As cabines saíram da pista; o projeto de reorganização viária que o Estado diz estar por trás delas não foi descrito nem datado no comunicado. A Secretaria de Mobilidade e Infraestrutura (Semobi) informou que concluiu, na quinta-feira, 15 de agosto de 2024, a retirada das estruturas da antiga praça de pedágio da Rodovia do Sol, em Guarapari. O serviço havia começado em 15 de julho.
O quadro descrito aqui é o de agosto de 2024, tal como a secretaria o apresentou. Dois anos se passaram desde então, e o que mudou na pista, na sinalização ou no projeto citado pela nota está fora deste material — nada abaixo afirma coisa alguma sobre isso.
O pedágio da Rodovia do Sol acabou em dezembro de 2023; as cabines, em agosto de 2024
São duas datas para dois fatos distintos, e o comunicado as aproxima. A cobrança terminou oficialmente em dezembro de 2023, quando o Governo do Estado passou a administrar o trecho formado pela Terceira Ponte e pela Rodovia do Sol. Quem ficou com essa gestão foram a Semobi e a Ceturb-ES, empresa pública que opera o transporte de ônibus e de barcas — a mesma que, em agosto de 2025, publicou uma grade especial de horários do Transcol e do aquaviário para um fim de semana, um ano à frente do episódio desta matéria.
Entre um fato e outro ficaram os meses que o comunicado não explica: parou-se de cobrar num dezembro, retiraram-se as cabines no agosto seguinte. As estruturas da Terceira Ponte, informa a nota, já haviam sido retiradas em torno de um mês antes, e a data dessa outra conclusão não aparece no material.
Um mês de serviço contra uma previsão que a nota deixa aproximada
O comunicado apresenta três marcos de calendário: início em 15 de julho, conclusão em 15 de agosto e uma estimativa original de término em meados de setembro. É sobre essa comparação que o secretário de Estado de Mobilidade e Infraestrutura, Fábio Damasceno, afirma ter havido antecipação. O ponto de chegada previsto, porém, nunca foi fixado num dia — meados de setembro é uma faixa, não uma data — e o cronograma de onde a estimativa saiu não foi divulgado.
Damasceno falou na própria nota em que a secretaria anunciou o fim do serviço, sem contraditório e sem que nenhum outro órgão avalie o prazo:
Não registramos interrupção do trânsito ou qualquer contratempo, pelo contrário: conseguimos finalizar esse serviço na metade do tempo previsto. Essa medida vem complementar a significativa decisão da extinção do pedágio, que representou um marco para a população, aliviando os custos de deslocamento. Desde dezembro nós identificamos um aumento na circulação de veículos na Rodovia do Sol, que vemos como melhoria ao acesso aos serviços na região e também um fomento ao comércio local
Mais carros na via, e nenhum número para medir isso
A fala afirma aumento de circulação de veículos e melhora para o comércio de Guarapari. No material inteiro não existe uma contagem de tráfego, um período de apuração, uma base de comparação nem a origem desse levantamento. O trecho também não esclarece de que dezembro se trata: o encerramento da cobrança é situado em dezembro de 2023 na prosa da nota, mas dentro da fala o mês aparece sozinho, sem ano.
A promessa ao comércio local está no mesmo pé. Nenhum lojista, nenhuma entidade empresarial de Guarapari e nenhum indicador econômico aparecem para sustentar o fomento citado. Trata-se de uma avaliação do secretário sobre a política da secretaria que ele dirige.
Custo, executor e destino das cabines ficaram de fora
A nota da Semobi encerra o assunto antes de seis pontos que qualquer morador de Guarapari perguntaria:
- quanto custou a remoção, e se o gasto saiu do Tesouro estadual ou de contrato já existente;
- quem executou o serviço — equipe própria da secretaria, empresa contratada ou terceiro;
- quantas cabines foram retiradas e para onde foi a estrutura demolida;
- o que é, em obra, o projeto de reorganização viária das antigas praças de pedágio: quantas faixas, que sinalização, que limite de velocidade, em que prazo;
- se restou alguma interdição parcial ou desvio no trecho depois do dia 15;
- a qual canal o cidadão recorre para reclamar ou perguntar sobre a via — o único contato do comunicado original era o da assessoria de imprensa, dirigido a jornalistas.
A distância entre anunciar e detalhar fica visível ao comparar este comunicado com outros do mesmo governo. Em dezembro de 2024, o Estado divulgou com quilometragem e valor a revitalização de 22 quilômetros das rodovias ES-261 e ES-355. Sobre um serviço de um mês numa das rodovias mais movimentadas do litoral capixaba, esta nota não põe preço em nada.
No mês seguinte, a mesma secretaria voltou a comunicar sobre estrada em outro ponto da região: o aviso de interdição total da Rodovia Darly Santos para 3 de setembro de 2024 — outra via, outro serviço, nada que tenha a ver com a praça de pedágio de Guarapari.
Quem não foi ouvido sobre a Rodovia do Sol
O texto original tem um emissor só: a assessoria da Semobi, que é a autora do serviço, a avaliadora do prazo e a única voz citada. Ficaram de fora os motoristas que usam o trecho todo dia, os comerciantes de Guarapari mencionados como beneficiários e qualquer órgão capaz de conferir a afirmação sobre a metade do tempo. Ninguém contestou por escrito porque ninguém foi consultado — o material nasceu para divulgar a própria entrega.
Anúncios de obra em Guarapari costumam chegar assim. Já em janeiro de 2025, no ano seguinte ao desta remoção, o município recebeu um conjunto de itens de saneamento e saúde em estágios diferentes, com esgoto já em operação e estações de água ainda no campo do anúncio, pacote divulgado depois deste e sobre outro assunto.
Semobi e Ceturb-ES: o que cada sigla administra
A Semobi é a Secretaria de Estado de Mobilidade e Infraestrutura, responsável pelas rodovias estaduais e pelos projetos de transporte do Espírito Santo. A Ceturb-ES é a Companhia Estadual de Transportes Coletivos de Passageiros do Estado do Espírito Santo, que dividiu com a secretaria a gestão do trecho depois do fim da cobrança no pedágio da Rodovia do Sol. Quem respondia pela praça antes de dezembro de 2023, quando o Estado assumiu o trecho, a nota não escreve em momento algum.
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