Autodeclaração étnico-racial foi aberta na matrícula estadual

A janela já fechou: a autodeclaração étnico-racial na matrícula da Rede Estadual valeu de 7 a 17 de janeiro de 2025 e não segue aberta. Nesse intervalo, quem havia solicitado a pré-matrícula precisava confirmar a vaga — e, dentro dessa mesma etapa, passou a poder informar como se identifica racialmente. Quem tinha 16 anos ou mais respondia por conta própria; abaixo dessa idade, quem respondia era o responsável. A iniciativa partiu da Secretaria da Educação (Sedu), em parceria com a Associação Bem Comum.

O que é a autodeclaração étnico-racial na matrícula escolar

O prefixo carrega o essencial: a resposta vem da própria pessoa. Não é a escola, não é o servidor que atende no balcão e não é um terceiro observando quem está na frente dele que decide a classificação — é o estudante, ou o responsável por ele, que informa. O material da Sedu apresenta a ação como um incentivo para que cada um declare a própria identificação e o vínculo que reconhece. Não há, no texto oficial, qualquer menção a comprovação, documento, taxa ou análise de terceiros.

As categorias que o material apresenta

Para descrever as respostas possíveis, o texto da Sedu recorre à classificação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE):

  • Preto e Pardo — apresentados como as duas formas de resposta da pessoa negra. O material acrescenta uma glosa própria: entre as duas, a resposta parda caberia a quem se reconhece negro e tem a pele mais clara do que quem se declara preto;
  • Indígena;
  • Branco;
  • Amarelo — que o texto associa a pessoas de origem asiática.

O comunicado não informa de qual pesquisa, questionário ou instrumento do IBGE essa formulação foi retirada, nem se ela é a redação oficial do órgão ou um resumo escrito pela própria secretaria. Quem depende dessa distinção — para orientar uma família, por exemplo — não a encontra no material.

Para onde vai a resposta do estudante

Depois de registrada na matrícula, a informação deixa de ficar apenas no cadastro da unidade e vai para o Censo escolar. É a partir daí que ela vira número consultável por quem formula política pública. O texto oficial não explica o que é o Censo escolar, em que época ele é coletado nem quem tem acesso ao dado individual — trata o termo como se todo leitor já soubesse.

O único argumento que o material apresenta para a medida está numa fala da gerência responsável pelo tema:

“Esses dados são importantes para a compreensão da Educação, dando aos gestores públicos insumos para analisarem em que nível o acesso à Educação tem sido ou não democrático, inclusivo e com equidade. Além disso, a autodeclaração é importante no fortalecimento identitário do próprio estudante, contribuindo para construção de seus laços de pertencimento”

A avaliação é de Aline de Freitas Dias, gerente da Gerência de Educação Antirracista, do Campo, Indígena e Quilombola (Geaciq) da Sedu.

A fala descreve dois usos diferentes para a mesma resposta: um estatístico, que serve para verificar se o acesso à Educação chega de forma igual a todos os grupos, e um individual, ligado ao reconhecimento do próprio estudante. O que o material não faz, em nenhum ponto, é vincular a autodeclaração a vaga, benefício, programa ou critério de seleção. Ele também não afirma o contrário: simplesmente não trata do assunto.

O guia de orientações e as ações de mobilização

Para explicar o tema a estudantes, famílias, gestores e equipes das escolas, a secretaria listou algumas frentes: a distribuição de um guia de orientações sobre a autodeclaração étnico-racial, em PDF, a formação das equipes que atuam nas secretarias das escolas e o envio de materiais de conscientização para as comunidades escolares.

Vale reparar em como a lista é aberta: por um como. É enumeração de exemplos, não inventário fechado — pode haver outras ações que o comunicado não descreve, e o material não diz quantas são, quando ocorreriam nem em quais escolas.

O calendário da Chamada Escolar 2025

A autodeclaração ficou presa a um calendário maior, o da Chamada Escolar 2025, divulgado nestas etapas:

  • Divulgação do resultado da rematrícula e pré-matrícula — 06/01/2025
  • Confirmação da matrícula dos estudantes provenientes da etapa de pré-matrícula — 07/01 a 17/01/2025
  • Chamamento dos estudantes constantes na lista de suplência em escolas que apresentaram séries/anos com vagas, após a etapa de confirmação de matrículas — 20/01 a 14/02/2025

É esse desenho que amarra uma coisa à outra: a pergunta sobre identificação racial aparecia dentro da etapa de confirmação, entre 7 e 17 de janeiro de 2025. Quem entrou pela lista de suplência, chamada só depois — de 20 de janeiro a 14 de fevereiro —, não é mencionado no comunicado, que nada diz sobre como esse grupo faria a mesma declaração.

O que a Sedu não informou

Boa parte do que um responsável precisaria saber para agir ficou de fora do comunicado. Não é detalhe: é o que separa um aviso de um serviço.

  • Como se faz, na prática. O material não descreve o passo. Se a pergunta aparecia em uma tela do processo de matrícula, se era preenchida em papel na secretaria da escola ou se dependia de uma conversa com a equipe — nada disso está dito.
  • Se responder era obrigatório. O texto trata a medida como incentivo, mas não afirma que a resposta é opcional nem que a confirmação da matrícula ficaria travada sem ela.
  • Se valia para quem fez rematrícula. O comunicado fala de quem solicitou pré-matrícula. Estudantes que já estavam na Rede e apenas renovaram a matrícula não aparecem na frase.
  • Se a resposta pode ser mudada depois. Identificação racial não é dado que se preencha uma vez para sempre, e o material não diz se existe caminho para corrigir ou alterar o que foi declarado.
  • Quem enxerga o dado individual. Diz-se que a informação alimenta o Censo escolar, mas não se diz quem consulta a resposta de um estudante específico, nem por quanto tempo ela fica guardada.
  • Se a janela reabre todo ano, e onde acompanhar. Não há indicação de que a mesma pergunta volte a cada Chamada Escolar, e o comunicado não oferece endereço, telefone, página ou canal de acompanhamento. As secretarias escolares aparecem no texto apenas como equipes que receberiam formação sobre o tema.

Há ainda o que todo comunicado oficial tem de origem: um lado só. O material não traz manifestação de escolas, de famílias, de estudantes ou de entidades sobre a iniciativa — e ausência de crítica dentro de um texto de divulgação não é o mesmo que consenso fora dele.

O passo anterior dentro da Rede

A autodeclaração não foi a primeira frente ligada ao assunto na Rede Estadual naquele ano. Meses antes, em setembro de 2024, a avaliação da rede estadual passou a incluir o tema étnico-racial — etapa anterior a esta, e de natureza distinta. Uma diz respeito ao que é medido pela Rede; a outra, ao que o próprio estudante informa sobre si, no momento em que garante a vaga.

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