Quadra poliesportiva coberta entregue pelo Governo do Estado em escola municipal do bairro Carapina Grande, na Serra

Quadra pronta na Serra; reforma de escola só autorizada

A quadra poliesportiva na Serra que o Governo do Estado inaugurou na sexta-feira (06) de junho de 2025 é coberta, fica na Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Américo Guimarães Costa, no bairro Carapina Grande, e custou R$ 1,8 milhão. Na mesma agenda, o comunicado oficial registra um segundo item: a assinatura da Ordem de Serviço para a reforma e ampliação da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Sizenando Pechincha, no bairro Barcelona, com R$ 16,2 milhões. Os dois itens estão em pontos opostos do percurso de uma obra: um foi entregue e o outro apenas recebeu autorização para começar. O material é de junho de 2025 e descreve aquele dia; ele não acompanha nada do que veio depois.

A diferença entre os dois verbos decide o que o leitor encontra se for até lá. Inaugurar é abrir o que ficou pronto. Assinar Ordem de Serviço é liberar o começo dos trabalhos a quem vai executá-los — é papel, não é obra. Num anúncio que junta as duas coisas na mesma frase, o item pronto empresta ao item autorizado uma sensação de conclusão que ele não tem.

Uma escola municipal e uma escola estadual no mesmo anúncio

As duas unidades não pertencem à mesma rede, e isso está nos próprios nomes que o comunicado usa. A EMEF Américo Guimarães Costa é municipal: quem a administra, matricula e mantém é o município. A EEEFM Sizenando Pechincha é estadual, e atende Ensino Fundamental e Ensino Médio.

A quadra, portanto, foi obra do Estado dentro de uma escola do município. O comunicado informa que a execução coube ao Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado de Esportes e Lazer (Sesport) e do Departamento de Edificações e de Rodovias (DER), e que a entrega se deu em parceria com a Prefeitura da Serra. O que cada parte fez, o texto não descreve. Não se lê ali o que o município aportou, quem cedeu o terreno ou quem responde pela conservação do espaço a partir da inauguração.

Item por item: a quadra poliesportiva na Serra e o documento assinado em Barcelona

O que foi anunciado Rede e endereço Estágio no dia do anúncio Valor divulgado O que o material não diz sobre ele
Quadra poliesportiva coberta da EMEF Américo Guimarães Costa Escola municipal, bairro Carapina Grande Entregue. Inaugurada naquela sexta-feira, com a estrutura descrita em detalhe R$ 1,8 milhão quando a obra começou, quanto tempo durou, de qual origem saiu o dinheiro, quem cuida do espaço agora e em que horários ele funciona
Reforma e ampliação da EEEFM Sizenando Pechincha Escola estadual, bairro Barcelona Ordem de Serviço assinada. Autorização para iniciar; nada construído até ali R$ 16,2 milhões, apresentados como investimento inicial quem assinou o documento, qual empresa executa, data de início, prazo de entrega, valor final e onde ficam os alunos durante a obra

Cada cifra aparece acima colada ao seu item, do jeito que a página oficial a publicou. Não há total nesta matéria: somar obras em degraus diferentes criaria um número que o comunicado não apresenta. E vale reparar onde está cada uma — a quantia maior pertence à obra que ninguém podia visitar naquela sexta-feira; a menor, à quadra que já dava para usar.

Nenhuma das duas cifras vem com um pagador declarado

Sobre a quadra, a construção do comunicado é passiva: a obra foi executada pelo Governo do Estado, com investimento de R$ 1,8 milhão. Sobre a escola de Barcelona, a frase é ainda mais curta: a unidade vai contar com investimento inicial de R$ 16,2 milhões. Em nenhuma das duas se diz de que caixa sai o dinheiro — se é recurso ordinário do Estado, convênio, financiamento ou emenda parlamentar. Também não há contrapartida do município registrada em nenhum dos itens.

Há ainda uma frase sem sujeito no meio do texto oficial: também foi assinada a Ordem de Serviço. Assinada por quem, o corpo do comunicado não informa. O título com que a página oficial anuncia o dia credita a autorização ao governador Renato Casagrande, que estava na solenidade — mas essa atribuição não aparece na frase que descreve o ato.

E a palavra colada aos R$ 16,2 milhões pede atenção: inicial. Ela avisa que aquele é o ponto de partida da conta, e não o desfecho dela. Quanto a reforma deve custar ao fim, o material não diz.

695,40 metros quadrados, 130 lugares na arquibancada e nenhum número de aluno

A quadra é o item mais detalhado do comunicado, e todo o detalhe mede concreto. São 695,40 metros quadrados de área total, dimensões de 30,50m x 22,80m e um piso demarcado de 26,00m x 14,00m. A arquibancada comporta 130 pessoas. Repare que o piso pintado é menor que a estrutura construída; o que ocupa a diferença — circulação, recuo, a própria arquibancada — não está escrito.

Nenhum desses números conta gente que estuda ali. Os 130 lugares são plateia sentada, não turmas atendidas. Quantos estudantes frequentam a EMEF Américo Guimarães Costa, quantas turmas passam a ter aula de educação física sob cobertura e se a escola já dispunha de uma quadra antes são coisas que o comunicado não diz — se esta substitui uma descoberta, amplia o que havia ou é a primeira do prédio. Sem esse dado, uma estrutura entregue permanece sendo estrutura: o ganho para quem estuda não foi quantificado por ninguém.

A lista de esportes também não fecha. O comunicado cita basquete, futsal, vôlei e outras modalidades, e a expressão deixa a relação aberta sem dizer quais são as demais. Tampouco se informa se as medidas do piso demarcado atendem às regras oficiais de cada uma delas.

O que a reforma em Barcelona prevê, e por que a lista não fecha

Para a EEEFM Sizenando Pechincha, o comunicado usa um verbo que abre a enumeração em vez de fechá-la: as intervenções incluem o que vem a seguir, ou seja, o que está listado é parte do escopo e não o escopo inteiro. A relação divulgada tem cinco entradas:

  • novos blocos;
  • refeitório;
  • auditório;
  • 16 salas de aula;
  • laboratórios e melhorias em acessibilidade.

Do que está listado, quase tudo fica sem tamanho. Não se diz quantas salas a escola tem hoje, se as 16 novas são acréscimo ou reposição, quantos laboratórios serão construídos nem de que tipo, e o que exatamente as melhorias em acessibilidade compreendem — rampa, elevador, banheiro adaptado, piso tátil ou sinalização. Sobre o auditório e o refeitório, não há capacidade informada.

Um detalhe de leitura ajuda a não contar duas obras onde há uma: a escola de Barcelona é citada duas vezes pelo mesmo comunicado — logo na abertura e, mais adiante, no trecho que trata do dinheiro. É o mesmo prédio e a mesma reforma. Nas duas menções o nome vem grafado de modo diferente — Ensino Fundamental numa, Ensino Fundamenta na outra —, e o deslize está na página oficial, não foi introduzido aqui.

Uma quadra sem horário e uma reforma sem prazo: o que falta no comunicado

Reunidas, as lacunas do comunicado alcançam justamente o que decide a rotina de quem frequenta as duas escolas:

  • a quadra de Carapina Grande abre para a comunidade fora do horário de aula, ou é de uso exclusivo dos estudantes da escola municipal;
  • se abre, em que dias e horários, e se é preciso agendar com alguém;
  • quem administra e conserva a quadra depois da entrega — a escola municipal, a Prefeitura da Serra ou a Sesport;
  • quantos estudantes a EMEF Américo Guimarães Costa atende e quantas turmas passam a usar o espaço;
  • quando começa a reforma da EEEFM Sizenando Pechincha e em quanto tempo deve terminar;
  • qual empresa foi contratada para executá-la e como foi escolhida;
  • onde ficam os alunos de Barcelona enquanto o prédio é reformado — se haverá remanejamento para outra unidade, troca de turno ou obra por etapas com a escola funcionando;
  • quantos estudantes a escola estadual recebe hoje e quantos passaria a comportar com as 16 salas novas;
  • qual o valor final previsto, já que os R$ 16,2 milhões são descritos como iniciais;
  • a que canal a família recorre para acompanhar cada uma das duas obras. O comunicado não indica nenhum, e nenhum é sugerido aqui por conta própria.

Sobre a obra autorizada, a página oficial daquele dia se limita a registrar a assinatura. Ela não afirma que a reforma começou, não afirma que deixou de começar e não estabelece marco algum de acompanhamento. É silêncio sobre a etapa seguinte, e não uma negativa: nada neste texto permite dizer em que ponto a obra está agora.

Ninguém de Carapina Grande nem de Barcelona aparece no comunicado

Todas as informações reunidas aqui vêm de um material do Governo do Estado sobre obras do próprio Governo do Estado, divulgado no dia da solenidade que ele organizou. As duas vozes registradas na página são o governador Renato Casagrande e o secretário de Estado de Esportes e Lazer, José Carlos Nunes — as duas partes que assinam o anúncio.

Não fala a direção de nenhuma das duas escolas. Não falam professores, estudantes nem responsáveis. A Prefeitura da Serra é citada como parceira na entrega da quadra e não é ouvida. O prefeito de Serra, Weverson Meirelles, e os deputados estaduais Fábio Duarte, Vandinho Leite e Alexandre Xambinho constam como presentes na cerimônia, sem que o material lhes atribua fala ou função na execução das obras. E ninguém que more em Carapina Grande ou em Barcelona é consultado sobre o que muda na porta de casa.

As duas falas que o comunicado publica são de celebração e não acrescentam informação ao que os parágrafos já traziam: nenhuma delas apresenta prazo, valor, regra de uso ou dado sobre as escolas. Por isso não foram reproduzidas nesta matéria. Uma delas, aliás, sai da página oficial com aspas que abrem de um jeito e fecham de outro — falha de digitação da origem.

O mesmo formato se repetiu na Serra depois desta agenda

Anúncios que empacotam obra pronta e obra autorizada são rotina, e a própria cidade voltou a viver a cena pouco depois. Seis semanas mais tarde, o Estado assinou na Serra um convênio para recapear vias urbanas e a ordem de início de uma obra de esgoto — outra agenda, seis semanas depois desta e sem ligação com estas duas escolas, em que nenhum dos dois itens tinha obra iniciada. Em novembro de 2025, também na Serra, foi autorizada a obra de uma praça e de um campo no bairro Maringá, caso mais recente, com outro tipo de equipamento e nenhuma relação com estas obras, igualmente parado no degrau da autorização e sem prazo informado.

O arranjo também não é exclusivo da cidade: três meses antes desta solenidade, um único anúncio reuniu, em outro município, obras de escola já prontas ao lado de uma que só tinha o documento assinado — aquilo se passou meses antes, noutra cidade e envolvendo escolas que não são estas.

E o que uma quadra escolar sustenta depois do dia da fita cortada aparece melhor em outro registro da mesma cidade: cinco dias de futsal, vôlei e queimada entre turmas de uma escola estadual da Serra, em agosto de 2025, mais de dois meses depois desta solenidade, noutra unidade de ensino e sem qualquer vínculo com as obras descritas aqui. É a diferença entre inaugurar o espaço e usá-lo, e só a segunda parte costuma ficar de fora dos comunicados.

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