Furto de energia em Cariacica: dono de barraca é levado ao Deic

Uma denúncia de furto de energia em Cariacica levou policiais civis, peritos e técnicos da distribuidora, na sexta-feira (06), a uma barraca de pastel e caldo de cana do município. A vistoria encontrou uma ligação elétrica sem medidor e um segundo ramal puxado de uma loja de joias, informa a Polícia Civil do Espírito Santo (PCES). O proprietário do ponto, um homem de 33 anos, foi levado depois ao Departamento Especializado de Investigações Criminais (Deic), em Vitória. O comunicado oficial não informa prisão, autuação nem indiciamento, não cita um único artigo de lei e não apresenta valor de prejuízo.

A diligência atendeu a uma solicitação do Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES), diz o texto, e reuniu três participantes: a Divisão Especializada de Repressão aos Crimes Contra o Patrimônio (DRCCP), unidade da própria Polícia Civil; o Departamento de Criminalística da Polícia Científica (PCIES), encarregado da perícia no local; e técnicos da EDP, a empresa que distribui e mede a energia. Quem levou a denúncia à polícia, o comunicado não diz. Também não nomeia a delegacia que segue com a investigação e não menciona decisão judicial de espécie alguma — o único endereço acrescentado ao de Cariacica é o do Deic, em Vitória, para onde o proprietário foi conduzido.

A empresa que acompanha a vistoria é a mesma que cobra a conta

Nesse arranjo a distribuidora aparece duas vezes: como parte da equipe que inspeciona e como a única interessada em quanto consumo deixou de ser faturado. Não há irregularidade nisso — a medição é dela —, mas muda o peso do que se pode afirmar. O material não apresenta cálculo nenhum: não diz quanta energia teria passado sem registro, em que período, sob que tarifa, nem se alguém chegou a estimar isso. Estimativa de quem tem interesse na conta seria informação atribuída, não número apurado — e aqui não há sequer a estimativa. Nada consta, ainda, sobre a instalação ter sido desligada, regularizada ou mantida depois que as equipes foram embora.

Sem alvará, a barraca não conseguiu medidor

O trecho mais revelador do comunicado vem do próprio proprietário, anotado pelos policiais durante a diligência. Ele contou que o comércio funciona há mais de 10 anos — quantos a mais, o texto não precisa —, que foi aberto pelo pai e que passou às mãos dele há alguns anos. Contou também que chegou a pedir um medidor à distribuidora e que o pedido foi negado porque o ponto não tem alvará de funcionamento expedido pela Prefeitura Municipal.

O relato descreve um beco: sem alvará não sai o medidor, e sem medidor a instalação continua fora da medição. O comunicado registra o impasse e para aí. Não informa o que a legislação municipal exige para liberar o alvará de um ponto como esse, quanto tempo o pedido leva, se existe algum regime provisório de fornecimento enquanto ele tramita, nem qual é a versão da distribuidora e a da prefeitura sobre o indeferimento. É preciso dizer, também, que se trata da versão do proprietário, e não de uma checagem feita pelos órgãos que estavam ali.

Duas instalações diferentes no mesmo balcão

A perícia descreveu dois arranjos distintos, e a diferença entre eles importa. O primeiro é uma ligação direta, sem medição, conectada a uma máquina de espremer laranjas e a outros equipamentos. O segundo é um ramal monofásico vindo de uma loja de joias, que o texto oficial classifica como ligação clandestina. Nos dois casos, segundo o comunicado, o consumo real deixava de ser registrado.

Sobre o segundo arranjo o material silencia justamente onde o leitor pergunta: não diz quem instalou o ramal nem quando, não diz se a joalheria sabia ou autorizou, não informa se alguém do estabelecimento foi ouvido e não indica que a loja responda por coisa alguma. Os dois achados aparecem em sequência no texto oficial, sem que ele afirme vínculo entre as duas partes.

Vale distinguir ainda as situações que costumam ser tratadas sob o mesmo rótulo. Aqui o alvo é um comércio; em outra apuração, quatro meses depois desta, a mesma polícia foi a uma residência do mesmo município — um caso à parte, com moradores que nada têm a ver com esta barraca. Energia puxada para uma casa e fraude em ponto comercial envolvem escalas, finalidades e consequências diferentes, e a nota desta sexta-feira não faz essa separação.

Furto de energia em Cariacica: sem valor, sem laudo e sem enquadramento

Os pontos que o texto oficial não cobre, um a um:

  • O prejuízo. Nenhum valor em reais, nenhuma quantidade de energia, nenhum período de consumo e nenhuma indicação de quem faria essa conta.
  • O laudo. Houve perícia no local, mas o comunicado não diz se o laudo foi concluído nem o que ele apontou além do que a equipe viu na hora.
  • O tempo. O comércio tem mais de dez anos de funcionamento; desde quando existiam as ligações, e por obra de quem, o material não informa.
  • A entrada. A palavra mandado não aparece. O texto diz que os policiais entraram em contato com o proprietário e que ele acompanhou a perícia, sem explicar sob que autorização as equipes acessaram o ponto.
  • A apreensão. Equipamentos são citados como ligados à instalação irregular, e não como recolhidos por alguém.
  • O enquadramento. Furto de energia elétrica aparece como o objeto da denúncia apurada, e nenhum tipo penal é nomeado no fecho — nem para o proprietário, nem para qualquer outra pessoa.
  • O desfecho. Ele foi apresentado à autoridade policial, e o comunicado termina sem dizer o que se decidiu ali: se houve registro de ocorrência, termo, fiança, liberação ou nada disso.

Falta a voz de todos os lados que o caso tem

Do proprietário existe apenas o que os policiais anotaram no local; ele não fala em nome próprio, e advogado nenhum é citado. A distribuidora está no texto como participante da ação, nunca como quem responde sobre o medidor negado. A prefeitura, mencionada por causa do alvará, não é procurada. Da loja de joias, nada. Nenhuma associação de comerciantes ou de moradores é ouvida sobre como pontos pequenos e antigos conseguem — ou não — regularizar o fornecimento. Em todo o comunicado não há uma frase dita por alguém: nem entre aspas, nem atribuída pelo nome a quem falou.

Para quem quer denunciar ou regularizar

A nota não oferece caminho nenhum: não indica canal de denúncia, não informa como se pede uma vistoria e não diz a quem recorre o comerciante preso no impasse do alvará. Os canais públicos gerais seguem valendo:

  • 181 — Disque-Denúncia estadual, que recebe a informação sem identificação de quem liga.
  • 190 — quando há perigo imediato à vista, caso de fio exposto ou princípio de incêndio em rede elétrica.

Para o contato com a concessionária, este material não serve de guia, e nenhum número dela será inventado aqui. uma vistoria feita em fevereiro de 2025, em outro município do Espírito Santo, veio acompanhada de um comunicado que informava o telefone da concessionária para esse tipo de contato — caso à parte, com gente sem relação alguma com esta apuração, e citado aqui só porque o texto oficial de lá trouxe o dado de serviço que o de agora não traz.

Por que o bairro não está nesta matéria

A nota oficial informa o bairro onde fica o ponto. Esta matéria não o reproduz. A descrição do comércio já é muito específica e, somada ao bairro e ao município, deixaria de apontar um caso para apontar um endereço — e, com ele, uma pessoa que, pelo próprio texto oficial, não foi formalmente acusada de nada até aqui. Cariacica fica, porque um município inteiro não leva ninguém até uma porta.

Na mesma linha, o homem de 33 anos não é chamado aqui de suspeito nem de investigado: o comunicado oficial não usa nenhum dos dois termos, e adotar um deles seria atribuir a ele uma condição que o órgão não declarou.

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