Seis escolas estaduais da Serra, de Guarapari, de Vargem Alta e de Cariacica fecharam o ano letivo de 2024 com atividades de consciência negra nas escolas: 15 salas de aula rebatizadas com nomes de personalidades negras, uma jornada sobre a presença africana em Guarapari, um fórum sobre racismo reunindo três unidades e jogos criados pelos próprios alunos. O material oficial apresenta o conjunto como projetos tocados ao longo do ano e arrematados em novembro, mês da consciência negra.
O que está descrito já aconteceu e terminou. Nenhuma das quatro iniciativas tem sequência marcada, e o texto oficial não fixa prazo, orçamento, meta para a rede nem responsável pela condução no ano seguinte. Quem procura uma política pública com etapas e prestação de contas não encontra isso aqui: o que há é o registro de projetos escolares que chegaram ao fim.
Consciência negra nas escolas: seis unidades em quatro municípios
A contagem exige atenção porque o material não a faz. Somando as unidades citadas como promotoras, são seis: uma na Serra, uma em Guarapari, três em Vargem Alta e uma em Cariacica. Uma sétima escola, a EEEM Zuleima Fortes Faria, entra apenas como convidada — mandou alunos ao evento de Guarapari — e o texto não diz em que município ela fica.
Duas ressalvas antes de tomar esse número como total. A primeira: a abertura avisa que vai mostrar algumas das iniciativas. É recorte declarado, não balanço — outras escolas da rede podem ter feito trabalho parecido sem aparecer ali, e o material não informa quantas. A segunda é de leitura: uma das unidades tem o sobrenome partido ao meio no texto que circulou (EEEFM Agostinho Agrizzi), e escola grafada de dois jeitos vira facilmente duas escolas na conta de quem passa o olho.
Rede no nome, escola por escola na execução
O título com que este material foi publicado dizia apenas que escolas da Rede Estadual de Ensino promovem iniciativas por uma educação antirracista — no presente e em bloco, como se houvesse um programa único correndo pela rede inteira. O corpo não sustenta nem uma coisa nem outra. São quatro iniciativas com origem, formato e público diferentes, cada uma nascida dentro da própria unidade e conduzida por professor, pedagoga ou coordenação local.
O único vínculo com uma instância acima da escola aparece em Cariacica: o projeto de lá integra a Missão Pedagógica Preta, da SRE de Cariacica. O material não explica o que é a SRE nem o que a Missão Pedagógica Preta prevê — se tem calendário, formação de professores, material didático ou repasse de recurso. Nas outras três, nada indica coordenação comum.
Serra: 15 salas de aula ganham nome de personalidades negras
Na EEEFM Professor João Loyola, na Serra, 15 salas de aula passaram a levar nomes de personalidades negras. Zumbi dos Palmares e Conceição Evaristo são os dois exemplos citados, e a relação completa não foi divulgada. Vale reparar na unidade de medida: 15 é o número de salas, e não necessariamente o de homenageados — quantas pessoas entraram na homenagem é dado que o texto não traz.
Cada sala ganhou também um QR Code, aquele quadrado que a câmera do celular lê e que abre uma página na tela, apontando para informações sobre a pessoa homenageada. É o que transforma a placa da porta em ponto de consulta durante a aula, sem depender de livro ou de sala de informática.
A ação foi conduzida pelas pedagogas Leila Sant’Ana Nery e Letícia Ramos Magalhães Nascimento, com apoio da coordenadora pedagógica Janaína Simões. Uma estudante da 1ª série do Ensino Médio foi ouvida sobre o resultado, mas a divulgação reproduz dela apenas um fragmento de duas palavras, sobre representatividade — pouco para ser tratado como declaração, e por isso ele não aparece aqui como fala. Quantos alunos a escola atende e quantas turmas circulam por essas 15 salas também não foi informado.
Guarapari: os levantes de 1811 a 1814 saem do livro para a sala de aula
A EEEM Dr. Silva Mello, em Guarapari, realizou o Dia D – ERER, jornada concentrada num único dia, com quatro atividades: palestra a respeito da chegada e da permanência africana na cidade; sessão de cineclube, seguida de discussão sobre justiça racial e ação policial; desfile da beleza negra; e roda de capoeira. A sigla ERER não é explicada em nenhum ponto do material — e como é ela que batiza o evento, quem lê fica sem saber a que eixo ou orientação pedagógica a jornada se filia.
A programação foi organizada pela professora de História Thiara Bernardo Dutra, que aproveitou a data para lançar o livro Autoridades Coloniais e o Controle dos Escravos: Capitania do Espírito Santo (1781-1821). É a parte mais capixaba do conjunto: a obra trata da escravidão no Espírito Santo e apresenta o que chama de República Negra — levantes de pessoas escravizadas ocorridos no próprio município entre 1811 e 1814. Pelo relato oficial, era assunto novo para boa parte dos alunos. O material não diz onde o livro pode ser encontrado nem se a pesquisa está disponível fora dele.
Assistiram à programação alunos da própria Dr. Silva Mello e outros, vindos da EEEM Zuleima Fortes Faria. Uma das estudantes resumiu assim o que levou dali:
Aprendi sobre os quilombolas de Alto Iguape e como esse conhecimento fortalece seus direitos
A fala é de uma estudante ouvida durante a programação. Nem a comunidade de Alto Iguape nem os direitos a que ela se refere são descritos no material: não há informação sobre quantas famílias reúne, desde quando está ali ou em que situação está o reconhecimento do território. Da professora, a divulgação traz somente discurso indireto: teria avaliado que o evento ligou passado e presente ao tratar de resistência, liberdade e inclusão.
Vargem Alta ou Cachoeiro? O fórum que o material situa em dois lugares
Em 25 de novembro de 2024, três escolas promoveram juntas o I Fórum Municipal de Diálogos: Construindo uma Escola Antirracista, em parceria com a iniciativa APOIE Escola: EEEFM Agostinho Agrizzi, EEEFM Guilherme Milaneze e EEEFM Presidente Lüebke. Sentaram à mesa alunos, professores, autoridades e representantes da sociedade civil, para debater racismo e sugerir o que a escola pode fazer diante dele.
Aqui há uma contradição que o material não resolve. A mesma frase diz que as três unidades ficam em Vargem Alta e situa o fórum em Cachoeiro de Itapemirim. Não está explicado se o encontro foi realizado fora do município das escolas, se é a organização parceira que fica em Cachoeiro, ou a qual das duas cidades se refere a palavra municipal no nome do fórum. O intertítulo do texto que circulou credita o fórum a Cachoeiro; o corpo credita às três escolas de Vargem Alta. As duas versões ficam registradas, sem que se escolha uma.
Segundo a divulgação, a psicóloga da APOIE Luísa Bravim defendeu que discutir questão racial dentro da escola é condição para que o ensino tenha qualidade e para enfrentar desigualdades acumuladas ao longo da história. O que é a APOIE Escola, quem a mantém, se tem vínculo com a rede estadual e em quantas unidades atua são dados ausentes. Também não há número de participantes nem indicação de que haverá uma segunda edição — o ordinal no nome sugere início de série, mas o material não promete continuidade.
Aprendi sobre as dificuldades enfrentadas pelas pessoas negras e a urgência da luta por igualdade. Foi um momento de muito aprendizado
O relato é de um estudante da Educação de Jovens e Adultos (EJA) que participou do fórum.
Cariacica: quebra-cabeças e cartas para contar a luta contra a escravidão
Na EEEF Stellita Ramos, em Cariacica, os alunos não receberam material pronto: produziram os próprios jogos. Saíram das turmas quebra-cabeças e card games — jogos de cartas — com figuras históricas que enfrentaram a escravidão no Brasil. A distinção importa para entender o alcance da atividade: quem monta o jogo precisa antes decidir quem entra nele, o que cada carta informa e em que ordem os fatos se encaixam.
O trabalho foi orientado pela professora de História Laila Lua Pissinati e integra o Projeto Interdisciplinar Eu Quero Passar Com Minha Cor e a Missão Pedagógica Preta, da SRE de Cariacica. Pela avaliação da professora, reproduzida em discurso indireto, a atividade levou a turma a pensar sobre valores e sobre o peso de ações históricas na vida de cada um.
Foi muito mais fácil entender como as coisas aconteceram na linha do tempo, além de ajudar na fixação do conteúdo.
Quem diz é um estudante do 8º ano do Ensino Fundamental. O material registra intenção de levar o formato a outras disciplinas, sem dizer quais, quando nem se a decisão cabe à escola ou depende de outra instância.
Oito pontos que o material oficial não responde
O material se ocupa do propósito de cada atividade. Some dali, quase por inteiro, o tipo de dado com que se dimensiona o que foi feito ou se cobra o que vem depois:
- quantos estudantes participaram de cada uma das quatro iniciativas;
- em que dias ocorreram as ações da Serra, de Guarapari e de Cariacica — só o fórum tem data divulgada;
- o que significa a sigla ERER, que dá nome ao evento de Guarapari;
- o que é a SRE citada em Cariacica e o que a Missão Pedagógica Preta prevê;
- quem é a APOIE Escola e que relação mantém com a rede estadual;
- em que município fica a EEEM Zuleima Fortes Faria, presente no evento de Guarapari;
- quantas outras escolas da rede fizeram trabalho semelhante no mesmo período;
- se alguma dessas atividades se repete em 2025, com qual verba e sob qual coordenação.
Falta ainda um dado que separa projeto pedagógico de política de proteção: nenhuma das quatro descrições diz se a unidade tem rito para registrar e apurar caso concreto de racismo ocorrido dentro da escola — quem recebe a queixa, em quanto tempo responde e o que acontece depois.
Convém lembrar quem assina o texto: é peça de comunicação institucional, produzida por quem realizou as atividades. Ninguém de fora mediu os resultados, e não há uma palavra de pais, de grêmio estudantil ou de organização do movimento negro sobre o que sobrou dos projetos depois de novembro. Quando um documento assim não registra crítica, o que se mede é o alcance da apuração — não a opinião de quem participou.
Onde a rede age em bloco, e onde depende de cada escola
A diferença entre iniciativa de escola e regra de rede fica clara quando se olha para o que veio antes. Quatro meses antes destes projetos, em julho de 2024, a rede estadual passou a contar com um protocolo antirracista da Sedu para as competições esportivas escolares — um documento com procedimento definido, válido para todas as unidades naquela situação. É o oposto do que se vê aqui: nas quatro ações de novembro, o que existe é iniciativa local, sem norma comum por trás.
O tema também não parou em 2024, embora nenhuma continuidade tenha sido anunciada para estas seis escolas. Meses depois, em junho de 2025, uma escola de Alegre levou o debate sobre educação antirracista aos estudantes, em episódio posterior e independente destes. E em setembro de 2025, num formato distinto de tudo o que se descreve acima, uma escola passou a manter um grupo fixo de batalha de rima — atividade que se repete no calendário, e não projeto com data para encerrar. Para quem acompanha o assunto, a comparação é útil: uma coisa é a jornada de novembro, outra é o trabalho que fica de pé o ano inteiro.
Por que os alunos aparecem aqui sem nome
Quatro alunos da educação básica aparecem com nome completo no material oficial. Aqui, não: cada um entra pelo que cursa — 1ª série do Ensino Médio, 8º ano do Ensino Fundamental, turma da EJA. Nenhuma fala foi encurtada para caber nessa troca; elas seguem exatamente como foram ditas.
É critério fixo do portal, não decisão tomada caso a caso. Bastam três informações — como a pessoa se chama, onde estuda e em que ano — para chegar a um adolescente específico num grupo de poucas dezenas. A diferença é que essa combinação continua ao alcance de qualquer busca muito tempo depois de a turma se desfazer, e quem topar com ela pode não ter interesse algum em projeto escolar. A troca não custa nada ao leitor: ele segue sabendo o que cada escola fez e quem falou o quê. Já as professoras, as pedagogas, a coordenação e a psicóloga da entidade parceira continuam identificadas — assinam profissionalmente aquilo que conduziram, e é por essa porta que se pergunta ou se cobra.
Direto Notícias Imparcial, Transparente e Direto!

