Estudantes das 3ª séries do Ensino Médio da EEEM Ceciliano Abel de Almeida, em São Mateus, produziram um podcast que registra em áudio as memórias de moradores e de referências culturais ligadas às comunidades quilombolas do município. O programa se chama “Raízes do Quilombo: A Escola que Escuta, Registra e Preserva Memórias”, integra o Projeto Aquilombar e já tem dois episódios gravados no estúdio do Centro de Referência da Juventude, no bairro Ayrton Senna.
A iniciativa foi idealizada pelo Professor Coordenador de Estratégias de Equidade Racial, Marcos Góes Oliveira, e executada pelos próprios estudantes, com orientação dos professores da área de Linguagens e Códigos. O ponto de partida foi o Mural Vivo da escola, espaço dedicado a destacar pessoas de São Mateus que influenciam a juventude e ajudam a firmar a memória coletiva da cidade. A ideia foi tirar esses nomes da parede e levá-los ao microfone.
Quem falou nos dois primeiros episódios
O episódio de estreia teve como convidado o Sr. Sílvio, morador e patriarca do Quilombo Divino Espírito Santo. Ele falou sobre a origem da comunidade, sobre as festas da Folia de Reis, sobre o papel da música, sobre as práticas agrícolas e sobre os desafios enfrentados pela juventude quilombola. Fé, união e resistência atravessam o que ele contou, segundo o registro da atividade.
O segundo episódio recebeu a professora e escritora Mônica Porto, curadora do espaço cultural e livraria Constança D’Angola, referência na promoção da literatura negra e da cultura popular mateense. Conduzida pelos estudantes, a entrevista tratou de identidade, ancestralidade, representatividade e do papel da escola no combate ao racismo e na valorização da cultura afro-brasileira.
Nos dois casos, quem entrevista é aluno e quem responde é a pessoa que detém o conhecimento. A informação não veio do livro para o estudante: veio de quem viveu, em resposta a uma pergunta feita pelo próprio estudante. É o que caracteriza pesquisa de campo.
O que é história oral, o método por trás do projeto
História oral é uma forma de pesquisa em que a fonte principal não é o documento escrito, e sim a pessoa. Em vez de procurar a informação em arquivo, jornal ou livro, quem pesquisa entrevista alguém que viveu o que está sendo investigado, grava a conversa e trata esse áudio como fonte — guardado, catalogado e disponível para consulta depois, do mesmo jeito que se guarda um papel antigo.
Não é conversa solta. O método pede preparo antes da entrevista, perguntas abertas que deixem a pessoa conduzir o próprio relato em vez de responder por sim ou não, autorização de quem fala para o uso do material e um lugar onde a gravação fique acessível — porque uma entrevista que ninguém mais consegue ouvir deixa de ser fonte.
Para comunidades quilombolas, o método tem um peso específico. Boa parte do que essas comunidades sabem sobre si mesmas — como o território foi ocupado, quem eram as pessoas que o ocuparam, como se planta o que se planta ali, o que cada festa celebra e por quê — chegou até hoje pela transmissão de uma geração para a seguinte, na fala, e não por registro em cartório, em jornal ou em livro didático. Quando essa memória não é gravada, ela não está guardada em nenhum outro lugar: sai de circulação com quem a carregava.
É por isso que gravar um morador mais velho contando o que ele viu não é o mesmo que ilustrar uma aula. É produzir uma fonte que antes não existia.
Por que a gravação saiu da escola
As gravações foram feitas no estúdio do Centro de Referência da Juventude, no bairro Ayrton Senna, e não dentro da escola. Segundo o registro da atividade, gravar fora fortaleceu o vínculo entre escola e comunidade e ampliou o alcance formativo do projeto. Há ainda um ganho técnico: material gravado com tratamento acústico continua audível anos depois, e áudio ruim é o motivo mais banal pelo qual um acervo sonoro deixa de ser consultado.
O material produzido passou a integrar o acervo pedagógico do Projeto Aquilombar e vem sendo usado em atividades de Educação para as Relações Étnico-Raciais, a ERER, que designa o trabalho com história e cultura afro-brasileira dentro das disciplinas comuns, ao longo do ano letivo, em vez de concentrá-lo em uma data isolada do calendário. Na prática, o áudio virou material de aula: alimenta novas rodas de conversa e serve de ponto de partida para pesquisas dos próprios estudantes.
A escuta como ferramenta de sala de aula
Para o professor que idealizou a ação, o valor pedagógico está justamente no ato de ouvir:
O ‘Raízes do Quilombo’ nasceu do desejo de transformar a escuta em aprendizagem. Cada entrevista é um ato de reconhecimento e respeito à nossa ancestralidade. Ver os alunos conduzindo esse processo, com sensibilidade, respeito e compromisso, mostra que a educação antirracista é feita de vozes, presença, memórias e afeto.
A avaliação é do Professor Coordenador de Estratégias de Equidade Racial, Marcos Góes Oliveira.
Do lado de quem segurou o microfone, o relato é sobre o que a entrevista devolveu:
Gravar o podcast foi como ouvir a cidade falando com a gente. Cada história traz força, orgulho e faz a gente querer continuar contando o que nunca pode ser esquecido. Foi muito emocionante ver como nossa escola se conecta com a comunidade. As vozes do quilombo agora fazem parte da nossa história.
O depoimento é de uma das estudantes que participaram das entrevistas.
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