A pobreza no Espírito Santo alcança 65,6% das pessoas inscritas no Cadastro Único (CadÚnico), e a estimativa para o conjunto da população capixaba é de 26,0%. Os dois percentuais estão no estudo Perfil da Pobreza no Espírito Santo 2024: Famílias Inscritas no CadÚnico, assinado pela Coordenação de Estudos Sociais do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN). Atenção à data: o registro usado é o de dezembro de 2024 e a divulgação veio só em setembro de 2025 — quem entrou ou saiu do cadastro nesse intervalo não está em nenhuma das linhas a seguir.
A lacuna que muda tudo: onde começa a pobreza
O material divulgado não informa qual é o corte de renda que separa quem é contado como pobre de quem não é, nem o valor que define a extrema pobreza. Esse parâmetro é o que dá sentido à palavra. Sem ele declarado, cada percentual abaixo continua válido dentro do próprio estudo, mas não pode ser posto lado a lado com nenhum outro levantamento que use régua diferente — e nem dá para saber a quantos reais por pessoa, por mês, corresponde cada uma das duas faixas. Quem precisa desse detalhe tem de ir à publicação completa.
Cadastro não é população: dois números que medem coisas diferentes
O levantamento trabalha com duas bases distintas, e confundi-las produz erro grosseiro de leitura:
- Quem está no CadÚnico: 65,6% em situação de pobreza e 41,1% em extrema pobreza. São registros de um cadastro que reúne famílias de baixa renda inscritas, não a população inteira do Estado.
- Toda a população capixaba: 26,0% em pobreza e 16,3% em extrema pobreza. Aqui não há contagem direta de cabeças — o instituto apresenta os dois valores como estimativa, o que é diferente de medição.
A distância entre as duas colunas é esperada, porque o cadastro concentra justamente quem tem menos renda. O que o texto não esclarece é se o percentual de extrema pobreza está contido no de pobreza ou se são grupos apartados. Sem essa informação, somar as duas taxas geraria um número que o estudo não sustenta — e por isso ele não aparece aqui.
Onde a pobreza no Espírito Santo aparece maior
Nas microrregiões, as maiores estimativas ficaram em Nordeste (37,4%), Caparaó (34,2%) e Litoral Sul (33,8%). Na escala dos municípios, os índices mais altos apontados foram os de Ibitirama (58,0%), Ponto Belo (50,5%) e Alto Rio Novo (47,3%).
Os três municípios aparecem acima de qualquer uma das três microrregiões citadas. O material não diz a qual microrregião cada um pertence, não informa a posição dos demais municípios capixabas e não deixa explícito se o índice municipal é calculado sobre a mesma base da estimativa regional. Sem isso, a comparação direta entre as duas listas fica em aberto.
3.643 pessoas em situação de rua, entre as cadastradas
Em 2024, o cadastro contabilizou 3.643 pessoas em situação de rua entre as inscritas no Espírito Santo. A maior parte, 65,5%, na Região Metropolitana. Os municípios nomeados são Vitória (953), Serra (534) e Vila Velha (514).
Vale reparar no que está misturado nessa passagem: 65,5% é percentual, e os três valores entre parênteses são pessoas contadas uma a uma. O estudo não informa a quantas pessoas correspondem os 65,5%, não lista os demais municípios da região e não deixa claro se esses três esgotam o total metropolitano. E há um limite embutido no recorte: quem dorme na rua e não está inscrito no cadastro não entra nessa contagem — o número é de pessoas cadastradas em situação de rua, não de pessoas em situação de rua.
O que falta dentro de casa
Nas condições dos domicílios a base muda outra vez: aqui o estudo fala em famílias, e não em pessoas.
- 26,2% sem esgotamento sanitário adequado;
- 15,7% sem abastecimento de água adequado;
- 7,7% sem acesso à coleta de lixo adequada.
Fora da planilha, esses percentuais descrevem rotina: buscar água em outro ponto antes de cozinhar, conviver com esgoto correndo perto de casa, acumular lixo até achar onde deixar. O material não define o que conta como adequado em cada um dos três itens, e essa definição muda o tamanho do problema — fossa é ou não é esgotamento adequado? Poço é ou não é abastecimento adequado? A resposta está na metodologia, que o texto divulgado não abre.
Escolaridade: a média que não fecha o Fundamental
Entre os inscritos com 15 anos ou mais, a taxa de analfabetismo apurada foi de 7,9%. Quem tem 25 anos ou mais soma, em média, 6,7 anos de estudo — patamar que, na leitura do próprio instituto, não é suficiente para concluir o Ensino Fundamental. Já na faixa de 4 a 17 anos, 97,1% dos cadastrados estão na escola.
Os dois primeiros números falam de quem já é adulto e teve a trajetória escolar interrompida; o terceiro fala de quem ainda está na idade de estudar. São gerações diferentes dentro da mesma população cadastrada, e o estudo não informa se a frequência escolar de hoje já se traduziu em aumento da escolaridade média.
A leitura do instituto e a ausência de contraponto
Este diagnóstico é um instrumento fundamental para orientar ações mais efetivas de combate à pobreza e redução das desigualdades sociais no Espírito Santo. Olhar para os dados auxilia na elaboração de ações mais assertivas e que contribuem de forma mais eficiente para o desenvolvimento social
A avaliação é do diretor-geral do IJSN, Pablo Lira. É a única fala atribuída em todo o material, e ela vem do órgão que produziu o estudo. Não há no texto divulgado nenhuma avaliação externa, nem contraditório, nem a palavra de quem é objeto do levantamento. Ausência de crítica em material oficial não é o mesmo que consenso.
O que o estudo cita e não abre
A apresentação afirma que a publicação aborda ainda o mercado de trabalho e a chegada dos serviços básicos, e que traz dois indicadores — o Índice de Desenvolvimento da Família (IDF) e o Índice de Gestão Descentralizada Municipal (IGDM) —, mas não apresenta o valor de nenhum dos dois nem explica como cada um é calculado. Também não aparece, no que foi divulgado, recorte por raça, por sexo ou por idade da população em situação de pobreza, nem comparação com anos anteriores que permitisse dizer se o quadro melhorou ou piorou. E não há qualquer indicação de prazo, meta ou medida decorrente do diagnóstico.
Para quem acompanha esse tipo de produção, vale comparar o método com o de outro trabalho da mesma casa divulgado no mês anterior: o estudo do IJSN sobre migração no Espírito Santo, com recorte por municípios capixabas.
Onde ler o estudo inteiro
A publicação foi disponibilizada para consulta e download. É nela — e não no resumo divulgado — que estão a metodologia, o corte de renda de cada faixa e as tabelas por município: arquivo completo do Perfil da Pobreza no Espírito Santo 2024, no site do instituto.
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