Macrodrenagem em Cariacica: 1.230 metros de galerias prontos

Cariacica passou a contar, no sábado, 20 de setembro de 2025, com 1.230 metros de galerias de macrodrenagem construídos sobre o Córrego Jardim de Alah, além de ruas com drenagem e asfalto novo em bairros espalhados pelo município. Participaram da cerimônia o governador Renato Casagrande, o vice-governador Ricardo Ferraço e o prefeito Euclério Sampaio. O comunicado do dia fala em mais de R$ 22 milhões, mas o que ele descreve como pronto e o que ele descreve como previsto são coisas diferentes — e a diferença está no meio do texto.

A obra maior: para onde a água do Jardim de Alah passa a correr

O item de maior porte do dia é a rede de galerias assentada sobre o Córrego Jardim de Alah, nos bairros Jardim de Alah e Rio Marinho. São 1.230 metros de tubulação de concreto, orçados em R$ 14,8 milhões, com a finalidade declarada de acelerar o escoamento da água do córrego até o ponto em que ela é entregue ao Rio Marinho. O material informa ainda que a população do bairro Alzira Ramos também é beneficiada, sem dizer de que forma.

Vale entender a diferença entre as duas coisas que o texto chama de drenagem. A drenagem de rua é a rede miúda: as bocas de captação na sarjeta e os tubos que levam a água para fora do quarteirão. A macrodrenagem é o degrau acima — condutos de grande seção que recebem a água de vários bairros ao mesmo tempo e a conduzem até um corpo de água. Uma depende da outra: rua bem drenada que despeja em rede saturada devolve o problema alguns metros adiante. Foi por isso que a entrega juntou os dois tipos de intervenção.

Um detalhe do texto pode confundir quem não é do município: Rio Marinho é, no mesmo parágrafo, o nome de um bairro e o nome do curso de água que recebe a descarga das galerias. O comunicado usa a expressão nos dois sentidos sem avisar, e não esclarece se o bairro fica na margem do rio homônimo.

Oito bairros no primeiro parágrafo, nove nomes na lista

O anúncio abre dizendo que houve drenagem e pavimentação de ruas em oito bairros. Mais adiante, quando enumera onde essas ruas ficam, o mesmo texto escreve nove nomes distintos:

  • Bela Aurora
  • Flexal I
  • Flexal II
  • Santana
  • Alto Dona Augusta
  • Alzira Ramos
  • Jardim Botânico
  • Rio Marinho
  • Porto de Cariacica

A conta do comunicado e a lista do comunicado não coincidem, e o próprio material não escolhe entre as duas versões. Ficam registradas as duas como o órgão as publicou: o número declarado é oito; os nomes publicados são nove. Também não há indicação de quantas ruas foram entregues em cada bairro, nem os nomes dessas ruas — informação que quem mora ali precisaria para saber se a sua está incluída.

O acordo com o município prevê 71 ruas; o dia entregou parte delas

As ruas pavimentadas fazem parte de um convênio firmado entre o Governo do Estado, por meio da Secretaria de Saneamento, Habitação e Desenvolvimento Urbano (Sedurb), e a Prefeitura de Cariacica. Convênio é o instrumento pelo qual dois entes públicos combinam executar uma obra juntos, cada um com obrigações definidas em documento.

O que esse acordo prevê é maior do que o que foi inaugurado: intervenções em 71 ruas, distribuídas por 15 bairros do município. O verbo do comunicado é prevê — ou seja, é o alcance combinado no papel, não o alcance já construído. Sobre esse restante, o material silencia inteiramente: não há prazo de conclusão, não há calendário por bairro, não há nome de empresa executora e não há data-limite do acordo. Quem procura a própria rua entre as 71 não encontra a relação em lugar nenhum do texto.

Três cifras, nenhuma fechada, nenhuma com pagador declarado

O dinheiro aparece três vezes, e as três construções são diferentes entre si:

  • mais de R$ 22 milhões — apresentado como o investimento do conjunto, logo no primeiro parágrafo;
  • R$ 14,8 milhões — o único valor amarrado a uma obra específica, a rede de galerias do Córrego Jardim de Alah;
  • mais de R$ 7 milhões — descrito como o que foi investido até o momento no convênio, e não como o custo das ruas entregues naquele sábado.

Duas observações mudam a leitura desses valores. A primeira: as cifras de R$ 22 milhões e de R$ 7 milhões vêm precedidas de mais de, fórmula que estabelece um mínimo e deixa o valor exato em aberto; e a de R$ 7 milhões carrega ainda um até o momento, que a prende à data da divulgação. A segunda, e mais importante: as três aparecem em frases sem sujeito — são mais de, com investimento de, foram investidos. Em nenhum ponto o comunicado diz quanto entrou do Estado e quanto entrou do município, nem se há financiamento envolvido. O texto declara que existe uma parceria; não declara como ela reparte a conta.

Vale registrar ainda o que essas cifras não permitem fazer. Elas medem naturezas distintas: uma é o custo de uma obra concluída, outra é um acumulado de convênio em curso, e a terceira é um total anunciado para o pacote. O material não explica como as três se relacionam, e juntá-las produziria um número que a fonte não publicou.

A ponte e as passarelas existem só dentro da fala do governador

Ao enumerar o que estava sendo entregue, o governador citou duas estruturas que não aparecem em nenhuma outra linha do comunicado:

Estamos entregando mais de um quilômetro de galerias de macrodrenagem, ponte, passarelas e muitas ruas pavimentadas. Uma ação feita em parceria com a Prefeitura de Cariacica. Assim vamos trabalhando todos os dias para melhorar a vida de quem mora em nossas cidades. A população de Cariacica pode ter a certeza de que, enquanto estivermos no governo, o município continuará sendo assistido com muitos investimentos

Casagrande falava na cerimônia de inauguração, diante de moradores e de lideranças comunitárias, quando fez essa lista. A ponte e as passarelas ficam sem bairro, sem quantidade, sem dimensão e sem valor: o corpo do texto oficial descreve galerias, drenagem e pavimentação, e nada mais. Fica valendo o que a fala diz, atribuída a quem a disse.

Cerimônia de inauguração, e nenhuma medida do que muda na chuva

O que foi entregue é estrutura: metros de tubo, ruas asfaltadas, ponto de deságue. O comunicado descreve a estrutura com precisão e não descreve, em momento algum, o problema que ela existe para resolver. Não há no material:

  • histórico de alagamento no Jardim de Alah, no Rio Marinho ou no Alzira Ramos — quantas vezes por ano, em que meses, com que altura de água;
  • número de casas, imóveis, famílias ou pessoas que deixam de ser atingidas;
  • a área que a nova rede protege, em ruas ou em quarteirões;
  • a capacidade de escoamento das galerias, ou o volume de chuva para o qual foram projetadas;
  • qualquer comparação entre antes e depois.

Rede de drenagem é o tipo de obra cuja prova acontece meses depois da fita cortada, no primeiro temporal forte. Nada dessa verificação acompanhou o anúncio de setembro, e é ela que diria se os 1.230 metros bastam.

Três falas, todas do mesmo lado do palanque

O registro deste dia vem de um comunicado do Governo do Estado, que reúne aqui três papéis: banca parte da obra, promove a cerimônia e escreve o texto que a descreve. As três falas publicadas no material são de autoridades do próprio Estado: o governador, o vice-governador Ricardo Ferraço e o secretário de Estado de Saneamento, Habitação e Desenvolvimento Urbano, Marcos Soares. Duas delas tratam de compromisso institucional e de qualidade de vida, sem trazer valor, prazo, capacidade ou qualquer dado novo — por isso ficaram de fora deste registro.

Fora desse círculo, ninguém aparece. Não há morador do Jardim de Alah descrevendo como era antes, não há vereador, não há técnico avaliando o projeto e não há voz divergente. As lideranças comunitárias são citadas como presentes, sem nome e sem fala. O prefeito Euclério Sampaio consta entre os participantes e não é ouvido — o município assina o convênio no texto, mas nenhuma autoridade municipal fala nele.

Uma observação sobre o que o texto oficial atribui ao secretário

Há um descompasso dentro do próprio comunicado que merece nota. O parágrafo que apresenta o secretário Marcos Soares afirma que ele sustentou que cada rua pavimentada e cada sistema de drenagem concluído representa mais dignidade e segurança para os moradores de Cariacica. A frase entre aspas que o texto publica em seguida, porém, é outra: trata de mobilidade, acesso e desenvolvimento em termos gerais, e do compromisso do Estado com as cidades capixabas. A apresentação e a citação não dizem a mesma coisa, e o material não traz uma segunda declaração que sustente a primeira.

Onde esta entrega se encaixa no que já foi anunciado para a região

Cariacica vinha recebendo aportes estaduais em sequência nos meses anteriores. Em julho de 2025, um complexo esportivo foi entregue no Jardim América com dinheiro do Estado — obra distinta desta, em outro bairro. Em agosto, Estado, prefeitura e uma organização executora assinaram o acordo para urbanizar o bairro de Piranema, onde as obras de saneamento e de ruas ainda estavam por começar. São iniciativas independentes entre si e independentes da macrodrenagem do Jardim de Alah.

O formato do anúncio também não é novo. Semanas antes, no município vizinho, uma avenida com drenagem e asfalto foi inaugurada em Vila Velha como parte de um conjunto maior de escoamento de águas, na mesma fórmula de entrega conjunta entre Estado e prefeitura. E poucos dias antes desta cerimônia, um pacote anunciado em Governador Lindenberg misturava itens prontos com itens ainda no papel — a razão pela qual vale sempre separar, dentro de cada anúncio, o que já foi construído do que apenas foi combinado.

Uma checagem que este registro fez e cabe informar: nenhuma das obras nomeadas aqui — as galerias do Córrego Jardim de Alah e as ruas dos nove bairros listados — havia sido anunciada antes em outro momento coberto pelo portal. É o primeiro registro desses itens.

O que continua sem resposta sobre as galerias e as 71 ruas

  • quanto do total coube ao Estado e quanto coube à Prefeitura de Cariacica;
  • quantas das 71 ruas previstas no convênio já estão concluídas, e quantas faltam;
  • quais são as ruas atendidas, uma a uma, nos bairros nomeados;
  • quantos dos 15 bairros do convênio já foram alcançados;
  • onde ficam a ponte e as passarelas citadas na fala do governador;
  • qual empresa executou os serviços e quanto tempo eles duraram;
  • a quem cabe a manutenção e a limpeza da nova rede de galerias;
  • o prazo final do convênio entre o Estado e o município;
  • quantas pessoas ou casas deixam de alagar por causa da obra;
  • por que o texto diz oito bairros e lista nove.

Este é o retrato do dia da inauguração, publicado em setembro de 2025, e desde então nenhum balanço posterior sobre o desempenho dessas galerias foi divulgado no material consultado. O que se sabe é o que a cerimônia informou: 1.230 metros de rede sobre o Córrego Jardim de Alah, ruas com asfalto e drenagem nos bairros listados, e um convênio de 71 ruas que segue em aberto.

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