o roteiro entrará no calendário, que outras turmas repetirão o percurso ou que a proposta segue nos próximos bimestres. Também não há menção a visita aberta ao público: foi uma saída de uma turma, em uma semana específica.
De um livro lido em sala até a caminhada na trilha
O começo não foi a trilha, foi um livro. A turma leu O segredo de Monte Alegre — obra cujo autor o material oficial não nomeia — e debateu o conteúdo em conversas e no que a Sedu chama de tertúlia dialógica. O termo aparece sem nenhuma explicação; pelo próprio texto, designa o formato em que a leitura foi discutida em grupo antes da saída. Foi por esse caminho, segundo a secretaria, que os alunos chegaram às manifestações de matriz africana e ao tema da cultura quilombola.
Depois veio a etapa de campo. O grupo percorreu a trilha, observou a vegetação da região e passou pela área que o material chama apenas de FLONA, apresentada como reserva ambiental no interior de Pacotuba, perto da comunidade. A sigla não é aberta em momento algum, e o texto não diz de quem é a gestão da área nem se a entrada depende de autorização prévia.
A comunidade quilombola de Monte Alegre recebeu a visita, mas não foi ouvida
Monte Alegre não é ponto turístico nem cenário de passeio escolar: é onde mora gente. E são justamente essas pessoas que não aparecem no material divulgado. As duas falas reproduzidas pela secretaria vêm de dentro da escola — o professor responsável e um estudante. Nenhum morador, nenhuma liderança e nenhuma associação da comunidade é nomeada, ouvida ou citada.
O texto oficial também não conta como a visita foi combinada. Não informa quem recebeu o grupo, se houve autorização ou acordo prévio com quem vive no território, nem se algum morador acompanhou a caminhada. Sobre modos de vida, história ou práticas da comunidade, o material não descreve nada — e esta reportagem não preenche esse vazio por conta própria. O que está registrado é o objetivo declarado pela escola: aproximar os alunos de uma cultura que existe na mesma região onde eles moram.
Ao explicar esse objetivo, o professor responsável escolheu a palavra invisibilizada:
O diferencial da ação foi aproximar os estudantes de uma cultura que já está presente no território em que vivem. Trazer esse olhar de valorização da comunidade quilombola, que muitas vezes é invisibilizada no espaço escolar, foi fundamental para a construção de uma postura mais crítica e respeitosa
A avaliação é do professor de Língua Portuguesa Ronald Onhas, responsável pela atividade, em declaração divulgada pela Sedu.
Do lado dos alunos, o único registro que o material traz é o de um adolescente da turma:
Foi um passeio maravilhoso. Compartilhei momentos bons com os amigos, me conectei com a natureza e aprendi muito sobre culturas diferentes. Isso me ajudou no meu crescimento pessoal e no meu modo de ver o mundo
O relato é de um estudante do 9º ano. O nome divulgado no material oficial não é reproduzido aqui porque se trata de adolescente identificado ao lado da escola e da série que cursa.
O que o texto oficial não informa
A secretaria divulgou a atividade, não um relatório sobre ela. Ficou de fora quase tudo o que um pai, um professor de outra escola ou um morador da região perguntaria primeiro:
- a data exata da saída — o material diz apenas que foi na semana anterior à divulgação;
- quantos estudantes participaram e quantos profissionais acompanharam a turma;
- em que município ficam Monte Alegre e Pacotuba, e a que distância estão da escola;
- como foi feito o transporte e quem arcou com ele;
- quem recebeu o grupo na comunidade e se houve combinação prévia com os moradores;
- o que significa a sigla FLONA e quem administra a reserva;
- quem escreveu O segredo de Monte Alegre;
- se a proposta terá continuidade com outras turmas ou em outros anos.
Vale entender que tipo de documento é esse: uma comunicação do próprio órgão sobre o trabalho da própria rede. Não há avaliação externa, não há resposta da comunidade visitada e não há contraponto de ninguém. A ausência de crítica em um material assim não significa consenso — significa apenas que ninguém de fora foi consultado.
Saídas parecidas em outras escolas no mesmo período
Outras escolas registraram saídas do mesmo tipo no primeiro semestre de 2025. Duas semanas depois desta trilha, em atividade independente e com outra turma, estudantes de Afonso Cláudio fizeram visita pedagógica à Comunidade de São José do Queimado. Um mês depois desta trilha, já em junho, outra escola do mesmo município levou o trabalho para outra frente, com um projeto de inclusão e acessibilidade no ensino de Ciências em Vargem Alta. São iniciativas separadas, de escolas diferentes, sem relação entre si além do calendário.
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