Em Colatina, alunos com deficiência visual sentem o calor na mão

Estudantes com deficiência visual do Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos (Ceeja) Pedro Antônio Vitali, em Colatina, tiveram aula de Física com as mãos dentro d’água. Na segunda-feira (31), a turma mergulhou as mãos em recipientes com água em temperaturas diferentes para entender, pelo tato, o que são calor, temperatura e equilíbrio térmico. A atividade foi divulgada pela Sedu.

A aula foi mergulhar as mãos em água a temperaturas diferentes

O procedimento é simples de descrever e difícil de esquecer. Segundo a professora de Física Nilsirlania Schmithberg, o experimento buscou demonstrar, por meio do tato, como ocorre a transferência de energia térmica de um corpo para outro: as mãos entravam em recipientes com água em temperaturas distintas, e a diferença sentida entre um e outro virava o dado da aula. Nada de gráfico no quadro nem de fórmula copiada do livro.

O efeito, na avaliação dela, foi tirar o conteúdo do plano da abstração. “O ponto de fusão do gelo e a ebulição da água não eram apenas teorias abstratas, mas sensações concretas vivenciadas na pele”, explicou a docente.

Ela avalia que a atividade permitiu uma compreensão mais aprofundada da matéria porque juntou duas coisas que costumam andar separadas, experiência prática e inclusão, e porque inverteu quem conduz a aula: “O desenvolvimento sensorial foi um dos grandes diferenciais, tornando o estudante protagonista de seu próprio aprendizado.”

Por que a adaptação pesa numa turma de jovens e adultos

O Ceeja atende à Educação de Jovens e Adultos, modalidade voltada a quem não concluiu o ensino fundamental ou médio na idade regular e retoma os estudos depois, muitas vezes conciliando escola e trabalho. É um público em que o tempo de aula é curto e o conteúdo precisa render.

Nesse cenário, adaptar o experimento ao tato não foi enfeite: foi o que colocou estudantes com deficiência visual dentro da aula de Física, e não ao lado dela. “A atividade trouxe resultados pedagógicos expressivos, demonstrando que o aprendizado não se limita às formas convencionais de ensino. A adaptação da aula garantiu acessibilidade e equidade, provando que a ciência pode ser sentida e compreendida de diversas maneiras”, ressaltou Nilsirlania Schmithberg.

O que disse quem estava com as mãos na água

O aluno José Carlos Pereira participou do experimento e avaliou que o efeito foi maior do que aprender um tópico do programa: para ele, práticas assim respeitam e valorizam as diferenças e tornam a educação um caminho acessível a todos.

“Essa aula foi muito boa! Consegui sentir a física acontecendo nas minhas mãos. Às vezes, as explicações são um pouco abstratas, mas, com essa experiência, tudo ficou mais claro e fácil de lembrar”, frisou o estudante.

Colatina vem acumulando aulas com esse método

A aula sensorial não é um ponto fora da curva no município. Menos de um mês antes, no mesmo semestre letivo, alunos de Colatina construíram modelos tridimensionais para dar forma a um conteúdo que costuma ficar plano no papel. Cerca de duas semanas depois, o município apareceu de novo, agora com alunos de Colatina propondo tecnologia contra lixo e desperdício.

Ainda em abril, o mesmo caminho reapareceu na própria escola, com outra turma e outra deficiência: alunos da EJA Colatina discutiram estrutura celular de forma prática e acessível, ou seja, saindo do texto para o objeto. Antes disso, em dezembro, o município já havia reunido esse tipo de produção numa vitrine própria, a 1ª Mostra Valorizando Talentos da Escola, que revelou o potencial de alunos de Colatina.

O próprio tema do calor voltaria à pauta meses mais tarde, quando alunos mapearam o calor urbano em Colatina, desta vez tomando a própria cidade como objeto de estudo. São escolas e turmas diferentes, mas o padrão se repete: o conteúdo sai do quadro e vira algo que o estudante mede, monta ou, como no Ceeja Pedro Antônio Vitali, sente na mão.

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