Numa escola estadual de Vila Velha, estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental e da 2ª série do Ensino Médio leem obras da literatura nacional, discutem o que leram em roda e escrevem resenhas críticas que depois vão para um perfil de rede social. É esse o projeto de leitura na escola batizado de Ipsis Litteris Digital, da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Professora Maura Abaurre, conduzido pela professora de Língua Portuguesa Maria Eduarda Pecly. A divulgação oficial é de 11 de junho de 2025 e nunca ganhou continuação: nada no material informa se a rotina descrita ali atravessou o ano letivo seguinte.
Os alunos escreveram texto; a tecnologia já estava pronta
O comunicado distribui um verbo diferente para cada participante, e é nessa distribuição que o projeto se explica. Quem desenvolveu o projeto, diz o texto oficial, foi a escola. Quem o conduz é a professora. E o que os estudantes produziram são resenhas críticas — texto escrito por eles, nascido das discussões em sala.
Do lado tecnológico não se construiu nada. O que existe é um perfil numa rede social pronta, mantida por uma empresa privada, usado para expor os textos. Não há aplicativo, site, jogo, robô, vídeo nem programa feito pela turma: a ferramenta é a mesma que qualquer pessoa abre no celular, e o papel dela no projeto é o de vitrine. Os estudantes, nessa parte, são usuários — a autoria deles está nas resenhas, não no meio em que elas aparecem. E o comunicado nunca diz quem faz as publicações: se a professora, se os próprios alunos, se alguém da escola. A frase usada é que o perfil serve para divulgar as resenhas, sem sujeito.
O projeto de leitura na escola começou por um conto sobre racismo
O ponto de partida, segundo a divulgação, foi o desinteresse pela leitura no começo da proposta. A escolha para virar o jogo foi um conto contemporâneo de linguagem acessível, com temas de racismo e desigualdade social: Maria, da escritora Conceição Evaristo. O comunicado afirma que a leitura desse texto gerou engajamento e que os alunos passaram a pedir novas rodas com conteúdos parecidos.
É o único título nomeado no material inteiro. Não há lista das outras obras discutidas, nem indicação de quantas foram lidas ao longo do período.
“O ‘Ipsis Litteris Digital’ surgiu como forma de unir a tecnologia com a leitura literária, tornando o ato de ler e escrever mais prazeroso, sem ser um fardo para o adolescente. Inacreditavelmente e de forma muito rápida, até o aluno que assumia não gostar de ler passou a me cobrar mais tertúlias em sala e a solicitar que a sua resenha escrita seja postada no perfil da página. A ideia é que o ‘Ipsis Litteris Digital’ seja um ato contínuo ao longo dos anos na escola”
Maria Eduarda Pecly falou assim ao explicar por que a ideia nasceu, no texto de divulgação da rede estadual. Repare no tempo verbal do fecho: a permanência do projeto na escola é apresentada como intenção, não como decisão tomada.
Tertúlia é o nome da roda em que a turma discute a obra
A palavra aparece quatro vezes no material sem uma linha de explicação. Tertúlia literária, no uso escolar, é a roda em que o grupo lê a mesma obra e depois conversa sobre ela — cada participante traz o trecho que o marcou e argumenta a partir dele, em vez de responder a um questionário. No projeto de Vila Velha, é dessa conversa que saem as resenhas: primeiro a discussão coletiva em sala, depois o texto individual.
Uma estudante da 2ª série do Ensino Médio descreveu o encadeamento nesses termos, no mesmo comunicado:
“Quando a professora nos incentiva, dá mais vontade de ler e escrever para ver o nosso texto publicado no Instagram depois. E as tertúlias nos ajudam demais no nosso desenvolvimento crítico”
Um conto nomeado, nenhum aluno contado
O comunicado sustenta que houve aumento do interesse pelas leituras propostas e melhora na produção textual, sobretudo na contextualização das obras e na argumentação. São resultados apresentados como observação de quem está na sala — e não há, no material, um único indicador que os acompanhe. Nenhuma prova, nenhuma comparação entre turmas, nenhum número de livros lidos, nenhum registro de empréstimo na biblioteca da escola.
A lacuna fica maior porque a rede estadual já mediu leitura com instrumento próprio: uma avaliação estadual de fluência de leitura, cujos resultados foram apresentados a educadores em setembro de 2024, quase um ano antes do anúncio deste projeto. Ali havia percentual, faixa de desempenho e ano escolar avaliado. Aqui, não.
Os demais buracos são de escala, de dinheiro e de destino do que a turma escreveu:
- Quantos estudantes participam. O texto cita duas etapas — 9º ano e 2ª série — e nenhum total, nem número de turmas.
- Desde quando o projeto existe. Não há data de início, duração prevista nem calendário das rodas.
- Quantas resenhas foram publicadas até a data do comunicado, e com que frequência.
- Que disciplina abriga a atividade além de Língua Portuguesa, e se ela ocupa aula regular, contraturno ou eletiva.
- Quem paga o que. Celular, internet, exemplares dos livros: o material não menciona custo, aparelho cedido, doação nem verba de nenhuma origem.
- Se os textos são assinados pelos estudantes no perfil, ou publicados sem identificação.
- Se há cópia das resenhas fora da rede social — num blog da escola, num mural, num arquivo impresso. Sem isso, todo o acervo produzido depende de uma plataforma que a escola não controla.
É iniciativa da unidade, não programa de rede
O comunicado saiu no canal de divulgação da rede que mantém a escola, e isso costuma sugerir política pública por trás. Não é o caso aqui: o texto não descreve coordenação estadual, verba, meta, curso para professores de outras unidades nem cronograma compartilhado. Ele credita a criação à própria escola e a condução a uma professora. Enquanto nada disso aparecer, o que existe é projeto de uma unidade, replicável só por quem quiser copiar a ideia — e o material também não diz se alguma outra escola copiou.
Ele tampouco informa se a prática seguiu em 2026. Não há aviso de encerramento e não há confirmação de continuidade: sobre o que aconteceu a partir do segundo semestre de 2025 o material simplesmente cala, e é assim que o leitor deve tomá-lo.
O endereço citado responde, mas só abre para quem tem conta
O material publicou o endereço do perfil onde as resenhas apareceriam, e ele é a única forma de conferir o resultado por fora da escola. A verificação feita agora mostra um detalhe que o comunicado não podia prever: o endereço do perfil citado pela divulgação continua respondendo, mas a plataforma passou a exigir login para exibir qualquer publicação. Quem não tem conta e não está autenticado recebe a tela de entrada, sem ver nenhum texto.
Na prática, isso significa que não dá para confirmar, de fora, quantas resenhas estão lá, se o perfil segue ativo ou quando foi a última publicação. O endereço não caiu; o que mudou foi a exigência de conta para enxergar o que está publicado ali.
Os dois estudantes citados aparecem aqui sem o nome
O texto oficial traz o nome completo de dois adolescentes, um do 9º ano e outro da 2ª série. As falas deles estão aqui na íntegra; só os nomes ficaram de fora. A conta é simples: juntar nome, escola, etapa e município numa página de notícia faz com que a busca por esse nome devolva, por tempo indeterminado, a sala exata em que o adolescente estudava em 2025 — e nada disso ajuda quem procura saber como funciona o projeto.
Maria Eduarda Pecly segue nomeada, por razão inversa: conduzir o projeto é atribuição profissional dela, e é dela a explicação pública sobre por que a ideia nasceu.
As três vozes do comunicado saíram todas de dentro do projeto
O texto de origem é material de divulgação da rede que mantém a escola, e as três pessoas que falam nele estão todas dentro do projeto: a professora que o conduz e dois alunos selecionados por quem redigiu o comunicado. Ficam ausentes o estudante que continuou sem ler, a família que acompanha a leitura em casa, outro professor da mesma escola e qualquer medição feita por quem esteja fora daquela sala. Um comunicado de divulgação não costuma trazer nada disso — mas quem lê precisa saber que o avanço descrito é relato de quem participa, e não verificação de terceiro.
O que já apareceu antes e o que veio depois
Escrever texto próprio a partir de leitura não é novidade na rede: no ano anterior a este anúncio, uma turma de outra escola estadual escreveu poemas em versos rimados e montou um mural para expô-los — proposta anterior a esta, com outro público e outra escola. E três meses depois do comunicado sobre as resenhas, outra escola da rede levou um romance contemporâneo para a cena, em teatro de sombras montado pelos estudantes, trabalho posterior a este e sem relação com o de Vila Velha.
As três experiências têm em comum o que o material desta aqui não mede: em nenhuma delas o texto oficial informa quantos estudantes leram, quantas obras foram lidas ou o que mudou no desempenho depois.
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