Escola de São Mateus expõe o trimestre do Projeto Aquilombar

A Escola Estadual de Ensino Médio (EEEM) Ceciliano Abel de Almeida, em São Mateus, reuniu num só dia o que suas turmas produziram ao longo do 1º trimestre dentro do Projeto Aquilombar: cartas, documentários gravados em visita a um quilombo e trabalhos que discutem o 13 de maio. A escola batizou a exposição de 1ª Mostra ERER e a abriu aos três turnos. A divulgação é de 26 de junho de 2025 e já passou de um ano — a mostra terminou, e o material não diz se houve uma segunda edição.

O percurso foi organizado turma por turma. Cada uma era recebida pelo Professor Coordenador de Estratégias para Equidade Racial (PCER), que abria a visita falando de quem cada estudante é, do lugar a que pertence e do que a escola tem a ver com justiça racial. Monitores conduziam os grupos entre os espaços, e as impressões de quem circulava iam para um mural digital montado na plataforma Padlet.

Cartas, documentários e o 13 de maio: o que saiu das turmas

O que a escola expôs não é atividade de um dia: é o acúmulo de um trimestre de aulas. São três formatos, e vale separá-los porque cada um responde a uma coisa diferente.

  • Cartas ao Eu do Futuro — textos em que os estudantes trataram de identidades e de sonhos. O material não informa a quantas turmas a proposta foi dirigida nem se as cartas voltam às mãos de quem as escreveu em alguma data combinada.
  • Documentários das visitas ao Quilombo Divino Espírito Santo — filmagens feitas em campo pelos próprios estudantes. Quantas visitas houve, em que meses, quantos estudantes foram e quantos vídeos resultaram delas: nada disso aparece no texto, e nenhum dos filmes foi disponibilizado junto com o anúncio.
  • Trabalhos que problematizam o 13 de maio — a data ligada ao fim formal da escravidão no país. O material afirma que os trabalhos problematizam a data, mas não explica em que sentido e não descreve um só deles.

Há um detalhe de verbo que muda a leitura. Nos três formatos os estudantes produziram: escreveram, filmaram, montaram. No dia da mostra, porém, o que o texto descreve é outra coisa — eles circularam pelos espaços, ouviram a fala do coordenador e deixaram impressões no mural. Produzir ao longo de um trimestre e percorrer uma exposição num dia são etapas diferentes do mesmo projeto, e a divulgação as junta numa palavra só.

Um trimestre de Projeto Aquilombar, e nenhum número para medir

É neste ponto que o material para de informar. O texto afirma que a mostra fortaleceu o letramento racial, o sentimento de pertencimento e o protagonismo estudantil — só que essas três coisas aparecem no material como objetivo da exposição, não como resultado apurado. Não há um indicador sequer. Faltam:

  • quantos estudantes participaram, e de que séries;
  • quantas turmas passaram pela mostra;
  • quantos trabalhos foram expostos;
  • em que dia a exposição ocorreu e quanto tempo ficou montada;
  • o que o mural digital registrou, e se alguém leu o que foi escrito ali;
  • quem mais conduziu o projeto ao longo do trimestre, além do coordenador.

Sem nenhum desses dados, o que a escola comunicou é que a atividade aconteceu — o que é diferente de dizer que ela deu certo. A expressão que encabeça o anúncio original, Educação que transforma, não reaparece uma única vez no corpo do texto; a palavra ancestralidade, que também está no título antigo, tampouco. São rótulos do anúncio, e nada no material descreve transformação medida.

A semana intertrimestral é proposta, não calendário

O ponto que mais depende de fase: a mostra, diz o material, lançou as bases para a criação de uma Semana da Consciência Negra Intertrimestral — e o próprio texto a chama de proposta. Não há data marcada, não há ato que a institua, não se informa quem aprova, e não se diz que ela tenha entrado no calendário escolar. Quem chegar procurando quando essa semana acontece não encontra a resposta, porque ela não estava no material.

A proposta é apresentada como forma de manter as práticas do ProERER ao longo do ano. O texto usa essa sigla sem abrir, do mesmo modo que usa ERER, e não explica o que uma e outra designam nem a que política pertencem.

Iniciativa da unidade, função que é da rede

O material trata a mostra como coisa da escola. Não há verba divulgada, meta, calendário comum a outras unidades nem coordenação regional citada — o Projeto Aquilombar aparece como algo desenvolvido ali dentro, ao longo do trimestre, por decisão da própria unidade.

A figura que o conduz, essa sim, não é exclusiva da escola. O Professor Coordenador de Estratégias para Equidade Racial ocupa um cargo que existe na rede estadual e que teve uma formação específica para esses coordenadores em abril de 2025, dois meses antes da mostra de São Mateus. No mesmo mês de abril, um edital estadual abriu a seleção de práticas antirracistas produzidas por escolas, que é exatamente o tipo de material que uma mostra como esta gera. E em dezembro de 2024, uma escola de São Mateus levou o ensino de história afro-brasileira para dentro de um jogo eletrônico. Os três registros são anteriores a este, e nenhum deles menciona o Projeto Aquilombar.

O convite do Centro de Referência das Juventudes chegou sem endereço

A mostra teve a parceria do CRJ (Centro de Referência das Juventudes), que montou uma exposição das próprias ações e fez, segundo o material, um convite aberto à juventude para protagonizar o movimento antirracista. Esse convite é a única coisa no texto dirigida a quem está fora da escola — e vem sem nada que permita aceitá-lo. Não há endereço, telefone, site, horário de funcionamento, faixa etária nem descrição do que o centro oferece. Quem se interessou naquele dia dependia de estar no pátio da escola.

A única voz do material é a de quem organizou a mostra

Uma única pessoa é citada em todo o material, e é quem coordenou a iniciativa:

A mostra de atividades de ERER na escola é um espaço fundamental para dar visibilidade às práticas pedagógicas antirracistas, valorizando as identidades negras, indígenas e quilombolas presentes na comunidade escolar. Além de reconhecer os saberes e as produções dos estudantes, a mostra fortalece o sentimento de pertencimento, combate ao racismo estrutural e incentiva o engajamento de toda a escola na construção de uma educação mais justa, inclusiva e representativa. É um momento de celebração, resistência e aprendizagem coletiva

Marcos Góes Oliveira falava na condição de Professor Coordenador de Estratégias para Equidade Racial da unidade, o mesmo profissional que recebeu turma por turma no dia. Ele avalia, portanto, o que ele mesmo montou, e o texto não abre espaço para outra leitura: nenhum estudante aparece comentando as próprias cartas ou os próprios documentários, nenhuma família é ouvida, e a comunidade do Quilombo Divino Espírito Santo — que recebeu as visitas e virou tema dos vídeos — não diz uma palavra, embora seja a parte externa mais diretamente envolvida.

Vale registrar o que este material é: uma divulgação da própria rede de ensino sobre uma atividade da própria rede. Isso não desqualifica o que a escola fez. Uma escola pública que organiza um trimestre de trabalho sobre relações étnico-raciais, produz filme, texto e pesquisa com os estudantes e abre tudo aos três turnos está fazendo o que se espera dela, e o relato é útil justamente porque descreve as atividades com precisão. O que falta é a outra metade — números, avaliação e as vozes de quem participou.

Uma última questão o tempo tornou mais relevante: não há informação sobre continuidade. A mostra é anunciada como primeira, o que sugere uma segunda, mas a divulgação não marca data, não descreve periodicidade e não diz a quem caberia repeti-la. Mais de um ano depois, o material continua descrevendo uma edição só, e nada além dela.

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