Alunos da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Manoel Salustiano de Souza, em Linhares, apresentaram na quarta-feira, dia 11 de setembro de 2024, uma minissérie audiovisual construída a partir de uma saída da escola ao Rio de Janeiro (RJ), feita em 22 de agosto. A minissérie de estudantes de Linhares foi roteirizada, filmada e editada pela própria turma, conforme descreve o professor que fala no material oficial. E é exatamente aí que a divulgação para: não há uma linha sobre onde a obra pode ser assistida.
Produzir, lançar e exibir são três etapas diferentes
O texto oficial emprega dois verbos e silencia sobre o terceiro. Escreve que os alunos lançaram a minissérie e trata o vídeo como produção apresentada. Quanto à produção não resta dúvida: o professor de Língua Portuguesa citado na nota diz que os próprios estudantes tocaram todas as fases do trabalho, da escrita do roteiro ao corte final, com as filmagens no meio. Quanto ao lançamento, nenhuma circunstância é descrita — não se sabe se houve auditório, sessão, plateia externa ou convite a famílias. E sobre ficar disponível depois, nada: nem endereço de página, nem nome de perfil, nem canal de vídeo, nem data de nova exibição.
A distinção pesa para quem lê. Trabalho produzido é resultado que existe; trabalho lançado é resultado colocado diante de alguém; trabalho disponível é resultado que qualquer pessoa consegue procurar depois. O material sustenta os dois primeiros e não sustenta o terceiro. Também não o nega — o assunto simplesmente não entra na nota, e ausência de informação não equivale a resposta negativa.
Roteiro, filmagem e edição ficaram com a turma
Este é o ponto que separa a experiência de uma visita guiada comum: os estudantes não assistiram a um vídeo pronto sobre o Rio de Janeiro nem receberam material gravado por terceiros para comentar. Eles fizeram o vídeo. A nota credita a eles a cadeia inteira de tarefas, sem repartir nenhuma delas com produtora, empresa contratada ou equipe externa.
Ver o protagonismo deles na execução das práticas pedagógicas durante essa aula de campo foi algo que nos encheu de orgulho. Eles não apenas absorveram o conteúdo, mas também se envolveram de maneira ativa, demonstrando maturidade e responsabilidade
Quem fala é Thiago Arrigoni, professor de Língua Portuguesa.
Quatro paradas citadas, e a lista não fecha
A produção acompanha o caminho percorrido pela turma pela cidade, e o material nomeia quatro pontos apresentados como destaque: o Museu do Amanhã, o Gabinete Real de Leitura Portuguesa, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Cristo Redentor. A expressão indica recorte e não total — o texto seleciona o que considera principal e em momento algum afirma que a viagem tenha se resumido a esses quatro lugares. Tampouco explica o que cada parada virou dentro da obra: cena, entrevista, narração ou imagem de passagem. Nem quanto do vídeo coube a cada uma.
A minissérie de estudantes de Linhares existe; a ficha técnica, não
O nome do formato anuncia algo que a nota nunca entrega. Minissérie descreve narrativa repartida em poucos episódios, com desfecho previsto desde o início — ou seja, a palavra promete uma contagem. Quantos episódios a turma produziu, quanto dura cada um, quanto dura o conjunto e se tudo foi mostrado no dia 11: nenhuma dessas informações consta. Não há título da obra no material, não há indicação de idioma ou legenda e não há registro de recurso de acessibilidade.
O resultado é um exemplo de como a educação pode ir além das salas de aula, proporcionando experiências que conectam diferentes áreas do saber de forma colaborativa e prática
Ainda é Thiago Arrigoni quem assina o trecho acima.
Arte, ciência e linguagem, com uma única disciplina nomeada
O trabalho é apresentado como cruzamento de três campos: arte, ciência e linguagem. A finalidade declarada era mostrar na prática que áreas distintas do conhecimento conversam entre si. Ocorre que a única disciplina nomeada em todo o material é Língua Portuguesa, a do professor que dá as declarações. Não se informa quem conduziu a frente científica, quem cuidou da parte artística nem quantos docentes acompanharam a turma até o Rio de Janeiro.
Foi uma oportunidade de vivenciar, na prática, os conceitos aprendidos em sala. Cada local visitado trouxe uma nova perspectiva, despertando minha curiosidade e ampliando minha compreensão sobre o contexto social, político e artístico da cidade
A fala é de uma estudante que integrou a turma na viagem.
Por que a estudante que fala aqui não aparece nomeada
A nota oficial identifica essa estudante pelo nome. Esta reportagem não o reproduz, e a escolha segue um critério, não um automatismo: a pergunta é o que o nome acrescenta a quem lê. Há situações em que ele é a informação: quando a pessoa foi escolhida para representar seus colegas, quando uma premiação distingue um nome em disputa aberta, quando a autoria de uma obra pública é individual e vem creditada. Aí omitir apagaria o próprio fato. Nada disso ocorre neste caso — o material trata a minissérie como trabalho coletivo da turma, não credita direção, roteiro nem edição a ninguém em particular, e a fala citada é a impressão de quem participou. A função entrega ao leitor tudo o que o nome entregaria.
Do outro lado da balança está o custo. Escola nomeada, município nomeado, viagem datada e um nome próprio formam um conjunto estreito o bastante para apontar uma estudante específica — e a página seguirá sendo devolvida em buscas muito depois de a turma se formar. Já o nome do professor permanece pelo motivo oposto: ele fala na condição de profissional e responde publicamente pela iniciativa da escola.
Quatro rótulos para a mesma saída de agosto
Vale reparar em como o material chama o que aconteceu no dia 22 de agosto. Na abertura, viagem pedagógica. No parágrafo seguinte, passeio. Dentro da fala do professor, aula de campo. E o texto ainda atribui à estudante a avaliação de que aquilo teria sido bem mais que um passeio cultural — o quarto rótulo, citado para ser negado. Os pesos são diferentes: passeio sugere lazer, aula de campo sugere atividade curricular. A nota não escolhe entre eles e não esclarece se a saída valeu carga horária, se a participação era obrigatória e quem arcou com o custo.
Outro detalhe que envelheceu mal: a divulgação marca o lançamento apenas como quarta-feira, dia 11, sem mês nem ano. Quem chegasse ao texto meses depois não teria como situar a data. O mês vem do período em que a nota circulou, setembro de 2024.
Sem ficha, sem número e sem endereço: a lista do que falta
- Quantos estudantes viajaram e quantos trabalharam no vídeo. O material fala em alunos, sem número, e não informa série nem etapa de ensino.
- Quem orientou. O professor de Língua Portuguesa descreve a experiência, mas em nenhum trecho a nota afirma que a condução tenha sido dele, e nenhum outro docente é citado.
- Quantos episódios tem a minissérie, qual a duração de cada um e qual o título da obra.
- Onde assistir. Nenhuma plataforma, nenhum perfil, nenhum endereço, nenhuma sessão futura anunciada.
- Quanto tempo levou a produção. Há duas datas no material, 22 de agosto e o dia 11, e nada sobre quantos dias de trabalho couberam entre elas.
- Como a viagem foi custeada e como se definiu quem iria — não há valor, patrocínio, critério de escolha nem número de acompanhantes.
- Se o vídeo entrou na avaliação de alguma matéria e se a experiência será repetida em outra turma. Continuidade não é anunciada em nenhum ponto.
- Se as famílias assinaram alguma liberação de uso de imagem antes de a turma começar a gravar.
Convém dizer de onde parte o relato: as duas vozes ouvidas — a do professor e a da estudante — pertencem à mesma escola, e quem divulgou o texto é a estrutura estadual de ensino da qual essa escola faz parte. Não há avaliação externa, não há responsável por aluno ouvido, não há comparação com experiência semelhante em outra unidade. Peça de divulgação raramente abriga quem discorda: a falta de contraponto aqui decorre do formato do texto, não de uma apuração que tenha procurado divergência sem encontrá-la.
Museu e câmera como material de escola pública
Sair da sala rumo a um equipamento de ciência já rendera registro parecido em outro município capixaba, antes desta viagem: em julho de 2024, estudantes de Muqui visitaram o Museu da Vida, em Vitória. São escolas distintas, turmas distintas, e nenhum dos dois materiais afirma qualquer ligação entre as saídas.
O vídeo feito por aluno como trabalho de escola também voltaria à rede estadual adiante: em dezembro de 2024, portanto depois do que se conta aqui, estudantes de Vitória produziram curtas-metragens em um projeto de cinema escolar. Lá o produto é o curta; em Linhares, uma série repartida em episódios. Nada liga um trabalho ao outro além do fato de a câmera ter entrado na sala de aula nos dois.
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