A Secretaria da Educação (Sedu) recebeu uma equipe da Secretaria de Educação do Estado de Minas Gerais para uma visita técnica às ações capixabas de Busca Ativa Escolar, a frente que trata da infrequência, do abandono e da evasão escolar no Espírito Santo. O comunicado oficial descreve uma agenda — apresentação de políticas, visita a unidades de ensino e troca de experiências — e não registra assinatura de termo, convênio ou acordo de cooperação entre os dois estados.
O roteiro informado tem três endereços: a Superintendência Regional de Educação (SRE) de Vila Velha, o CEEMTI Paulo Freire e o CEEFMTI Pastor Oliveira de Araújo. Nesses locais, segundo a Sedu, os servidores mineiros observaram na prática as iniciativas voltadas ao acesso e à permanência dos estudantes nas escolas estaduais. A mesma unidade de Vila Velha havia sido palco, dois dias antes, do encontro único que abriu o projeto Mentoria do Bem, em 5 de setembro de 2024.
Os verbos do comunicado descrevem agenda, não ato
Vale ler a sequência de verbos que a secretaria usa para narrar a semana: recebeu, apresentar, conhecer, visitou, observar, ampliar a troca de experiências. Todos descrevem agenda cumprida. Nenhum descreve ato: não há aderir, firmar, assinar, definir prazo nem lançar programa conjunto. O que valia em 7 de setembro de 2024 era uma visita concluída — relatos de boas práticas de um estado para o outro, sem obrigação criada para nenhum dos dois.
Sobre o que veio depois, o registro público mais próximo é bem posterior e não tem ligação declarada com a comitiva: em novembro de 2025, mais de um ano adiante, a busca ativa escolar formava equipes em três cidades do Espírito Santo, numa etapa de capacitação da própria rede capixaba.
A evasão escolar no Espírito Santo aparece citada e não explicada
O texto oficial trata a Busca Ativa Escolar como algo que o leitor já conhece e em nenhum momento diz como a procura funciona: quem vai atrás do estudante ausente, por qual meio e em quanto tempo depois da primeira falta. Também empilha três palavras que a leitura corrida costuma tomar por sinônimas — infrequência, abandono e evasão. São graus diferentes de afastamento da sala de aula, o comunicado não define nenhum deles e não informa em qual desses momentos a procura pelo estudante é acionada.
E não há um único número no material: nenhum estudante localizado, nenhum rematriculado, nenhum município coberto, nenhum período de apuração. Visita recebida, apresentação feita e agenda cumprida são insumo — medem o que o estado fez, não o que mudou para quem está fora da escola. A distinção também vale para o desfecho: voltar à escola e permanecer nela são resultados distintos, e o comunicado não mede nem um nem outro.
A única fala do texto avalia a visita, não o efeito dela
O compartilhamento das ações de busca ativa do Espírito Santo com Minas Gerais representa um avanço significativo na cooperação entre estados. Essa troca de experiências é fundamental para aprimorar as políticas públicas voltadas à educação, especialmente no enfrentamento da evasão escolar
Quem assina a frase é a gerente de Políticas de Apoio à Permanência e Busca Ativa Escolar, Rosângela Vargas, que acompanhou a equipe mineira durante a semana. É a única voz do material, e o que ela afirma tem por objeto a própria visita: avanço na cooperação, troca fundamental. Nem na fala nem no restante do texto aparece um dado que mostre efeito das ações capixabas sobre a frequência de quem estuda na rede.
Referência para outro estado com base em quê
Um estado mandar equipe para conhecer o trabalho de outro pressupõe que o segundo tem algo a ensinar. O material não apresenta o que sustenta essa posição: não cita avaliação externa, ranking, estudo, meta batida nem série histórica da própria rede. Quem afirma a importância da visita é a secretaria que a recebeu — a mesma que apresentou as ações e que assina o comunicado. O indicador externo mais próximo no tempo é de outra natureza e não trata da procura por estudantes fora da escola: o desempenho do ensino médio capixaba no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, divulgado em agosto de 2024.
Da semana de agenda, o que ficou sem registro
- Quantas pessoas vieram e quantos dias ficaram. O comunicado fala em equipe e em comitiva, sem número, e situa tudo em nesta semana, sem uma data sequer.
- Quem pagou o quê. Não há informação sobre deslocamento, hospedagem ou diárias, nem sobre qual dos dois estados arcou com a despesa.
- O que Minas Gerais leva daqui. Nenhuma previsão de aplicação, de projeto-piloto ou de etapa seguinte é mencionada.
- Se há contrapartida. O texto não fala em visita de retorno nem em compromisso assumido pelo outro estado.
- O tamanho do problema. Não aparece quantos estudantes capixabas estão fora da escola, nem quantos a estratégia alcançou.
- A diferença entre as duas escolas. As unidades visitadas entram sob um mesmo rótulo no texto, mas com siglas distintas — CEEMTI e CEEFMTI —, e o comunicado não explica o que separa uma da outra.
Falta ainda gente no relato. Tudo o que se lê vem das duas secretarias envolvidas, e a única fala publicada é de uma servidora de uma delas. Não há professor de sala descrevendo o que acontece quando a procura dá certo, não há família visitada por essa rede, não há estudante que tenha voltado e não há pesquisa ou avaliação de fora dos dois governos medindo o que a estratégia entrega. Sobre o que a comitiva mineira achou do que viu, o estado anfitrião também não escreveu uma linha.
Quem percebe uma criança fora da escola tem a quem avisar
O comunicado não abre canal para o leitor, o que é coerente com o que ele é: o registro de uma agenda entre governos. Fora dele, a rota prática existe. Quem sabe de uma criança ou adolescente que parou de frequentar a escola pode procurar a própria unidade em que ele estava matriculado ou comunicar o Conselho Tutelar do município, órgão público que recebe esse tipo de informação de qualquer pessoa, sem formalidade e sem exigir prova.
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