Estudantes do Ensino Fundamental do CEEFMTI Marita Motta Santos, em São Mateus, ocuparam o laboratório de informática da própria escola para jogar o jogo Zacimba Gaba, construído em torno da trajetória de uma mulher que o material oficial descreve como princesa africana. A atividade foi divulgada em 18 de dezembro de 2024 como exemplo de ensino de história afro-brasileira feito com apoio de tecnologia.
O jogo ainda estava em acerto quando a turma sentou diante das telas. O próprio comunicado conta que os alunos percorreram as fases e também opinaram sobre os ajustes finais do projeto — ou seja, a escola não recebeu um produto fechado, e sim uma versão em construção, sobre a qual devolveu sugestões. Se essas sugestões foram aproveitadas, e se o jogo chegou a ficar pronto depois disso, o texto não acompanha. O que se lê aqui é o quadro daquela data, e não a situação de hoje.
A lei de 2003 que o comunicado cita sem explicar
A justificativa formal da aula é a Lei 10.639/2003. O material se limita a dizer que a norma prevê esse ensino nas escolas, e para aí. Não informa a quem ela se aplica, quanto tempo de aula deve ocupar, em que disciplinas entra, quem verifica o cumprimento nem o que acontece com a unidade que não cumpre. Prever e obrigar não são a mesma coisa, e é justamente essa diferença que permitiria ao leitor saber se a aula de São Mateus é exceção ou rotina.
O assunto vinha circulando na rede estadual naquele fim de ano. Em novembro de 2024 a secretaria pôs à disposição das escolas um material pedagógico para o ensino de história e cultura afro-brasileira, e no início de dezembro outras escolas estaduais encerraram os projetos que tocaram durante o ano sobre o tema. A aula de São Mateus se encaixa nessa sequência, embora o comunicado não a ligue a nenhuma das duas coisas.
Uma princesa sem século, sem lugar e sem vínculo declarado com São Mateus
Quem lê o comunicado sai sem saber quem foi Zacimba Gaba. O texto informa que ela era princesa africana, que foi capturada e que liderou atos de resistência — e nada mais. Não há século, não há região de origem, não há indicação de onde ela viveu depois da captura nem de como a história dela chegou a uma sala de aula em São Mateus.
A lacuna pesa mais do que parece, porque o professor de História da escola apresenta a aula como oportunidade de tratar, em sala, a cultura e a identidade da região. Em nenhum ponto o material afirma que a trajetória dela tenha ligação com São Mateus ou com o entorno. O vínculo aparece na fala; a informação que o sustentaria não está no texto, e ninguém a fornece.
Quem fez o jogo Zacimba Gaba — e quem pagou, o texto não diz
Segundo o comunicado, o desenvolvimento foi da Cavallini Games e a produção, do Ponto de Cultura Belas Artes Projetos Culturais. Quanto custou, de onde veio o dinheiro, se houve recurso público na conta e como esta escola em particular foi escolhida para a experiência são pontos que não entram. Também não se diz se outras unidades receberam a mesma atividade, nem se a rede pretende adotar o jogo em algum programa.
O professor de História da escola, Marcelo D’Ávila, ligou a aula a uma disputa maior sobre o que se ensina:
A vivência deste jogo torna-se um momento para resgatar os valores e a história que estão procurando apagar. Sem dúvida, é uma excelente oportunidade para trabalhar a identidade e a cultura da região.
Ele falava no material que a secretaria publicou sobre a atividade. Quem estaria procurando apagar essa história, o comunicado não esclarece em momento algum.
A diretora Bruna Bonomo descreveu o enredo no mesmo material:
O jogo convida os participantes a assumir o papel de Zacimba, enfrentando os desafios de sua captura até os atos de resistência que liderou. Mais do que uma simples narrativa, ‘Zacimba Gaba’ apresenta a força e a resiliência de uma mulher que se recusou a ser silenciada, tornando-se inspiração para gerações futuras
Uma estudante do Ensino Fundamental que participou da aula resumiu o que levou dali:
Eu gostei do jogo e achei ele muito legal e educativo, pois várias pessoas podem jogar e conhecer a história de Zacimba Gaba. A capa do jogo ficou linda. Para nós, que estudamos sobre sua vida nas aulas de História, conseguimos aprender ainda mais com o jogo
A frase carrega um detalhe que o resto do comunicado não destaca: a turma já tinha estudado a personagem em aulas de História antes de abrir o jogo. Isso situa a atividade como reforço de um conteúdo em andamento, e não como porta de entrada no assunto. Dias antes, na mesma cidade, outra escola estadual havia fechado o ano com um projeto de inglês que cruzava história e geografia, sinal de que o formato interdisciplinar não era novidade por lá.
Por que a estudante ouvida não aparece aqui pelo nome
O comunicado oficial traz o nome completo dela. Aqui ele não entra. É uma aluna do Ensino Fundamental. Numa escola só, num município só, o nome completo de quem tem essa idade responde sozinho à pergunta de onde encontrar a pessoa — e continua respondendo anos depois de a aula sobre Zacimba Gaba ter acabado. A fala segue inteira, sem corte, porque o que ela diz interessa — a identificação é que não acrescenta nada a quem lê. Os nomes do professor e da diretora permanecem: os dois falam como profissionais, respondendo pela atividade que conduziram.
Do preço ao lançamento: o que o comunicado de 18 de dezembro não alcança
O texto descreve uma aula e para na porta dela. Fica sem resposta:
- em que dia a aula aconteceu e quanto tempo durou;
- quantos estudantes participaram e de quais turmas;
- quais foram as sugestões dos alunos e se alguma entrou na versão final;
- se o jogo foi concluído depois dos ajustes, e quando;
- onde qualquer pessoa pode jogar Zacimba Gaba, em que aparelho, e se é gratuito;
- quem financiou o desenvolvimento e se houve dinheiro público;
- se outras escolas fizeram ou vão fazer a mesma atividade;
- em que época e em que lugar viveu a mulher que dá nome ao jogo.
Só quem está dentro da escola fala neste material
As três vozes reunidas saem todas do mesmo lugar: uma aluna, o professor e a diretora da mesma unidade, num texto assinado pela secretaria que divulga a iniciativa. Não há pesquisador de história afro-brasileira avaliando o conteúdo do jogo, não há ninguém das comunidades negras da região comentando o retrato que ele constrói, não há família de aluno, e a empresa que desenvolveu o produto tampouco responde por ele ali. Ninguém aparece apontando defeito na experiência — e ninguém foi procurado para isso.
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