A Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Francelina Carneiro Setúbal, em Vila Velha, colocou seus estudantes de cursos técnicos em duas atividades fora da sala de aula ao longo de pouco mais de um mês: um fórum empresa-escola com palestras de profissionais do mercado, voltado aos 220 alunos dos cursos técnicos da unidade, entre julho e agosto; e a ida de cinco estudantes a uma simulação geopolítica promovida pelo Ifes, em Vitória, na virada de agosto para setembro. As duas atividades já se encerraram e o comunicado da Sedu não anuncia continuidade para nenhuma delas — não há data de nova edição, previsão de repetição em outras escolas nem qualquer etapa seguinte.
O fórum empresa-escola foi um ciclo de palestras, não um curso
O nome oficial da iniciativa é 1º Fórum de Parceria Empresa-Escola, e o formato descrito pela Sedu é o de ciclos de palestras, realizados entre os meses de julho e agosto. Não há menção a carga horária, a aulas, a trabalho avaliado ou a emissão de certificado. Quem lê a palavra formação e imagina um curso com início, meio e fim não encontra isso no material: o que está descrito são profissionais de diversas áreas falando a uma plateia de estudantes.
O público declarado são os 220 alunos dos cursos técnicos que a escola oferece — Administração, Gestão de Condomínios e Transações Imobiliárias —, e o propósito declarado é aproximá-los da realidade do mercado de trabalho. Esse 220 é o tamanho do público a que o fórum se dirigia: o comunicado não informa quantos estudantes compareceram a cada palestra, nem distribui o total por curso.
Os assuntos citados são uso de tecnologias no ambiente de trabalho, bullying, imagem pessoal e valores profissionais. A relação não é fechada — o texto oficial os apresenta como exemplos do que foi debatido, e não como a programação completa. Fica em aberto, portanto, quantos encontros houve e que outros temas entraram. Os palestrantes tampouco são identificados: a descrição para em profissionais de diversas áreas, sem nome de pessoa, de empresa ou de entidade.
A direção da escola avalia a iniciativa pelas habilidades que os estudantes teriam exercitado ali:
O fórum incentivou o desenvolvimento de habilidades essenciais, como pensamento crítico e comunicação assertiva, além de fomentar a responsabilidade social, preparando os estudantes para aplicar esses conhecimentos na vida cotidiana
A avaliação é da diretora escolar, Renata Guedes.
Cinco alunos na 11ª Simulação Geopolítica do Ifes
A segunda atividade tem natureza diferente e envolveu um grupo bem menor. Cinco alunos da escola participaram da 11ª Simulação Geopolítica do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo (Ifes), entre os dias 30 de agosto e 1º de setembro, no campus de Vitória. O evento juntou estudantes de instituições diferentes, distribuídos em comitês, para discutir temas globais e chegar a saídas negociadas.
É a única das duas atividades que aparece com número de edição no material — a décima primeira. Ainda assim, o comunicado não diz quantas escolas ou quantos estudantes participaram ao todo, não descreve como uma escola chega até lá (se há inscrição, seleção, prazo ou critério) e não informa quem acompanhou o grupo de Vila Velha até a capital.
Para o professor que atende esses estudantes em Sociologia, o proveito da simulação está em tirar do papel o conteúdo visto em sala e em obrigar cada participante a falar, argumentar e sustentar uma posição diante dos demais.
O encontro desafiou os estudantes a debater questões complexas, como guerra, reforma agrária e direitos humanos, promovendo a construção de soluções negociadas, fundamentais no exercício da diplomacia e da convivência
A avaliação é do professor de Sociologia Vinícius Zuccolotto. Vale a mesma ressalva do fórum: os assuntos que ele enumera entram como exemplos do que se debateu, não como a pauta integral dos comitês.
Uma Menção Honrosa — e por que o nome do estudante não aparece aqui
Além de integrar a representação da escola na disputa, um dos estudantes recebeu Menção Honrosa pela atuação no comitê de que participou. O material não explica o critério da distinção, quem a concede nem quantas foram entregues na edição.
O comunicado oficial traz o nome completo desse estudante. Ele não é reproduzido aqui, por decisão editorial. Identificar nominalmente um aluno da educação básica cria um registro permanente e indexado que amarra uma pessoa a uma escola, a um município e a uma turma pequena — e, num caso como este, o nome não acrescenta serviço nenhum a quem lê. A fala vai íntegra, atribuída pela função. Os nomes da diretora e do professor permanecem no texto porque os dois respondem profissionalmente pela iniciativa, na condição de servidores da rede.
Fiquei extremamente feliz por essa experiência e agradeço muito ao corpo docente da escola por nos proporcionar essa oportunidade
A avaliação é do estudante que recebeu a Menção Honrosa.
Formação integral: o termo que abre o comunicado e nunca é explicado
A expressão formação integral sustenta o enquadramento do texto oficial do começo ao fim, mas em nenhum momento é definida. O que o material de fato descreve são duas atividades pontuais e extracurriculares, concentradas entre julho e setembro, apresentadas como recorte de um conjunto maior: a Sedu afirma que a unidade mantém outras ações do gênero e escolhe destacar essas duas, sem listar as demais nem dizer quantas são.
Também não fica claro de quem partiu a iniciativa. Nenhuma das duas atividades é vinculada, no texto, a programa da rede estadual, a diretriz curricular ou a edital. Pelo que está escrito, o fórum figura como ação da própria unidade escolar e a simulação, como participação num evento organizado por outra instituição — mas o comunicado não afirma isso com todas as letras, e essa distinção muda quem responde pela continuidade.
As lacunas do comunicado da Sedu
São ausências que pesam justamente para quem leria a notícia com objetivo prático: outra escola interessada em repetir o formato, ou uma família avaliando a unidade.
- Certificação. Nada sobre certificado, declaração de participação ou registro no histórico escolar dos estudantes.
- Duração e datas do fórum. Só se sabe que os ciclos de palestras ocorreram entre julho e agosto — sem dia, sem duração e sem número de encontros.
- Local das palestras. O texto não informa onde os encontros aconteceram.
- Quem palestrou. Nenhuma empresa, entidade ou profissional é identificado, embora parceria com empresas seja o próprio nome da iniciativa.
- Como participar. Nem o fórum nem a simulação vêm acompanhados de canal de inscrição, endereço ou contato para escolas e estudantes interessados.
- Segunda edição. O ordinal no nome do fórum sugere continuidade, mas o texto não anuncia uma próxima rodada. Numeração de edição não é promessa de sequência.
- O resultado dos cinco. Fora a Menção Honrosa, não há informação sobre como a delegação da escola se saiu, nem em que comitês os outros estudantes atuaram.
Quem assina o relato, e quem ficou de fora dele
O texto de origem é comunicação institucional da secretaria que administra a escola, e reúne três vozes situadas do mesmo lado da história: a direção da unidade, um professor da casa e um estudante distinguido na competição. Não há manifestação de quem organizou o fórum, de nenhum dos profissionais convidados, do Ifes ou de estudantes que não tenham recebido distinção.
Isso não desmente nada do que está relatado — as atividades ocorreram e estão registradas pela rede que administra a escola. Define, porém, o alcance do que se pode afirmar a partir daí. O material descreve o que a escola fez e como a escola avalia o que fez; ele não mede efeito algum sobre aprendizagem, frequência, aprovação ou entrada dos estudantes no mercado de trabalho, e não traz avaliação externa que o faça.
O que vale hoje
O que está confirmado é isto: um ciclo de palestras encerrado em agosto, dirigido aos 220 alunos dos cursos técnicos da escola, e a participação de cinco estudantes num evento do Ifes na virada de agosto para setembro, com uma Menção Honrosa individual. Nada além disso está anunciado. Para quem procura vaga, curso, inscrição ou calendário, o comunicado não abre porta alguma — é o registro de duas atividades que já terminaram.
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