A Secretaria da Educação (Sedu) encerrou em novembro o ciclo de encontros presenciais de formação do Regime de Colaboração entre o Estado e os municípios do Espírito Santo. Foram dezenove encontros, realizados em parceria com a Associação Bem Comum, com professores formadores, técnicos municipais e lideranças educacionais. O foco declarado é a alfabetização nas redes municipais. Uma etapa virtual, no Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA), segue até dezembro.
Para quem tem filho na escola municipal ou dá aula nela, a pergunta prática é outra: o que muda na sala de aula? A resposta honesta é que o que terminou em novembro é a formação de quem vai formar — a etapa seguinte, a que chega ao professor da turma, é justamente a que ainda está em andamento.
O que é o Regime de Colaboração, em português claro
Regime de Colaboração é o nome dado ao arranjo em que a rede estadual e as redes municipais deixam de trabalhar cada uma por si e passam a dividir material, formação e acompanhamento. Na prática, o Estado organiza e paga o percurso de estudo; o município leva esse conteúdo aos seus próprios professores e decide como aplicá-lo nas escolas que administra.
Isso explica por que uma ação anunciada pelo governo estadual mira a alfabetização: quem cuida das crianças na fase de aprender a ler e escrever, na maior parte do Estado, é a rede municipal. O Estado entra com a formação e o apoio técnico, não com a gestão dessas escolas.
A formação chega à criança em cascata — e a última etapa ainda não aconteceu
O desenho é em cadeia. A Sedu conduziu os encontros com os professores formadores municipais — profissionais ligados ao Pacto pela Aprendizagem no Espírito Santo (Paes). Cabe a eles, com apoio das Superintendências Regionais de Educação (SREs), repassar o conteúdo à rede de origem, ajustando ao contexto de cada município.
Ou seja: o que foi concluído é o topo da cadeia. A réplica nas redes municipais é a parte que efetivamente encosta no professor que dá aula para a criança, e o anúncio da Sedu não informa quando ela termina em cada município. Pai, mãe e professor que quiserem saber se a formação já chegou à sua escola precisam perguntar na secretaria municipal de educação, não à Sedu.
Dois eixos: quinze encontros com professores, quatro com gestores
O ciclo foi dividido em duas frentes:
- Formação de professores — quinze encontros, o maior bloco do percurso.
- Formação de gestores educacionais — quatro encontros, previstos para serem replicados aos grupos de pedagogos e diretores das redes municipais. Essa réplica é uma etapa prevista, não uma etapa concluída.
Os temas tratados ao longo do ciclo incluíram práticas de alfabetização, equidade racial, gestão escolar e o uso dos resultados das avaliações externas — aquelas provas aplicadas de fora da escola, cujo resultado costuma voltar como número sem que a equipe saiba o que fazer com ele. Participaram das discussões o professor da Ufes Gustavo Henrique Araújo Forde, a escritora Noélia Miranda de Araújo e a presidente da Academia Capixaba de Letras da Diversidade, Aline de Alcântara Valentini.
A etapa virtual, no AVA, é autoinstrucional: o participante estuda sozinho, com trilhas teóricas, exercícios e uma avaliação ao fim de cada módulo. Ela vai até dezembro.
O que o anúncio não detalha
Vale registrar o que a Sedu não informou, porque são exatamente os pontos que permitiriam medir o alcance da ação:
- Quais municípios participam e quantos são. O texto fala em redes municipais e em alcance estadual, sem listar as redes envolvidas.
- Quantos professores e quantas escolas foram atingidos pelos dezenove encontros, e quantos devem ser atingidos pela réplica.
- O que a Sedu considera “idade certa” para alfabetizar. A expressão aparece como compromisso, sem o ano escolar nem o critério de avaliação que definem se a meta foi cumprida.
- Prazo da réplica nas redes municipais e forma de acompanhamento do que os formadores levarem de volta.
Nada disso invalida a ação. Mas separa o que já aconteceu — encontros realizados, etapa virtual em curso — do que é resultado esperado. Concluir um ciclo de formação é etapa de organização; ganho na aprendizagem das crianças é outra coisa, e não há, no anúncio, medição que a comprove.
O que disse o secretário
Cada relato compartilhado, cada desafio debatido e cada prática apresentada reforçam que alfabetizar todas as crianças na idade certa permanece como um dos maiores compromissos do Espírito Santo. O esforço conjunto das redes e o fortalecimento do Regime de Colaboração são fundamentais para garantir que nenhuma criança fique para trás
A avaliação é do secretário de Estado da Educação, Vitor de Angelo. O gerente de Colaboração com os Municípios, Saulo Andreon, também participou do encerramento e defendeu a continuidade da formação continuada como forma de manter o trabalho nas redes.
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