A conferência de economia solidária que reuniria empreendimentos, entidades de apoio e gestores públicos no Centro de Referência de Assistência Social (Cras) de Vila da Mata, em Venda Nova do Imigrante, tinha data, hora e endereço: quinta-feira, dia 22, às 13 horas. De agosto de 2024. A data ficou dois anos para trás, e o que vem abaixo serve para consultar o que aquele comunicado dizia — não para ir a lugar nenhum.
Vale a checagem que o próprio calendário permite, porque nem sempre ela fecha: o texto foi publicado em 16 de agosto de 2024, seis dias antes do encontro. Ou seja, a convocação estava correta no dia em que saiu e envelheceu depois — diferente de avisos que já nascem fora do prazo.
Era a segunda das seis etapas das Conferências Territoriais de Economia Solidária, organizadas pela Comissão Organizadora da 4ª Conferência Estadual de Economia Solidária. A primeira tinha sido em Cachoeiro de Itapemirim, no dia 7.
Uma quinta-feira às 13 horas, num Cras — e mais nada sobre o lugar
O material dá o nome do equipamento e a localidade: o Cras de Vila da Mata, em Venda Nova do Imigrante. Não dá rua, número, ponto de referência nem horário de encerramento. Quem fosse ao endereço precisava saber de antemão onde a unidade fica.
O Cras é equipamento da rede de assistência social, a mesma rede que meses depois apareceria em um anúncio estadual de repasse para reformar e construir unidades — anúncio posterior a esta conferência, em outra frente, e que na ocasião era promessa de recurso, não obra em andamento.
Seis etapas, seis pontos do Estado — e datas só com dia e mês
O calendário divulgado em 2024 era este:
- Cachoeiro de Itapemirim — dia 7, já realizada quando o aviso saiu;
- Venda Nova do Imigrante — dia 22, às 13 horas, no Cras de Vila da Mata;
- São Mateus — 04/09;
- Nova Venécia — 18/09;
- Colatina — 20/09;
- Região Metropolitana — 25/09.
Duas observações que só aparecem quando se lê a lista com atenção. A primeira: as quatro últimas datas vêm sem o ano, e é o contexto do texto — não o texto — que as coloca em 2024. A segunda: Região Metropolitana não é município, e o material não informa em que cidade a sexta etapa aconteceria.
Acima das territoriais havia mais dois degraus da mesma conferência de economia solidária, ambos também anunciados e nenhum deles relatado: a Conferência Estadual, marcada para Vitória nos dias 27 e 28 de novembro, e a 4ª Conferência Nacional de Economia Solidária, marcada para 10 a 13 de abril de 2025, em Brasília.
O que uma conferência de economia solidária decide, o aviso não conta
Esta é a lacuna mais cara do material, porque é a que responderia por que valia a pena atravessar a cidade numa tarde de quinta-feira. O texto diz que as etapas territoriais são preparatórias para a Conferência Estadual e que o destino final das propostas — de nível local, territorial, municipal, estadual e nacional — é a elaboração do 2º Plano Nacional de Economia Solidária.
Só isso. Não há uma linha sobre eleição de delegados, sobre quantos delegados cada território levaria à etapa estadual, sobre quem tinha direito a voto, sobre como uma proposta aprovada numa sala em Venda Nova do Imigrante subiria para Vitória e de lá para Brasília, nem sobre prazo de votação.
Há ainda uma ambiguidade na frase central do comunicado: ao listar empreendimentos econômicos solidários, entidades de assessoria e fomento e gestores públicos, o texto os apresenta ao mesmo tempo como os interlocutores do debate e como os assuntos a debater. Publicado assim, o item que definiria o público do encontro é o mesmo que ficou sem definição.
Território de quê? O adjetivo do nome é a parte não explicada
O encontro se chama territorial, e o material não diz que território é esse: não lista os municípios que a etapa de Venda Nova do Imigrante atenderia, não explica por que o Estado foi dividido em seis recortes, e não diz quem fez a divisão. Um produtor de município vizinho não tem como saber, lendo aquele texto, se deveria ir a Venda Nova do Imigrante, a Cachoeiro de Itapemirim ou a Colatina.
A mesma lacuna atinge o assunto: o comunicado nunca define o que é economia solidária, e não apresenta um número sequer do setor no Estado — nem quantos empreendimentos existem, nem quantas pessoas vivem deles, nem quanto movimentam. Para quem procura a política pública que alcança famílias em vulnerabilidade, o retrato quantitativo teve de vir depois e de outro lugar, como um estudo estadual posterior sobre o perfil da pobreza, divulgado em 2025 e independente desta conferência.
O endereço de inscrição abre — e o formulário já não recebe respostas
O aviso trazia um único canal ao leitor: o formulário de inscrição das conferências territoriais. Conferido agora, o endereço continua funcionando e leva ao mesmo formulário — que hoje abre na tela de cadastro encerrado, sem campo para preencher. Não é link quebrado nem endereço trocado: é um cadastro que cumpriu o prazo dele.
Sobre esse cadastro, o texto oficial não esclarece se a inscrição era obrigatória para entrar, até que dia era possível se inscrever, se havia limite de vagas e se a participação era gratuita — a palavra custo não aparece, nem para cobrar nem para dispensar.
Sem prazo, sem valor, sem endereço de rua e sem canal de dúvida
Juntando tudo, o comunicado passou ao largo destes pontos:
- se qualquer pessoa podia participar ou só quem já atua no setor;
- se a inscrição era exigida na porta, e até quando ficou aberta;
- se havia cobrança de qualquer espécie;
- o endereço completo do Cras de Vila da Mata e a hora de término;
- quantas pessoas eram esperadas ou cabiam no espaço;
- se a etapa elegia delegados, quantos, e com que critério;
- o caminho de uma proposta aprovada ali até a etapa estadual e a nacional;
- quais municípios formam o território de Venda Nova do Imigrante;
- quem integra a Comissão Organizadora;
- um telefone, um e-mail ou um balcão para dúvidas do público.
O último merece explicação. O comunicado original terminava com um bloco de contato — nome, telefone e e-mail de assessoria de imprensa. Aquilo é canal para jornalista, não para quem quer se inscrever, e por isso não foi reproduzido aqui. Na prática, o cidadão ficou com o formulário e com mais nada.
Quem falou foi um gerente da agência que distribuiu o comunicado
“A participação dos empreendimentos, entidades de assessoria e fomento, e gestores públicos nas Conferências Territoriais e na etapa Estadual de Economia Solidária, é uma importante oportunidade de fortalecer o setor, que nos últimos anos em nível nacional teve retrocessos por falta de apoio. No Estado, sempre apoiamos as iniciativas voltadas para Economia Solidária”
Quem avalia assim é Renato Alexandre Rangel, gerente de Economia Solidária e Microcrédito da Agência de Desenvolvimento das Micro e Pequenas Empresas e do Empreendedorismo (Aderes). A fala menciona retrocessos nacionais por falta de apoio, mas não os quantifica: não há período, não há programa nomeado, não há cifra. E não há outra pessoa falando no texto — o comunicado saiu pela assessoria da mesma agência em que Rangel é gerente, e nenhum participante, empreendimento ou entidade de fora dela foi ouvido.
O mesmo gerente afirma, em discurso indireto, que o encontro nacional significaria um momento de solidificar e fortalecer a política pública do segmento no país. O tema anunciado para a 4ª Conferência Nacional era Políticas Públicas de Economia Popular e Solidária: Construindo territórios democráticos por meio do trabalho associativo e da cooperação — nome de evento, não declaração de ninguém.
Aconteceu? O comunicado é anterior ao encontro e para antes disso
Um aviso de conferência de economia solidária publicado seis dias antes do encontro não poderia mesmo contar o desfecho — e não conta. Não há ali quantas pessoas participaram da etapa de Cachoeiro de Itapemirim, que propostas saíram de lá, nem qualquer previsão de balanço. A busca no acervo deste site também não encontrou texto posterior sobre a etapa de Venda Nova do Imigrante, sobre a Conferência Estadual de novembro em Vitória nem sobre a Conferência Nacional de abril de 2025 em Brasília.
Nada disso equivale a dizer que os encontros não ocorreram. O que existe é falta de registro: ninguém afirmou o contrário, e o comunicado de 2024 continua sendo a última informação disponível por aqui sobre esse ciclo. Fica anotado como lacuna, e não como negativa.
Duas semanas antes desta conferência, outra política do mesmo eixo passou por aqui: a premiação de um trabalho sobre compra direta de alimentos na rede de assistência social, episódio anterior a este e sem ligação com o calendário das conferências. Serve para situar quem lê no conjunto de políticas de economia popular do Estado, que aparecem em avisos avulsos como este, quase sempre sem número e quase sempre sem desfecho.
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