Um grupo de 40 estudantes de uma escola estadual de Cachoeiro de Itapemirim passou a dividir a semana entre duas instituições a partir de uma quarta-feira, dia 31, quando pisou pela primeira vez no campus do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo (Ifes) na cidade para começar a etapa profissional de sua formação. Era a abertura da 4ª oferta dos cursos técnicos intercomplementares que a Secretaria da Educação (Sedu) mantém em conjunto com o instituto. A cerimônia é um marco de 2024 e não se repete: o que continua valendo para quem procura o programa hoje é o desenho do curso e a seleção que o antecede — e é sobre isso, não sobre a solenidade, que o comunicado oficial diz menos do que o leitor precisa.
40 estudantes, dois cursos, 20 vagas em cada
A turma aberta naquele dia estava dividida em partes iguais: 20 adolescentes no curso técnico em Mecânica e outros 20 no de Mineração. Todos entraram pelo 1º módulo, ou seja, pelo primeiro dos blocos em que a formação profissional é fatiada ao longo do percurso.
São adolescentes matriculados na 1ª série do Ensino Médio da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Lions Sebastião de Paiva Vidaurre, que fica no mesmo município. Não são, portanto, alunos que trocaram de escola: eles continuam na rede estadual e passaram a frequentar também o campus federal.
Um detalhe de data merece registro. O texto da Sedu marca o dia apenas como quarta-feira, 31, e não nomeia o mês. Como o material chegou ao público em 5 de agosto de 2024, a referência situa a aula em 31 de julho daquele ano. Ano, mês e dia da semana não aparecem juntos em nenhum ponto do comunicado.
O que são cursos técnicos intercomplementares, em português claro
O comunicado usa a expressão técnica na forma concomitante intercomplementar e segue adiante sem explicá-la. Vale destrinchar, porque é ela que descreve a rotina real do estudante.
- Concomitante quer dizer ao mesmo tempo: o ensino médio corre na escola estadual e o curso técnico corre em paralelo, em outra instituição. São duas matrículas e duas frequências, não uma só.
- Intercomplementar aponta para o encaixe entre as duas partes: a formação profissional oferecida pelo instituto federal se soma à formação geral da escola, em vez de repeti-la.
- Módulo é o bloco em que a parte técnica se divide. Quem entra começa pelo primeiro e avança por etapas, e não em uma única série corrida.
Nada disso está escrito no material da Sedu — é o que se deduz do próprio texto, que ao mesmo tempo situa os participantes na 1ª série do Ensino Médio de uma escola estadual e os coloca começando pelo módulo inicial da etapa profissional dentro do campus federal.
Como se entra no programa: existe seleção, mas o comunicado não a detalha
A Sedu informa que haveria processo seletivo para a oferta seguinte, a quinta, com início previsto para 2025. Esse é o único caminho de entrada citado para os cursos técnicos intercomplementares — não há menção a inscrição automática, a indicação da escola ou a ordem de chegada.
Só que o anúncio, lido hoje, está superado: o prazo previsto para a quinta oferta já passou, e a parceria entre as duas instituições seguiu abrindo turmas depois dela. Em novembro de 2025, uma etapa posterior desse mesmo acordo apareceu no formato de edital, quando a Sedu e o Ifes abriram 341 vagas em cursos técnicos gratuitos. O ciclo se fecha com o resultado: em janeiro de 2026, já na fase de matrícula, a Sedu divulgou o resultado do seletivo dos cursos técnicos com o Ifes. Quem procura a porta de entrada deve olhar para o edital da oferta em curso, não para a aula inaugural de uma turma que já avançou nos módulos.
Vale lembrar que a escolha do curso técnico é uma decisão tomada cedo, ainda na 1ª série. Na mesma cidade e no mesmo mês de agosto de 2024, a rede estadual promoveu a 1ª feira de profissões em Cachoeiro de Itapemirim, iniciativa distinta desta e voltada justamente a esse momento de decisão.
O que o comunicado da Sedu não informa
A ausência também é informação. Sobre um programa que decide o turno, o deslocamento e a carga de estudo de um adolescente por anos, o texto oficial deixa em branco:
- quem pode se inscrever — se a seleção alcança estudantes de outras escolas estaduais do município ou só os da EEEFM Lions Sebastião de Paiva Vidaurre;
- como é a seleção — se há prova, análise de histórico, sorteio ou reserva de vagas, e qual o prazo;
- quantas vagas haveria na quinta oferta, e se a divisão continuaria em 20 por curso;
- quanto tempo dura a parte técnica, quantos módulos ela tem e em que turno acontece;
- como o estudante se desloca entre a escola e o campus, e se há transporte ou auxílio;
- o que acontece com quem desiste ou reprova em um módulo;
- onde buscar informação — o material não traz endereço, telefone, site ou número de edital para consulta.
Uma parceria de 2021 apresentada como inédita
O acordo que leva alunos daquela escola ao campus federal começou em 2021, o que faz da turma de 2024 a 4ª a percorrer o caminho. A Secretaria afirma que o arranjo é inédito no Brasil, e essa é uma declaração da própria pasta: o comunicado não diz quem apurou o ineditismo, com base em qual levantamento, nem se o pioneirismo se refere ao formato intercomplementar, à combinação de rede estadual com instituto federal ou aos dois cursos escolhidos.
Convém também registrar o que o documento é: uma comunicação oficial da Secretaria, com um lado só. Não há no texto qualquer declaração entre aspas — nem de gestor, nem de professor, nem de estudante — e não há avaliação independente sobre resultados, evasão ou empregabilidade das turmas anteriores. Ausência de crítica em material de assessoria não é o mesmo que ausência de problema.
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