OBMEP 2023 em Linhares: 50 alunos premiados recebem medalha

A prova que gerou essas medalhas é de 2023; a entrega delas em Linhares só aconteceu no fim de novembro de 2024. A Superintendência Regional de Educação (SRE) de Linhares reuniu 50 estudantes na Escola Estadual de Ensino Médio (EEEM) Emir de Macedo Gomes, no próprio município, para o ato de entrega das medalhas regionais da OBMEP 2023 em Linhares. Os premiados vieram de escolas de quatro municípios: Aracruz, João Neiva, Linhares e Rio Bananal.

A Secretaria da Educação data a solenidade apenas como “nessa quarta-feira (27)”, sem mês e sem ano. Cruzando com a data em que o material circulou, a quarta-feira (27) é 27 de novembro de 2024 — essa amarração de calendário é nossa, e não está escrita no comunicado.

De 866 para 886: o total capixaba mudou no meio do ciclo

O comunicado de Linhares fecha com um número estadual: no Espírito Santo, 886 estudantes foram premiados com medalhas regionais na edição 2023 da olimpíada.

Não foi o que a mesma Secretaria vinha publicando ao longo do ano, sobre a mesma edição. Quando a fila de cerimônias começou, em agosto, o número divulgado era 866 — foi assim que ele apareceu quando a regional de Nova Venécia abriu o ciclo de entregas da edição 2023, e continuou assim em outubro, quando foi a vez da regional de Cachoeiro de Itapemirim, ainda com 866 premiados no Estado. Em novembro, no texto de Linhares, o mesmo campo aparece com 886.

Os dois algarismos ficam aqui como a Secretaria os publicou. Não refazemos a conta nem elegemos o verdadeiro, porque o órgão não diz qual das explicações possíveis vale: pode ter havido revisão da lista de premiados entre agosto e novembro, pode ter havido recontagem depois de recursos, e pode ser troca de dígito na redação da nota. O comunicado de novembro não sinaliza correção, não cita a versão anterior e não descreve nenhum critério de atualização. Para quem lê apenas este texto, 886 é o total; para quem acompanhou a série, o Estado ganhou premiados no meio do caminho sem nunca dizer de onde vieram.

A medalha nacional era outra coisa, e ainda estava por vir

Aqui está a informação que costuma escapar de quem lê só a manchete: a peça recebida em Linhares é a medalha regional. Existe outra faixa, chamada no comunicado de medalha nacional, e ela seguia um calendário próprio.

Segundo a nota, 287 estudantes capixabas também foram premiados com medalhas nacionais e receberiam a premiação na Cerimônia Capixaba da OBMEP, marcada para 11 de dezembro, em Vitória. O ano não está escrito; pelo calendário do próprio ciclo, trata-se de 11 de dezembro de 2024 — de novo, uma dedução nossa.

O que a Secretaria não esclarece é a relação entre os dois grupos. Os 287 medalhistas nacionais estão dentro dos 886 premiados com medalha regional, ou são um contingente somado a eles? A palavra “também”, na construção da nota, sugere sobreposição, mas o texto nunca afirma isso — e a diferença entre as duas leituras muda inteiramente o tamanho do que o Estado conquistou. Tampouco há qualquer indicação de quantos dos 50 alunos da regional de Linhares estariam entre os 287 chamados a Vitória, nem de que critério separa uma faixa da outra: pontuação, colocação nacional, série, nada.

A publicação original saiu dez dias antes da data marcada em Vitória, e para por aí. O 11 de dezembro que ela anuncia já passou há anos, e o comunicado que o anunciava nunca voltou para contar como foi: quantos dos 287 compareceram, quem entregou as medalhas, o que se disse ali.

OBMEP 2023 em Linhares: o que a medalha abre depois da foto

Esta é a parte em que o comunicado de Linhares vai mais longe do que os das outras regionais — e é a única do texto que serve como orientação prática para uma família.

Valmecir Antônio dos Santos Bayer, professor do Departamento de Matemática da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e representante da coordenação regional da olimpíada, descreveu o que vem depois do palco:

“O estudante que ganha medalha na OBMEP é convidado para participar do Programa de Iniciação Científica de Matemática, tendo a oportunidade de continuar se aperfeiçoando em assuntos matemáticos que vão além da grade curricular da Educação Básica. Ao terminar o Ensino Médio, os medalhistas também podem continuar suas vidas acadêmicas com base nas premiações conquistadas em alguma edição da OBMEP”

Repare no verbo que ele escolhe: o medalhista é convidado. A nota não diz quem faz o convite, por qual canal ele chega, se alcança as duas faixas de medalha ou só uma, se há prazo para aceitar, quanto tempo dura o programa e o que acontece com quem não responde. Também não explica em que consiste, na prática, “continuar suas vidas acadêmicas com base nas premiações” — se isso significa pontuação em processo seletivo, bolsa, vaga ou apenas peso no currículo. Uma família de Rio Bananal que sai da cerimônia com a medalha na mão não encontra no texto oficial um endereço para perguntar.

A sigla que a própria Secretaria escreve de dois jeitos

Neste comunicado, OBMEP é aberta como Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas e Privadas. Menos de um ano depois, ao narrar a cerimônia seguinte na mesma regional, o órgão escreveu Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas, sem as duas últimas palavras. Nenhum dos dois textos comenta a diferença.

Ela não é decorativa, porque decide quem podia estar naquele palco. E há um indício dentro do próprio material de 2024: ao comentar a solenidade, o superintendente Regional de Educação de Linhares, André Felipe Costa Souza, fala em receber estudantes de duas redes distintas.

“Foi um prazer receber estudantes das redes pública e privada numa honraria tão importante e que arrancou sorrisos de orgulho e estima por parte de todos os envolvidos. Esperamos que a cada ano o nosso Estado e a regional Linhares ganhem cada vez mais notoriedade no que diz respeito ao número de participantes e medalhistas”

Souza usou essas palavras ao avaliar a cerimônia que a sua própria superintendência organizou. O detalhe das “redes pública e privada” aparece uma vez só, na fala dele, e desaparece do restante do comunicado — que em nenhum momento separa quantos dos 50 vieram de escola pública e quantos de escola particular. Vale o mesmo para o número estadual.

Cinquenta pessoas, e nenhuma medalha descrita

O 50 é contagem de estudantes: a nota diz que eles receberam “as suas respectivas medalhas regionais”, ou seja, o número mede quantas pessoas receberam medalha, e não quantos objetos de metal foram distribuídos ali. Em nenhuma linha o material informa de que metal é qualquer uma delas: os três metais habituais de uma premiação escolar estão ausentes do texto inteiro — some o recorte de Linhares, somem os 886 do Estado, somem os 287 da faixa nacional.

Também não há lista de premiados. Diferentemente de outros comunicados do mesmo ciclo, este não nomeia nenhum estudante, o que dispensa qualquer decisão editorial sobre expor menores de idade: não há nome a preservar porque não há nome publicado. O que se perde com isso é a distribuição — quantos medalhistas em Aracruz, quantos em João Neiva, quantos em Linhares e quantos em Rio Bananal, e se esses quatro municípios são toda a área atendida pela regional ou apenas aqueles que tiveram premiado.

Quem quiser entender a mecânica da disputa por trás desses números precisa ir a outro lugar: em 2025, ao abrir as inscrições da edição seguinte, o portal reuniu quem inscreve os alunos, como são as provas e o que a olimpíada premia — material posterior a esta cerimônia e escrito sobre outra edição, mas é ali que estão as regras que este comunicado não repete.

A Secretaria indica um endereço, e ele caiu

A nota encerra mandando o interessado a uma página do programa Matemática na Rede sobre a cerimônia estadual de premiação, sem antecipar o que haveria lá dentro. Testamos esse endereço para republicar a matéria: ele não carrega. O site do Matemática na Rede continua funcionando; a página específica indicada pela Secretaria, não. Quem seguir a única indicação do comunicado não chega a informação nenhuma.

E esse é o único caminho que a Secretaria abre. Para quem precisar tirar dúvida sobre a medalha, sobre o convite ao programa de iniciação científica ou sobre uma eventual correção de lista, o comunicado não oferece telefone, endereço eletrônico, formulário nem sequer a sugestão de bater à porta da SRE de Linhares.

Depois da OBMEP 2023 em Linhares veio a de 2024, com o mesmo atraso

A distância entre a prova e a medalha não foi acidente de 2023. A mesma regional voltou a fazer cerimônia parecida meses depois: em junho de 2025, 41 estudantes da regional de Linhares receberam as medalhas da edição 2024 — outro grupo, outra edição, e de novo com cerca de um ano entre a disputa e a entrega. Nos dois casos, o calendário é decidido regional por regional, e uma única edição da olimpíada se espalha por meses de solenidades pelo Estado. A nota registra que as medalhas regionais da edição 2023 foram entregues em cerimônias organizadas pelas 11 Superintendências Regionais de Educação do Espírito Santo, mas não informa quais delas já haviam concluído a entrega até novembro de 2024, quantas ainda faltavam nem em que data cada uma realizou a sua.

As lacunas que sobram entre os 50, os 886 e os 287

Reunidas, estas são as perguntas que a nota sobre a OBMEP 2023 em Linhares não alcança:

  • Quantos dos 50 medalhistas são de cada um dos quatro municípios citados.
  • Por que o total capixaba da edição 2023 passou de 866, em agosto e outubro, para 886 em novembro.
  • Se os 287 medalhistas nacionais estão contidos nos 886 ou vêm somados a eles.
  • Quantos dos 50 alunos da regional de Linhares foram chamados à cerimônia estadual de 11 de dezembro.
  • Qual metal coube a cada premiado, e quantos capixabas ficaram em cada faixa.
  • Quantos estudantes fizeram a prova da OBMEP 2023 na regional, no Estado ou no país: sem saber quantos entraram na sala, 50 e 886 não dizem se o resultado foi bom ou ruim.
  • Como um medalhista aciona, na prática, o convite para o Programa de Iniciação Científica de Matemática.

Uma ressalva final sobre a origem de tudo isto. O material é divulgação da Secretaria que organizou a cerimônia, e as duas vozes ouvidas nele são as de quem tem interesse no resultado: um superintendente da própria rede e um representante da coordenação da olimpíada. Não foram procurados os professores de Matemática que prepararam as turmas, as direções das escolas de Aracruz, João Neiva e Rio Bananal, nem os próprios estudantes. Isso não significa que não haja o que perguntar — significa que um comunicado institucional não é feito para perguntar.

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