As obras em Governador Lindenberg anunciadas pelo Governo do Estado em 12 de setembro de 2025, uma sexta-feira, estão em pontos muito distintos do caminho que vai do papel à inauguração, embora o comunicado oficial junte tudo numa cifra só, cerca de R$ 24 milhões. Ficaram prontas naquele dia as 30 moradias do programa Nossa Casa, a rede elétrica com iluminação pública do Loteamento Boa Vista e a praça saudável do Centro. O restante era assinatura — ordem de serviço, autorização para começar, repasse aprovado — ou obra ainda em canteiro. Quase um ano separa aquela agenda desta leitura, e o comunicado declara prazo de conclusão para um único item de todo o pacote.
Obras em Governador Lindenberg: entregue, em obra, assinado ou só anunciado
A lista abaixo começa pelo que já estava em uso e termina no que ainda não tinha empresa contratada. Cada linha guarda o verbo que o próprio texto oficial escolheu, porque é o verbo que separa uma chave entregue de um cheque prometido.
- Moradias do programa Nossa Casa — entregues. São 30 unidades habitacionais de interesse social, num investimento total de R$ 3,9 milhões: R$ 2,3 milhões repassados pelo Estado e R$ 1,6 milhão de contrapartida do Município, que entrou com o terreno já dotado de infraestrutura básica e com recursos financeiros complementares. As casas vão para famílias com renda de até três salários mínimos, inscritas no CadÚnico e indicadas pelo município conforme critérios do Fundo Estadual de Habitação de Interesse Social (FEHAB/ES). Em que bairro ficam e quantas famílias continuam na fila, o comunicado não diz.
- Rede elétrica e iluminação pública do Loteamento Boa Vista — inaugurada. Valor de R$ 296 mil. A frase que anuncia essa obra não tem sujeito: informa quanto custou e não informa quem pagou.
- Praça saudável no Centro — inaugurada. R$ 1 milhão do Governo do Estado, por meio da Secretaria de Esportes e Lazer (Sesport), em 1.500 metros quadrados com quadra de areia, playground, academia ao ar livre, pista de caminhada, arquibancada, área de vivência, administração coberta e paisagismo.
- Rodovia ES-360, trecho Rio Bananal–Governador Lindenberg — obra em execução. Não foi entrega: o governador fez uma visita técnica ao canteiro. São R$ 76 milhões e 13,40 km de trecho novo, com projeto básico concluído e terraplanagem, serviços ambientais, pavimentação e drenagem em andamento, sob execução do Departamento de Edificações e de Rodovias do Espírito Santo (DER-ES). É o único item do dia com prazo declarado: previsão de 720 dias para a conclusão — contados a partir de qual marco, o texto não esclarece.
- Sistema de Tratamento de Esgoto do distrito de Morello — ordem de serviço assinada. Contempla uma estação elevatória e redes de esgoto, com investimento conveniado de R$ 1,5 milhão. Assinar ordem de serviço é liberar o começo dos trabalhos; no dia da agenda não havia obra feita. O comunicado atribui à intervenção uma população beneficiada de cerca de 12.880 habitantes, sem esclarecer se esse contingente é o do distrito ou o do município inteiro.
- Loteamento do Bairro Nova Brasília — início das obras autorizado. Recursos da ordem de R$ 5 milhões. O texto oficial fala em qualidade de vida e mobilidade e não descreve uma intervenção sequer: sem metragem, sem nome de rua, sem etapas, sem prazo e sem dizer de qual órgão sai o dinheiro.
- Barragem de múltiplo uso no distrito de Córrego de Moacir Avidos — repasse autorizado. R$ 3,26 milhões do Fundo Cidades – Adaptação às Mudanças Climáticas. Autorizar repasse é destinar dinheiro: não há obra iniciada, empresa contratada nem data de início no material.
- Reforma e ampliação da UBS Gosme Pinheiro da Silva, no Centro — repasse assinado. R$ 1 milhão, dentro do 2º ciclo do Plano Decenal APS +10. Mesma situação da barragem: dinheiro destinado, obra não começada.
- Escola de Ensino Fundamental no distrito de Morello — anunciada. R$ 8 milhões integralmente repassados pelo Estado ao Município, por meio do Funpaes. A unidade seria destinada ao atendimento exclusivo de turmas do 1º ao 5º ano, criando 130 novas vagas para os anos iniciais.
- Reforma e ampliação do Centro de Educação Infantil Municipal (CEIM) Arco-íris — anunciada. Aporte de R$ 3,3 milhões, também do Funpaes, para infraestrutura, adequações sanitárias, espaços pedagógicos e de alimentação, acessibilidade e ampliação da oferta de vagas. Quantas vagas essa ampliação abre, o comunicado não informa.
Vale reparar num detalhe que a leitura corrida atropela: o distrito de Morello aparece duas vezes no mesmo comunicado — no esgoto e na escola —, e nas duas vezes na condição de promessa. Quem passa os olhos pelo texto tende a contabilizar duas conquistas para o distrito; naquela sexta-feira, o que Morello tinha eram uma ordem de serviço e um anúncio.
O dinheiro é estadual, o prédio é municipal — e três frases não têm dono
Em pacote estadual sobre município pequeno, três papéis costumam se confundir: quem faz o anúncio, quem assina o cheque e quem toca a obra. Aqui eles se separam com clareza em alguns itens e desaparecem em outros. A escola de Morello e o CEIM Arco-íris são unidades municipais, construídas e reformadas com dinheiro estadual; a água do distrito de Córrego Moacir Avidos é distribuída pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) de Governador Lindenberg, que é do município; e o único item com divisão de custo explicitada é o das moradias, com as duas parcelas nomeadas.
Em três linhas do comunicado, porém, o dinheiro não tem dono declarado. Os R$ 296 mil da rede elétrica e da iluminação do Loteamento Boa Vista aparecem numa oração passiva, sem quem pague. Os R$ 5 milhões do Bairro Nova Brasília vêm como recursos autorizados, sem órgão de origem. E o R$ 1,5 milhão do esgoto de Morello é descrito como investimento conveniado, sem que o texto diga entre quem é o convênio nem quanto entra de cada lado. Convênio é justamente o instrumento que reparte responsabilidades — e é essa repartição que fica de fora.
R$ 24 milhões no total, R$ 76 milhões só na rodovia
Logo na abertura, o comunicado avalia em cerca de R$ 24 milhões o dinheiro aplicado no dia; no fim, atribui R$ 76 milhões apenas às obras da ES-360. A cifra da rodovia é maior que o total declarado para o dia inteiro, e o material não diz se ela entra ou não nessa conta — a visita ao canteiro aparece em bloco separado, sob o rótulo de visita técnica. Os valores vão aqui exatamente como o Estado os divulgou, um a um: chegar a um total próprio somando as parcelas seria publicar um número que ninguém apresentou.
Duas cifras idênticas no mesmo texto também pedem cuidado. O R$ 1 milhão da praça saudável e o R$ 1 milhão da UBS Gosme Pinheiro da Silva são valores distintos, para itens distintos — um da Sesport, outro do APS +10 —, e não a mesma verba citada duas vezes. E há números que não são de Governador Lindenberg: os R$ 68 milhões que o Estado informa estar aplicando em reformas e ampliações de UBS em todo o Espírito Santo, e os R$ 270 milhões da primeira etapa do APS +10, que autorizou 108 unidades em 52 municípios, das quais 14 já haviam sido inauguradas. São medidas do programa inteiro, não do que chegou a este município.
Moradias, vagas, habitantes, ligações: cada número conta outra coisa
O pacote alinha grandezas que não se somam nem se comparam. As 30 são moradias construídas. As 130 são vagas escolares que só existirão quando a escola existir. Os 12.880 são habitantes que o Estado diz que serão beneficiados pelo esgoto de Morello. E o distrito de Córrego Moacir Avidos aparece contado de dois jeitos na mesma passagem: cerca de 400 ligações de água, entre residenciais e comerciais, atendendo em torno de 350 famílias. Ligação não é família — um ponto comercial não é um domicílio —, e o material não concilia as duas contagens nem informa qual delas dimensiona a demanda que a barragem deve atender.
A palavra unidade também muda de significado três vezes no mesmo comunicado: são unidades habitacionais as 30 casas, é unidade a escola que será construída e são unidades as 108 UBSs autorizadas em todo o Estado. Junte-se a isso a moldura de aproximação que atravessa o texto — cerca de R$ 24 milhões, cerca de 12.880 habitantes, cerca de 400 ligações, em torno de 350 famílias, recursos da ordem de R$ 5 milhões — e a abertura, que lista áreas como habitação, saneamento, infraestrutura urbana, saúde, educação e lazer. Esse como deixa a lista aberta: não há garantia de que os itens divulgados sejam todos os itens da agenda.
A barragem do Córrego Moacir Avidos e o risco alto de faltar água
Este é o item mais detalhado do comunicado e, ao mesmo tempo, um dos mais distantes de virar obra. A barragem de múltiplo uso terá área total de 22 mil metros quadrados, volume de 41,8 mil metros cúbicos e barramento de 95 metros de comprimento, construída em terra homogênea com extravasor de concreto, drenagem em tubo de polietileno de alta densidade e monge instalado — dispositivo que controla o nível da água, permite esvaziá-la de forma eficiente e regula a vazão. O objetivo declarado é reserva hídrica, principalmente para abastecimento de água potável, com atenção ao período de estiagem.
O que dá tamanho ao problema é a situação atual do distrito: a Defesa Civil classifica a área com risco alto (R3) para problemas de abastecimento de água em períodos de seca, e é o SAAE que atende ali hoje. O dinheiro vem do Fundo Cidades – Adaptação às Mudanças Climáticas, e é o nome do fundo que traz o rótulo climático ao item; a descrição técnica é de obra de reserva e abastecimento. A gestora do fundo tratou dos dois lados dessa moeda ao explicar o critério de repasse:
As ações executadas com repasse direto de recursos do Fundo Cidades têm grande relevância na prevenção e mitigação a eventos climáticos, como o excesso de chuva e a escassez hídrica
A secretária de Estado do Governo, Emanuela Pedroso, gere o Fundo Cidades e falou no trecho do comunicado dedicado à autorização do repasse. É a única passagem do material que descreve como o dinheiro chega ao município: repasse direto. Quando a barragem começa, quem a executa e em quanto tempo o morador do distrito passa a contar com ela são perguntas que o texto oficial não encosta.
A praça saudável abriu, mas o horário de uso não foi divulgado
Dos itens entregues, a praça é o que mais depende de informação prática para virar serviço — e é justamente a que sai do comunicado sem nenhuma. Não há horário de funcionamento, não há regra de uso da quadra, não se sabe quem faz a manutenção nem se é preciso agendar para usar o espaço em grupo. O texto diz somente que o espaço serve a qualquer faixa etária e que projetos sociais poderão treinar ali, entre eles o Campeões de Futuro, voltado à iniciação esportiva no Espírito Santo — sem explicar como um projeto se habilita a usar a quadra. A fala do secretário de Esportes e Lazer, José Carlos Nunes, reproduzida no material, descreve intenção de uso, não regra de uso, e por isso não responde nenhuma dessas perguntas.
Não é caso isolado: o mesmo silêncio já havia aparecido em outra praça entregue pelo Estado dois meses antes, aberta ao público e igualmente sem horário, regra de uso ou responsável pela manutenção divulgados. Na saúde, o padrão se repete com uma unidade básica inaugurada em agosto sem data declarada para começar a atender — o que ajuda a medir o que significa, para o morador, um repasse assinado para reformar a UBS do Centro.
Funpaes: o fundo estadual que paga prédio de escola municipal
Os dois itens de educação do pacote saem do mesmo lugar, e o comunicado usa a sigla sem traduzir. Funpaes é o Fundo Estadual de Apoio à Ampliação e Melhoria das Condições de Oferta da Educação Infantil e do Ensino Fundamental: o mecanismo pelo qual o Estado banca construção e reforma de prédios que pertencem à rede municipal. Neste caso o nome do fundo cobre as duas etapas financiadas — educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental —, o que nem sempre acontece.
Sobre as 130 vagas, cabe uma distinção que o anúncio não faz: elas são projeto, não oferta. A escola de Morello não existia, e o material não informa onde estudam as crianças do 1º ao 5º ano que ela atenderia, o que impede saber quanto do número é ampliação e quanto é transferência de atendimento. No CEIM Arco-íris o problema é anterior: fala-se em ampliar a oferta de vagas sem dizer quantas. Também não há edital, empresa contratada, data de início nem prazo de entrega para nenhuma das duas obras — a mesma pendência que já havia aparecido em janeiro, quando o Estado apresentou a prefeitos a proposta de repasse para creches e o edital do fundo ainda não tinha data.
ES-360: 720 dias, e o comunicado termina no que não foi entregue
A parte final do texto oficial trata da visita técnica ao canteiro da ES-360, entre Rio Bananal e Governador Lindenberg, onde correm ao mesmo tempo a implantação e a pavimentação do trecho. É o item mais caro do dia, R$ 76 milhões, e é o único que já estava em execução, com projeto básico concluído e várias frentes de serviço simultâneas. A previsão de 720 dias para a conclusão, contada a partir de setembro de 2025, situa a entrega bem depois da agenda que esta matéria registra.
Onde a rodovia termina, quem diz é o diretor geral do DER-ES, José Eustáquio de Freitas, na fala com que o comunicado se encerra — e essa informação não está na descrição técnica do corpo, que só nomeia os dois municípios:
Este trecho de Rio Bananal até o entroncamento com a ES-245, em Governador Lindenberg, é de extrema importância para o progresso e crescimento da região. É um investimento importante que vai alavancar mais produção e negócios para comerciantes e moradores da região
Freitas descreveu o traçado ao comentar a etapa em andamento, durante a visita ao canteiro. O ponto final do trecho, o entroncamento com a ES-245, aparece só aí. E vale registrar o efeito de fechar o comunicado assim: o texto que se apresenta como entrega de obras termina falando da obra que ainda vai levar anos para ficar pronta. Para efeito de comparação, no município onde o trecho começa o Estado já havia concluído a revitalização de uma estrada rural entre a sede de Rio Bananal e uma comunidade do interior, em abril — outra estrada, de porte muito menor, entregue meses antes desta visita.
Nenhum item pendente saiu com data de início
As obras em Governador Lindenberg anunciadas naquela sexta-feira saíram com valor para quase todos os itens e com prazo para um só, o da rodovia que já estava em canteiro. Falta, em cada linha pendente, aquilo que o morador precisaria para cobrar:
- em que bairro ficam as 30 moradias entregues, quantas famílias foram atendidas e se há nova seleção prevista;
- quando começam as obras de esgoto de Morello, quem as executa e quando o distrito passa a ter coleta;
- o que exatamente será feito no loteamento do Bairro Nova Brasília com os R$ 5 milhões autorizados;
- a data de início e o prazo da barragem, e se ela abastecerá apenas o distrito de Córrego de Moacir Avidos;
- quando começa a reforma da UBS do Centro e o que muda no atendimento durante a obra;
- o cronograma da escola de Morello e do CEIM Arco-íris, e quantas vagas a reforma do CEIM cria;
- horário, regra de uso e manutenção da praça saudável;
- a data a partir da qual correm os 720 dias da ES-360.
Sobre o andamento posterior de cada um desses itens o comunicado nada diz, e não poderia dizer: foi escrito no dia da agenda e não voltou ao assunto. Este texto, portanto, é um retrato de 12 de setembro de 2025 — não confirma que as promessas viraram obra e tampouco informa que não viraram.
Um material do Estado sobre obras do Estado
O documento que sustenta esta matéria foi produzido pelo Governo do Estado e publicado na página da Secretaria de Estado da Educação, embora a maior parte do pacote seja de habitação, saneamento, infraestrutura urbana, saúde e lazer. É natural que um anúncio oficial descreva a própria ação pelo melhor ângulo; o que cabe registrar é quem não foi ouvido. Não há no material uma linha do governo municipal, que entrou com terreno e contrapartida nas moradias e vai receber as duas escolas; nenhum morador de Morello ou do Córrego Moacir Avidos, que são os dois lugares com mais promessa e menos obra; nenhuma das famílias que receberam as chaves; nenhum vereador; nenhuma voz contrária.
Das seis falas reproduzidas no comunicado, quatro são de elogio institucional ao próprio conjunto de investimentos, sem valor, prazo, critério ou regra que o corpo do texto já não trouxesse — e por isso não foram reproduzidas aqui. As duas que sobreviveram estão acima: a que explica como o dinheiro do Fundo Cidades chega ao município e a que informa onde termina o trecho da rodovia.
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