Escola em Jerônimo Monteiro: reforma pronta e estrada autorizada — Direto Notícias

Escola em Jerônimo Monteiro: reforma pronta e estrada autorizada

O governador Renato Casagrande cumpriu agenda em Jerônimo Monteiro na manhã de quinta-feira, 15 de agosto de 2024, e o roteiro reuniu obras em situações bem diferentes: dois muros de arrimo já construídos, a reforma e a ampliação de uma escola em Jerônimo Monteiro igualmente concluída e as obras de contenção da estrada da Serra da Aliança, que liga o município a Muqui — estas últimas, apenas visitadas.

A diferença importa para quem mora ali. Duas frentes já podem ser usadas; a terceira, não. E o comunicado oficial que originou este registro diverge de si mesmo justamente sobre a estrada: na prosa, o governador visitou obras de contenção; na fala dele, reproduzida mais abaixo, o que houve foi a autorização para o início dos trabalhos.

Obra a obra: o que ficou pronto e o que apenas foi autorizado

  • Muro de arrimo no bairro Santo Antônio — entregue. Aproximadamente 150 metros de extensão, em concreto ciclópico. Executado pela Prefeitura, com repasse de recursos do Estado por meio do Fundo Cidades. Sem valor individual divulgado.
  • Muro de arrimo no Centro — entregue. 196 metros de extensão, mesma técnica, mesmo arranjo de execução e de financiamento. Também sem valor individual divulgado.
  • Reforma e ampliação da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Paulo Pereira Gomes — entregue. R$ 773 mil, pagos pelo Funpaes. O material não informa quem executou esta obra.
  • Obras de contenção na estrada da Serra da Aliança, entre Jerônimo Monteiro e Muqui — não entregues. Entraram na agenda como visita e, pela fala do governador, como autorização de início. Sem valor, sem prazo e sem executor informado.

Vale um alerta de leitura: os dois muros aparecem no comunicado com duas descrições distintas — muros de arrimo, na abertura, e obras de contenções de encostas nas avenidas Dr. José Farah e Lourival Lugon Moulin, no meio do texto. Tudo indica tratar-se do mesmo par de estruturas, mas o material nunca afirma isso e em momento algum diz qual avenida fica no Centro e qual fica no Santo Antônio. Quem lê corrido pode contar quatro estruturas onde há duas.

Desta vez a maior quantia é obra pronta, e quem construiu não foi o Estado

Em anúncios de pacote como este, o padrão costuma ser o inverso: a quantia mais alta vem amarrada ao item mais distante de ficar pronto. Aqui, não. Os aproximadamente R$ 4,7 milhões citados pelo Estado estão ligados às contenções de encostas, que são obra concluída. E a única frente que ainda não começou — a estrada — é justamente a que aparece sem um número sequer.

Somar as duas quantias do dia produziria um total que o próprio Estado não divulgou. São fundos diferentes, obras de naturezas diferentes e, no caso dos muros, uma cifra que o comunicado trata como aproximada e que cobre duas estruturas de uma vez, sem dizer quanto custou cada uma.

Há também três papéis que o verbo inaugurar junta num só. Quem anunciou foi o Governo do Estado. Quem pagou foi o Estado, pelo Fundo Cidades no caso dos muros e pelo Funpaes no caso da escola. Quem construiu os muros foi a Prefeitura, conforme o próprio comunicado registra. E a escola atendida é da rede pública municipal, não da rede estadual.

Os dois muros: 150 metros no Santo Antônio, 196 metros no Centro

As duas estruturas foram feitas em concreto ciclópico, que é o concreto misturado a pedras grandes durante a concretagem. O resultado é um muro pesado, que trabalha por massa própria para segurar a pressão do terreno — técnica corrente em contenção de encosta e mais barata do que soluções armadas de mesmo porte.

O comunicado cita ainda um geocomposto de PVC e lhe atribui impermeabilização, reforço do solo, drenagem, proteção ambiental, versatilidade e durabilidade, creditando a descrição a informações técnicas do município. O texto, porém, não diz onde esse material foi aplicado, nem se ele integra os dois muros que acabaram de ser entregues.

Segundo o Estado, as contenções vão contemplar mais de dez mil moradores. A expressão marca um mínimo, não um total, e o material não informa quantas pessoas vivem nas faixas de risco protegidas por cada muro. Note-se ainda que o verbo está no futuro para uma obra descrita como pronta.

Das 436 vagas da escola, 120 são acréscimo e 316 já existiam

A EMEF Paulo Pereira Gomes passa a contar com 12 salas de aula, dois almoxarifados, biblioteca, pátio, secretaria, sala dos professores, salas administrativas e cozinha, entre outros espaços. A enumeração do comunicado termina em aberto, então não é possível fechar a lista do que a escola ganhou.

Sobre a capacidade, o Estado escreve que a obra permitirá a ampliação de 120 vagas, além da manutenção de 316 vagas, totalizando 436 vagas no ensino fundamental da rede pública municipal. A soma é do próprio comunicado. O que ela mostra, lida devagar, é que o ganho real são as 120: as outras 316 são a capacidade que a unidade já tinha antes da reforma.

E vaga não é criança sentada em carteira. O material não emprega uma única vez as palavras aluno, estudante ou matrícula: não diz quantas das 436 vagas estão ocupadas, quantas pessoas frequentam hoje a escola nem quantas das 120 novas serão abertas já no ano letivo em curso.

Um fundo com nome de educação infantil pagando obra de ensino fundamental

Os R$ 773 mil vieram do Fundo Estadual de Apoio à Ampliação e Melhoria das Condições de Oferta da Educação Infantil no Espírito Santo (Funpaes). O nome é o que o comunicado escreve, por extenso, e ele se refere à educação infantil — a etapa de creche e pré-escola.

A obra, no entanto, é numa Escola Municipal de Ensino Fundamental, e o próprio texto oficial diz que as 436 vagas são do ensino fundamental. São etapas distintas da educação básica, com faixas etárias e regras de oferta diferentes. O material não explica a divergência nem informa se o fundo pode financiar as duas — e, sem essa explicação, o nome do fundo não descreve o que a obra é.

A estrada para Muqui: visitada, citada na fala e sem número algum

Estamos inaugurando a primeira etapa e já autorizando o início das obras da estrada de Jerônimo Monteiro a Muqui.

Quem diz é o governador Renato Casagrande, no trecho do comunicado em que ele resume a agenda do dia.

A prosa do mesmo texto, porém, informa que ele visitou as obras de contenção na estrada da Serra da Aliança. Visitar obra em andamento e autorizar o começo de uma obra são estágios distintos, e o material não concilia as duas versões. Também não fica claro de que conjunto é a primeira etapa mencionada na fala: se dos muros, se da estrada, se do pacote inteiro. Para quem usa a ligação entre os dois municípios, falta o mais simples — quando os trabalhos começam, quanto custam e quanto devem durar.

A distinção entre entregar e autorizar não é preciosismo de redação: ela decide o que existe no dia seguinte ao anúncio. O mesmo formato de agenda, com uma obra inaugurada e outra apenas autorizada no mesmo ato, voltou a se repetir em junho de 2025, em outro município capixaba, num episódio posterior e sem relação com as obras de Jerônimo Monteiro.

O que o comunicado não conta a quem estuda e a quem mora nas encostas

  • Quanto custou cada muro. Só existe a quantia aproximada dos dois somados.
  • Qual das duas avenidas fica no Centro e qual fica no bairro Santo Antônio.
  • Se as obras nas avenidas Dr. José Farah e Lourival Lugon Moulin são exatamente os dois muros de arrimo entregues.
  • Quando as obras começaram e quanto tempo levaram, em qualquer das frentes.
  • Se a escola parou de funcionar durante a reforma e, em caso positivo, para onde foram as turmas nesse período. É a pergunta prática que mais interessa a quem tem filho na unidade, e o texto oficial não a toca.
  • Quem executou a obra da escola. O comunicado informa apenas quem pagou.
  • Quantas das 436 vagas estão ocupadas e quantas pessoas a unidade atende hoje.
  • Por que um fundo estadual voltado à educação infantil financiou obra de ensino fundamental.
  • Valor, prazo, executor e origem do dinheiro das obras de contenção da estrada da Serra da Aliança.
  • Se houve remoção de famílias em área de risco nas duas avenidas, e se existe acompanhamento das encostas depois da conclusão dos muros.
  • Onde foi aplicado o geocomposto de PVC descrito no material.

Uma voz só, e é a de quem anunciou

Algumas dessas intervenções seriam de competência do município, mas não nos furtamos de fazê-las, sempre nessa parceria com as prefeituras

O trecho é da mesma fala do governador e é a passagem que melhor explica o arranjo do dia: obras de responsabilidade municipal bancadas com dinheiro estadual e tocadas pela Prefeitura. No material, quem responde pelo Fundo Cidades é a secretária de Estado do Governo, Maria Emanuela Alves Pedroso, descrita como gestora do fundo.

Todas as informações deste registro vêm de um comunicado oficial, e todas as falas nele são de autoridades do próprio governo estadual. Não há a palavra de quem mora nas duas avenidas, de quem trabalha ou estuda na escola, nem qualquer avaliação técnica independente sobre a execução. Isso não aponta problema nas obras; aponta que o retrato disponível é de um lado só.

Acompanharam a agenda o prefeito de Jerônimo Monteiro, Sérgio Fonseca, e o deputado estadual Julio da Fetaes.

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