A segunda fase da OBMEP 2024 foi aplicada no sábado, 19 de outubro de 2024, e o Espírito Santo tinha 16.279 estudantes classificados para fazê-la, distribuídos por 108 centros de aplicação nos 78 municípios do Estado. O texto que anunciava essa prova só entrou no ar dois dias depois, na segunda-feira, 21 de outubro, e mesmo assim continuava marcando o exame no futuro — quem chegasse a ele já não tinha prova alguma para fazer.
Nada aqui convoca ninguém. O que segue é o retrato de um sábado que já passou e, principalmente, do que o comunicado oficial deixou de fora bem no dia em que a informação ainda tinha uso. A edição era a 19ª da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas.
Uma letra a mais: a sigla saiu trocada no anúncio
A grafia correta é OBMEP, iniciais de Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas — e é assim que o corpo do comunicado escreve, por extenso, já na primeira linha. Ainda assim, a forma OBEMEP, com um E a mais no meio, aparece uma vez no material de origem, num intertítulo, e foi essa versão que subiu para o título publicado.
Não é preciosismo de revisão. Quem digita a sigla errada não chega ao site da competição, e quem digita a certa não chegava a esta página. O nome que vale é o que o próprio texto expande, e a divergência fica registrada aqui porque o erro veio do documento oficial e foi reproduzido tal e qual, sem que ninguém o corrigisse no caminho.
Nem horário, nem endereço, nem lista do que levar
Este era, antes de tudo, um texto de serviço: alguém precisava saber para onde ir numa manhã de sábado. Medido pergunta a pergunta, o que ele entregava era pouco.
- Quem estava classificado — respondido pela metade. O comunicado manda o estudante abrir o site oficial da competição e indicar a cidade e a unidade de ensino onde estudava, para então procurar o próprio nome. Lista dentro do texto, nenhuma.
- Onde seria a prova — não respondido. O material informa que havia 108 centros de aplicação cobrindo os 78 municípios, mas não nomeia um único endereço, não diz como o estudante descobria qual era o dele e nem afirma que a consulta indicada mostrasse o local de aplicação.
- A que horas — ausente por completo. Não há abertura de portões, horário de início nem duração prevista.
- O que levar — ausente. Nada sobre documento de identificação, comprovante, material de escrita ou o que ficava proibido entrar com.
- Como era a prova — ausente. O texto não diz quantas questões a etapa tinha, se era de assinalar ou de escrever o raciocínio, nem se havia versões diferentes por nível de ensino.
- Quem faltasse — ausente. Não há segunda chamada, justificativa de ausência nem uma palavra sobre atendimento a estudante com deficiência.
A soma é desconfortável: o comunicado dizia que a prova era naquele sábado e apontava onde conferir a classificação, e parava aí. Todo o resto — justamente a parte que faz o estudante sair de casa na hora certa e com o material certo — ficava por conta da escola, que o texto sequer menciona como canal para tirar dúvida.
Os 16.279 classificados da segunda fase da OBMEP 2024, rede por rede
O comunicado abre falando em mais de 16 mil estudantes capixabas e, no parágrafo seguinte, apresenta o número fechado, dividido assim:
- 8.216 da Rede Estadual;
- 6.732 das redes municipais;
- 402 da rede federal;
- 929 da rede privada.
As quatro parcelas fecham com os 16.279 que o próprio material declara como total — a conta é dele, não desta página. Repare, porém, no que o número está contando: são estudantes selecionados para a etapa, e não estudantes que se sentaram para fazê-la. Quantos de fato compareceram no dia 19, o comunicado não tinha como dizer, porque foi escrito antes — e ele não indica onde esse dado apareceria depois.
Há ainda um detalhe que contraria o nome da competição: 929 dos classificados capixabas estudavam na rede privada. A sigla batiza escolas públicas; a relação de quem avançou, não.
Da prova de junho à medalha na mão
Aquele sábado não encerrava coisa alguma. Pelo que o próprio material descreve, a edição tinha esta sequência:
- 1ª fase — aplicada em 04 de junho, que reuniu mais de 18,5 milhões de estudantes, vindos de todas as regiões brasileiras.
- 2ª fase — a prova de 19 de outubro, restrita a quem passou. É neste degrau que este texto se encaixa.
- Divulgação dos vencedores — prevista para 20 de dezembro.
- Premiação e entrega das medalhas — sem data, sem local e sem forma de convocação no material.
Vale separar os três últimos itens, porque o vocabulário de olimpíada os embaralha. Aparecer na lista de vencedores é uma coisa; a solenidade que reconhece o resultado é outra; e receber a peça de metal na mão é uma terceira, que costuma vir bem depois. O acervo do Estado dá a medida dessa distância: no início daquele mesmo mês de outubro, estudantes de uma das regionais capixabas ainda estavam recebendo as medalhas da edição anterior — ou seja, uma turma fazia a prova de 2024 enquanto outra ainda buscava o prêmio do ciclo passado.
O desfecho deste ciclo também está registrado, em matéria posterior a esta: o desempenho do Espírito Santo na OBMEP 2024 foi divulgado em dezembro daquele ano. E um ano adiante a mesma etapa se repetiu: na edição seguinte, 16.387 capixabas fizeram a segunda fase da prova, em outubro de 2025.
O endereço da consulta, testado agora
O comunicado oferecia um caminho só ao leitor: a página de classificados da segunda fase no Espírito Santo. No texto publicado, esse endereço aparecia duas vezes seguidas — uma como instrução para clicar e outra como o endereço cru colado no meio do parágrafo, resíduo de quem copiou a página de origem sem arrumar.
Verificado agora, ele responde. Não deu erro e não foi mandado para outro caminho: apenas abandona a conexão protegida e devolve o mesmo destino na forma simples, com a relação de alunos classificados do Espírito Santo e a lista de municípios para consultar um a um. O que a página não faz é dizer de que edição é a relação exibida. Quem abrir hoje, portanto, não tem como confirmar que está vendo a lista de 2024. Não é caso de endereço quebrado: é informação que envelheceu atrás de um endereço que continua funcionando.
Cobertura recorde, sem a marca que teria sido superada
Nos números nacionais o material apresenta a competição como a maior do País no campo científico e fala em cobertura recorde: 99,9% dos municípios brasileiros e mais de 56,5 mil escolas participantes. As duas afirmações são do documento oficial, e nenhuma vem acompanhada do que permitiria conferi-las — falta a cobertura das edições anteriores, falta o ano da marca que teria sido batida e falta qualquer parâmetro que sustente o superlativo de tamanho.
Convém também olhar as unidades, porque elas trocam de uma frase para a outra. Os 18,5 milhões contam estudantes que fizeram a primeira fase; os 900 mil contam quem ficou apto à etapa seguinte, que não é o mesmo que inscrito nem que presente; os 99,9% contam municípios; e os 56,5 mil contam escolas. Quatro grandezas diferentes em quatro linhas vizinhas, sem nenhuma conversão entre elas. Três desses números vêm precedidos de mais de, expressão que estabelece o mínimo e deixa o valor real em aberto — e, no trecho sobre preparação, aparece quase, que faz o oposto e marca um limite por cima.
O treino que existia antes da prova
A parte final do comunicado muda de assunto e passa a descrever o preparo. Desde junho, estudantes da rede pública vinham aprofundando Matemática na Iniciação Científica de Matemática, uma das ações do Programa Matemática na Rede, coordenado pela Secretaria da Educação (Sedu) com a Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) e a Coordenação Regional da OBMEP/ES. Pelo que o material enuncia, o programa quer garimpar aptidão para a disciplina, empurrar essas turmas para disputas científicas e tecnológicas e reforçar o aprendizado por meio de aulas de aprofundamento e de atividades científicas.
A ação alcança mais de dois mil estudantes do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental e do Ensino Médio da rede pública, em polos espalhados pelos municípios capixabas — os PicMat, onde professores orientadores acompanham as turmas presencial e virtualmente desde maio de 2017. A entrada se deu por processo seletivo, que reuniu quase três mil interessados.
Duas coisas ficam de fora dessa descrição. A primeira é a porta de entrada: o texto conta que houve seleção, mas não diz quando ela ocorreu, quem podia concorrer, por onde se inscrever e se ela se repete a cada ano — quem lesse e quisesse participar não sairia dali sabendo o caminho. A segunda é o mapa: nem a quantidade de polos nem os municípios onde eles funcionam aparecem em ponto algum. Há ainda um descompasso de datas que o material não explica, e que fica sem esclarecimento: o preparo desta edição é situado a partir de junho, enquanto os polos são descritos como ativos desde 2017.
Por fim, um registro sobre o tipo de documento que originou tudo isso. Do começo ao fim, ninguém fala: não há linha atribuída a professor, a estudante, a família ou a quem organizou a aplicação, e os objetivos do programa aparecem exatamente como o texto oficial os enuncia, sem que ninguém os assine. Um material assim serve para descrever o que a administração faz — não é o lugar onde alguém de fora avalia se aquilo funciona, e a falta de contraponto num papel desses não indica que ele não exista.
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