Mostra literária reuniu 39 alunos em unidade prisional

Poemas, cordéis, poesias e cartazes ocuparam a primeira mostra literária feita dentro da Penitenciária Regional de São Mateus (PRSM), na quarta-feira, dia 02 de julho de 2025. Participaram 39 alunos que integram o projeto Remição pela Leitura, desenvolvido pela Secretaria da Justiça (Sejus) em parceria com a Secretaria da Educação (Sedu). A mostra durou um dia e terminou em julho de 2025: não há visitação, não há acervo divulgado e o material que a registrou não anuncia segunda edição nem diz se o projeto continua na unidade.

A frase oficial põe a escola como autora e os alunos como companhia

Vale ler devagar a única frase do texto oficial que descreve como os trabalhos nasceram. Ela está na voz passiva e nomeia um agente só: os trabalhos foram desenvolvidos pela equipe pedagógica da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Américo Silvares, com internos da unidade prisional. Pela gramática da frase, quem desenvolveu foi a equipe da escola; os 39 aparecem como quem acompanhou.

O título com que a notícia circulou até aqui foi na mesma direção, com um sujeito ainda mais distante: quem realiza a mostra, ali, é a unidade prisional. Nem a frase nem o título dizem o que interessa a quem lê — se os poemas, os cordéis e os cartazes expostos foram escritos e desenhados pelas 39 pessoas que estavam na sala. Escrever é ato de autoria e teria nome de dono; o material não o entrega.

Existe um lugar, e um só, em que o texto oficial atribui ação aos alunos: a fala da professora responsável pelo projeto, reproduzida na íntegra mais abaixo, diz que eles conheceram obras, desenvolveram pensamento crítico e exercitaram a escrita e a leitura. É a declaração de uma profissional sobre o que aconteceu em aula, e não a descrição do que foi exposto no dia 02.

Três autores citados e nenhum livro com nome

O material informa que três clássicos da literatura brasileira serviram de base para os trabalhos e cita, em seguida, livros de Machado de Assis, Aluisio de Azevedo e Graciliano Ramos. Duas observações cabem aqui, e nenhuma delas é implicância.

A primeira: nenhum título de livro é informado. O leitor fica sabendo de quem eram as obras, não quais eram — e é a obra, não o autor, que define o que uma turma leu durante semanas. A segunda: a lista é apresentada como amostra, com a expressão que a redação oficial usa quando cita parte de um conjunto maior. Somada ao número três, ela deixa em aberto se os três autores citados correspondem exatamente aos três clássicos anunciados ou apenas aos que couberam na frase.

Em junho de 2025, poucos dias antes desta mostra, outra escola de São Mateus reuniu num só dia as cartas e os documentários que suas turmas produziram no primeiro trimestre — atividade anterior a esta, em escola comum da rede e com outro público. A comparação serve para uma coisa só: naquele material está escrito quem produziu o quê, e neste não.

A fala da professora, íntegra

A Remição pela leitura é uma verdadeira oportunidade de resgatar sonhos e ampliar horizontes. Durante a atividade, os alunos conheceram obras clássicas da literatura, desenvolveram pensamento crítico e exercitaram a escrita e a leitura. Foi uma experiência enriquecedora

Edinéia Xavier, professora de Língua Portuguesa responsável pelo projeto na unidade, resumiu assim a atividade, no mesmo texto em que o governo estadual divulgou a mostra que ela ajudou a organizar. A frase descreve o que a atividade se propôs a ser. Ela não mede nada: não vem acompanhada de quantos concluíram etapa escolar, quantos seguiram matriculados depois nem quantas horas de aula sustentaram a leitura dos três clássicos.

Há uma escola estadual na unidade; a rotina de aula não aparece

Uma mostra literária em unidade prisional só acontece se houver escola funcionando lá dentro, e é justamente sobre essa escola que o material menos fala. Dois indícios apontam para ensino formal: uma escola estadual de Ensino Fundamental e Médio tem equipe pedagógica atuando ali, e o texto chama os participantes de alunos, não de assistentes de uma palestra. Daí em diante, silêncio: não se informa a modalidade em que estão matriculados, quantas horas de aula têm por semana, se as horas da mostra entram na carga horária, se há certificação ao fim da etapa nem quantos professores atendem a unidade.

Para situar o leitor sem inventar nada, dois registros anteriores do próprio noticiário ajudam. Em fevereiro de 2025, cinco meses antes, o governo divulgou o começo do ano letivo nas turmas mantidas dentro das unidades prisionais do Estado — balanço anterior a este e de alcance estadual, que não trata da PRSM em particular. E, um mês antes desta mostra, uma turma atendida em outro tipo de estabelecimento participou de um encontro sobre profissões e desigualdade racial — outro município, outra escola, outra atividade; os dois materiais oficiais não se mencionam.

O projeto se chama Remição pela Leitura e a regra não está escrita

O nome do projeto anuncia um efeito, e o material para no nome. Não se lê ali como alguém passa a integrar o grupo dos 39, quantas obras são exigidas, se há trabalho escrito a entregar, quem avalia o que foi entregue, quanto tempo dura cada ciclo nem se uma mostra como a do dia 02 tem qualquer peso nesse cálculo. Esta matéria também não completa a regra por fora: o que existe de oficial sobre o funcionamento do projeto é o que a Sejus e a Sedu divulgaram, e elas divulgaram o nome.

O diretor-adjunto da unidade, Gilmar Rodrigues, descreveu ao material oficial o objetivo do projeto como o desenvolvimento pessoal de quem participa e o conhecimento por meio dos livros e da leitura. É o propósito declarado por quem administra o lugar, e vale como isso.

Sobre as 39 pessoas, o que este texto escolheu não escrever

O material não identifica nenhum participante — nem nome, nem iniciais, nem idade —, e esta matéria não acrescenta descrição alguma. São pessoas adultas presas numa penitenciária, e o texto oficial não informa a situação processual de nenhuma delas.

Ficam fora daqui, por escolha da redação e não por falta de apuração, três assuntos: o motivo pelo qual cada uma está presa, o tempo de pena e o andamento de cada processo. Nada disso pertence ao assunto, que é uma mostra de trabalhos feita numa escola. Pelo mesmo critério, as avaliações que o material oficial faz sobre as pessoas presas não são reproduzidas: quem estuda ali é aluno, e nenhum dos 39 entra nesta página como exemplo de coisa nenhuma. Os nomes que permanecem são de profissionais, que respondem publicamente pelo trabalho que assinam. E o substantivo que o texto oficial escolheu para chamar os participantes — um rótulo de custódia, não de matrícula — sobrevive nesta página só dentro da fala reproduzida, que se copia como foi dita.

Trinta e nove participantes, três autores, uma única data

O que o texto oficial deixou de fora cabe numa lista, e ela não fecha o assunto:

  • Quantos dos 39 escreveram texto próprio, e quantos leram, ilustraram ou montaram cartaz.
  • Quem viu a mostra além de quem a organizou — outros alunos da unidade, familiares, servidores.
  • Onde os trabalhos ficaram depois do dia 02, e se algum deles foi reunido em publicação.
  • Se a unidade tem acervo de livros disponível fora das horas de aula.
  • Quantas edições o projeto já teve na PRSM e se está prevista uma segunda mostra.
  • Qualquer indicador de resultado: aprovação, conclusão de etapa, permanência na escola no ano seguinte. Mostra realizada é atividade cumprida, e o material não apresenta medida nenhuma além dela.

Quem divulgou a mostra administra a unidade e o projeto

Uma informação que o texto oficial não dá sobre si mesmo: ele saiu no canal do governo estadual, e as duas secretarias citadas como executoras do projeto são partes interessadas no que ele descreve. A Sejus administra a penitenciária onde a mostra ocorreu; a Sedu responde pela rede a que pertence a escola que levou a equipe pedagógica para dentro dela. É a política se avaliando.

Nenhum dos 39 participantes é ouvido. Nenhuma pessoa de fora dessas duas secretarias aparece no material — nem quem defende as pessoas presas na unidade, nem quem pesquisa educação em espaços de privação de liberdade, nem alguém da comunidade escolar sem vínculo com o projeto. O que se tem é o relato de quem organizou, e ele merece ser lido como tal.

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