Perfil de professor de Matemática da rede estadual em Domingos Martins, região serrana do Espírito Santo

Professor Maxwel: 25 anos de Matemática na escola de Paraju

Maxwel Augusto Neves começou a dar aula de Matemática na Escola Gisela Salloker Fayet, em Paraju, distrito de Domingos Martins, na região serrana do Espírito Santo, e é lá que ele continua — primeiro como professor, e como diretor desde 2020. São 25 anos de profissão, segundo a Secretaria da Educação (Sedu), que publicou o perfil dele em 26 de outubro de 2024. O que segue descreve a escola e o trabalho dele naquela data: o material não garante que ele siga na direção da unidade nem que o projeto descrito continue sendo ofertado hoje.

A parte concreta do perfil começa antes do projeto que lhe deu nome. Pela descrição da Sedu, ele já puxava trabalho de iniciação científica com os próprios alunos quando isso ainda dependia do tempo da aula comum.

“Durante as aulas regulares, eu incentivava meus alunos a se dedicarem mais a competições científicas, sobretudo, pela Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP)”

Maxwel falava do período anterior a 2016, quando o preparo para a competição cabia dentro da carga horária normal e não tinha material próprio.

De orientador do PicMat, em 2016, a diretor da escola, em 2020

O convite chegou em 2016, quando Maxwel ainda dava as aulas de Matemática da escola: entrar no Projeto Iniciação Científica de Matemática (PicMat), um dos braços do Programa Matemática na Rede. A Sedu pôs a iniciativa de pé no primeiro semestre daquele ano, ao lado da Coordenação Regional da OBMEP/ES e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Espírito Santo (Fapes). Como o trabalho já existia ali por iniciativa dele, Maxwel assumiu a função de orientador.

Em 2020 veio a nomeação para diretor da EEEFM Gisela Salloker Fayet, a mesma unidade em que tinha começado. Da direção, ele diz que segue aproximando alunos e colegas do projeto para que a escola não saia dele.

“Todos os anos nossa escola oferece a Iniciação Científica de Matemática, nunca deixamos de ofertar. Alunos de escolas e comunidades vizinhas participam das aulas, por sermos um polo da região serrana de Domingos Martins”

O diretor descreveu assim a oferta anual, ao explicar por que a escola recebe também quem não estuda nela. Quantos são esses alunos de fora, de que localidades vêm e como chegam a Paraju, a Sedu não conta.

O que é o PicMat, e o que ele entrega a quem participa

O nome do projeto explica pouco a quem está de fora. Iniciação científica, na educação básica, é o trabalho em que o estudante se dedica a problemas que passam do conteúdo corrente da aula, com tempo reservado e material próprio, sob orientação de um professor. A OBMEP, cujo nome por extenso aparece na fala de Maxwel, é a competição nacional de Matemática dirigida às escolas públicas. É justamente tempo e material específicos que o PicMat oferece, segundo o professor — algo que a Sedu associa ao desenvolvimento cognitivo e ao preparo para a vida acadêmica ou o mercado de trabalho.

“Participar de um projeto como esse, só traz suporte e benefícios, tanto para os estudantes quanto para professores. Para os estudantes, o aprofundamento de estudos em Matemática, abre portas que nem eles mesmos poderiam imaginar. E como professores, somos beneficiados com formações continuadas em Resolução de Problemas e bolsas pelo desenvolvimento das ações”

Maxwel apresentou esse balanço na condição de orientador, isto é, de quem recebe as duas contrapartidas que cita. E elas aparecem sem número: as formações continuadas em Resolução de Problemas e as bolsas pelo desenvolvimento das ações vêm sem valor, sem duração e sem critério de concessão.

Escola Gisela Salloker Fayet: 127 premiações desde 2005

O número que sustenta o perfil é da escola, não de uma pessoa. Entre a 1ª edição da OBMEP, em 2005, e a de 2023, a Escola Gisela Salloker Fayet acumulou 127 premiações nacionais: 38 medalhas e 89 menções honrosas. A tabela publicada junto ao perfil abre esse total assim:

  • menções honrosas: 89
  • bronze: 24
  • prata: 14

Não há linha de ouro na tabela, e o perfil passa por essa ausência sem uma palavra. Vale também olhar o que os 127 contam: são premiações, não pessoas. Um mesmo estudante pode ser premiado em mais de uma edição, e nada ali revela quantos estudantes diferentes estão por trás do número — nem quantos deles vieram das comunidades vizinhas que o diretor menciona.

“temos muito orgulho de todos que se empenharam para essas conquistas. Isso resultou no destaque que hoje nossa escola tem, por tantas medalhas conquistadas, o que nos leva a um sentimento de dever cumprido.”

Foi ao chegar nesse total que Maxwel falou em orgulho e em dever cumprido. É a única passagem em que ele avalia o resultado, em vez de descrever o que a escola faz.

Certificados, brindes e uma Feira de Ciência e Tecnologia por ano

A entrega dos prêmios da OBMEP tem cerimônia anual a cargo da Sedu, pelo Matemática na Rede. A escola de Paraju acrescenta uma homenagem própria: recebe os medalhistas com certificados e brindes.

“Essa nossa iniciativa motiva ainda mais alunos e professores a se interessarem pelo PicMat e pelas competições de conhecimento. Além disso, promovemos, todos os anos, uma Feira de Ciência e Tecnologia, outra forma de incentivar nossos estudantes a estarem sempre em evolução e comprometimento com os estudos, não só com a Matemática, mas também, em todas as demais disciplinas”

O diretor citou a feira como a segunda frente da escola, logo depois de explicar por que a premiação interna existe. Quando e onde ela acontece, quantos trabalhos reúne e se é aberta à comunidade, o perfil não diz.

Sobre o próprio Maxwel há um reconhecimento individual registrado: pelos critérios do regulamento da OBMEP, ele foi premiado em seis edições — 2014, 2015, 2016, 2017, 2018 e 2019 — como professor destaque da olimpíada no Espírito Santo. O reconhecimento veio acompanhado de prêmios individuais e de formação na própria área, ofertada pela olimpíada. A relação para em 2019, e o texto não explica o que houve nas edições seguintes: se o critério mudou, se ele deixou de concorrer ao assumir a direção, ou outra coisa.

O 5,9 do Ideb é a nota de 2019, e não há resultado mais novo

O perfil também puxa para o currículo da unidade o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). O indicador mistura dois ingredientes, como o próprio texto explica: quanto os estudantes acertam nas avaliações do SAEB e quantos deles passam de ano. Em 2019, a nota da escola ficou em 5,9, acima dos 5,1 traçados como meta projetada para o Ensino Médio. Quem traça essa meta, e para que ciclo ela valia, ficou de fora.

Dois cuidados com esse trecho. A nota apresentada é a de 2019, e o texto, publicado em 2024, não traz nenhum resultado posterior. E a unidade atende Ensino Fundamental e Médio: o número citado é só o do Ensino Médio, de modo que a etapa em que entram os alunos do 6º ano — apontados como o começo do trabalho pedagógico da escola — fica sem indicador nenhum. Em agosto de 2024, um balanço do mesmo índice tratava do conjunto da rede: o resultado do ensino médio da rede estadual capixaba naquele levantamento saiu dois meses antes deste perfil.

Onde o PicMat se encaixa no calendário da olimpíada

O perfil saiu numa semana movimentada para quem trabalha com a competição. Poucos dias antes, a segunda fase da edição de 2024 havia sido aplicada, com 16.279 capixabas classificados. No mesmo mês seguia a entrega das medalhas da edição anterior, feita regional por regional ao longo do ano — a cerimônia que o diretor cita ao falar da homenagem interna. E, para quem quiser entender a mecânica da disputa, quem faz a inscrição, como são as duas provas e o que recebe quem é premiado foi detalhado meses depois, já em 2025.

Quem escreve o perfil é o empregador de Maxwel

Quem escreveu esse perfil foi a Sedu — a secretaria estadual a que a escola e o próprio Maxwel estão vinculados. É vitrine institucional: o empregador falando de um servidor seu. Isso não desmente nada do que ele informa, e convém dizer que o material é mais concreto que a média dos comunicados oficiais: traz ano de entrada, projeto, cargo, contagem de premiações e uma tabela aberta por tipo de prêmio. Mas ninguém de fora da estrutura aparece. Não há estudante ouvido, nem família, nem outro professor da escola, nem qualquer avaliação feita por quem não seja a própria secretaria.

O fecho é a parte fraca. Os últimos parágrafos atribuem os resultados a gestão pedagógica eficiente, a participação ativa dos pais e a uma abordagem que vai além dos números, sem apresentar um dado para nenhuma das três. São afirmações que a própria fonte não mede — e que informam menos que a única frase concreta do mesmo bloco: a escola parte de problemas da própria localidade, sustenta projetos como a Feira de Ciências e começa a puxar os estudantes para isso já no 6º ano do Ensino Fundamental.

Quantos alunos, quanto vale a bolsa, como foi 2024

O que o perfil deixa sem resposta:

  • quantos estudantes participam do PicMat na escola, e quantos vêm de escolas e comunidades vizinhas;
  • quanto vale a bolsa citada pelo professor, por quanto tempo é paga e a quem;
  • quantas premiações a escola somou na edição de 2024, cuja segunda fase tinha acabado de ser aplicada quando o perfil foi publicado;
  • por que o reconhecimento de professor destaque no Espírito Santo para em 2019;
  • se Maxwel continua em sala de aula depois de assumir a direção, e quantas turmas e estudantes a unidade tem;
  • se outras escolas da região serrana oferecem o mesmo projeto, ou se o polo em Paraju é o único;
  • se a série Histórias que Inspiram tem outras edições — sobre isso o perfil se cala.

O site do programa citado no perfil continua abrindo

O texto da Sedu se despede indicando o endereço do Matemática na Rede. Ele foi testado para esta reportagem e continua abrindo, na página do próprio programa: o site do Matemática na Rede, apontado pela própria secretaria. É o que restou de acionável num texto de outubro de 2024 — com a ressalva de que nem ali, nem no perfil, se explica como uma escola passa a participar do PicMat, ou se existe alguma inscrição para isso.

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