O pacote de obras em Castelo apresentado pelo Governo do Estado nesta sexta-feira (14) mistura o que já está pronto com o que ainda não saiu do papel. Foi inaugurado o calçamento rural da Estrada do Cruzeiro, na Comunidade do Forno Grande, na microrregião Central Sul. Na mesma agenda, o governador Renato Casagrande autorizou o início da construção da nova unidade da Escola Municipal Frei José Osés, no Centro, e assinou a Ordem de Serviço da ponte sobre o Rio Castelo, no bairro Esplanada. Autorizar não é construir: nenhuma dessas duas obras havia começado no dia do anúncio.
O material divulgado pelo Governo do Estado traz ainda entregas que o anúncio do dia deixou em segundo plano: o muro de contenção do bairro Independência e a ponte da Comunidade de Santa Terezinha. Nenhuma das duas vem acompanhada de valor, prazo, dimensão ou nome de quem executou.
As obras em Castelo, item por item
- Calçamento rural da Estrada do Cruzeiro, na Comunidade do Forno Grande — entregue. Inaugurado na sexta-feira (14) e integrante do Programa de Calçamento Rural, que o Governo do Estado apresenta como iniciativa para facilitar o deslocamento da população rural e o escoamento da produção agrícola. O Estado doou 6 mil metros quadrados de blocos intertravados e 2,3 mil metros quadrados de meio-fio, num investimento de R$ 383 mil pela Secretaria da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag). A instalação do material ficou por conta do município de Castelo.
- Muro de contenção no bairro Independência — entregue. O material informa apenas que a obra foi entregue, sem qualquer outro dado.
- Ponte na Comunidade de Santa Terezinha — entregue. Mesma situação: entrega declarada, sem valor, sem extensão e sem identificação de quem construiu.
- Nova unidade da Escola Municipal Frei José Osés, no Centro — autorizada a começar. Estão previstos R$ 8,68 milhões do Funpaes, com obra a cargo da Prefeitura Municipal, previsão de conclusão em maio de 2026 e 22 salas de aula no projeto. O material não diz qual documento formaliza essa autorização nem se a empresa executora já está definida.
- Ponte sobre o Rio Castelo, no bairro Esplanada — Ordem de Serviço assinada. Serão investidos mais de R$ 4 milhões, com prazo de conclusão de 300 dias e execução do Departamento de Edificações e de Rodovias do Espírito Santo (DER-ES). Ordem de Serviço é o documento que libera o começo dos trabalhos — no dia em que foi assinada, não havia nada construído.
Fora do pacote do dia, a fala do governador menciona outras estruturas em estágios distintos: um muro de contenção na saída da cidade, sem etapa declarada, e uma ponte no Caxixe Frio, que ele diz que ainda será inaugurada. O material não esclarece se esse muro da saída da cidade é o mesmo entregue no bairro Independência. Se for, a mesma obra aparece duas vezes no texto oficial — e quem lê corrido conta duas onde há uma.
Não existe total investido, e a maior cifra não é obra pronta
O texto oficial traz os valores de R$ 383 mil, R$ 8,68 milhões e mais de R$ 4 milhões. Somá-los produziria um número que o Governo do Estado em momento algum declarou, por motivos que o próprio material deixa claros:
- os itens estão em estágios diferentes — apenas os R$ 383 mil correspondem a serviço já concluído;
- duas das entregas do dia, o muro do Independência e a ponte de Santa Terezinha, vêm sem cifra nenhuma;
- o valor da ponte da Esplanada é apresentado como mais de R$ 4 milhões, uma cifra aberta e não um preço fechado;
- os R$ 383 mil são o custo do material doado pelo Estado, e não o custo da obra: a instalação coube ao município, e quanto a Prefeitura gastou nela não foi divulgado.
O resultado é o oposto do que a leitura corrida sugere. A maior cifra do dia, os R$ 8,68 milhões da escola, não é obra concluída — é autorização de início. E a única obra pronta com valor divulgado é justamente a mais barata do pacote.
Quem entrega não é quem paga, e nem sempre quem constrói
No calçamento rural, o Estado bancou os blocos intertravados e o meio-fio; a mão de obra da instalação coube ao município de Castelo. Na escola, o prédio é de uma unidade municipal, o dinheiro é estadual e a execução também é da Prefeitura. Na ponte da Esplanada, quem executa é o DER-ES — mas o material usa a construção serão investidos, sem sujeito: não há no texto uma frase que diga de qual órgão ou de qual fonte de recurso sai esse dinheiro. O mesmo vale para o muro do Independência e para a ponte de Santa Terezinha, entregues em voz passiva, sem que se saiba quem pagou nem quem construiu.
A distinção não é detalhe burocrático: ela determina a quem o morador cobra atraso, defeito ou manutenção depois que a solenidade acaba. Nas obras em Castelo divulgadas nesta agenda, o balcão de cobrança muda de item para item, e o material não organiza essa informação em nenhum ponto.
A justificativa da ponte, na fala do governador
A obra da ponte da Esplanada é de adaptação às mudanças climáticas. Visa enfrentar os alagamentos nesse trecho do rio, pois vamos dar mais vazão à água. Temos ainda um muro de contenção na saída da cidade e a ponte que vamos inaugurar no Caxixe Frio para suportar mais água durante as chuvas.
A avaliação é do governador Renato Casagrande, que também lembrou a Estação de Tratamento de Esgoto de Castelo, inaugurada em visita anterior ao município.
O material descreve a estrutura da ponte, mas não demonstra o efeito prometido: não há no texto o histórico de alagamentos do trecho nem o cálculo de quanto a vazão aumenta. A ficha divulgada informa 45 metros de extensão, fundação em estaca raiz com dois encontros e um apoio central, pistas de rolamento de sete metros, dois metros de largura de passeio, guarda-corpo, defensas metálicas nos encontros, substituição e melhorias na pavimentação e na drenagem ao longo de 140 metros, além de sinalização horizontal e vertical. A ponte dá acesso à ligação das rodovias ES-166 e ES-379.
Os dois números de extensão medem coisas diferentes: os 45 metros são o vão da ponte; os 140 metros são o trecho de pavimentação e drenagem no entorno. Não se somam.
954 alunos é capacidade projetada, não vaga nova
O Governo do Estado informa que a nova unidade da Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental (EMEIF) Frei José Osés beneficiará 954 alunos e terá 22 salas de aula, além de laboratórios, biblioteca, auditório e refeitório. Esse número é a capacidade do prédio projetado. O material não informa quantos estudantes a escola atende hoje — e sem esse dado não dá para saber quanto dos 954 é vaga nova e quanto é transferência de quem já estuda na unidade atual. O próprio governador se refere a ela como escola tradicional, o que indica um equipamento em funcionamento, não uma criação do zero.
Vale notar ainda que a mesma escola aparece no texto oficial sob três formas: Escola Municipal Frei José Osés, no primeiro parágrafo; Escola Frei José, na fala do governador; e Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental (EMEIF) Frei José Osés, no bloco de investimentos. É uma unidade só, e não três entregas distintas.
O fundo que paga a obra tem nome de outra etapa de ensino
O recurso da escola vem do Fundo Estadual de Apoio à Ampliação e Melhoria das Condições de Oferta da Educação Infantil (Funpaes). Pelo próprio nome, é um fundo estadual voltado a ampliar a oferta de educação infantil — a etapa de creche e pré-escola. A unidade financiada, porém, é de Ensino Infantil e Fundamental, ou seja, atende também estudantes fora daquela etapa. O material não explica como o fundo cobre as duas. O nome oficial fica registrado exatamente como o Governo do Estado o publicou.
O que o material oficial não informa
- quantos metros ou quilômetros da Estrada do Cruzeiro receberam o calçamento, e quantas famílias ou produtores rurais usam a via;
- quanto o município de Castelo gastou para instalar os blocos e o meio-fio doados pelo Estado;
- valor, prazo, executor e dimensões do muro de contenção do Independência e da ponte de Santa Terezinha;
- de qual órgão ou fonte de recurso saem os mais de R$ 4 milhões da ponte da Esplanada;
- quantos alunos a Escola Municipal Frei José Osés atende atualmente, e se as 22 salas de aula ampliam ou apenas substituem a estrutura existente;
- qual documento formaliza a autorização da escola e se há empresa contratada para tocar a obra;
- a data em que cada obra autorizada começa — o prazo de 300 dias da ponte só corre a partir de um marco que não foi divulgado;
- se o muro de contenção citado pelo governador na saída da cidade é o mesmo entregue no bairro Independência;
- o custo total do pacote, que o material não apresenta em momento algum.
Um lado só
Todo o conteúdo parte do Governo do Estado, que aqui é simultaneamente quem financia, quem inaugura e quem divulga. Não há no texto morador da Comunidade do Forno Grande, do bairro Independência ou de Santa Terezinha; não há produtor rural que use a Estrada do Cruzeiro; não há engenheiro ou técnico sem vínculo com as obras; e não há voz de oposição. O prefeito de Castelo, João Paulo Nali, e o deputado estadual Adilson Espindula aparecem apenas como presentes na solenidade, sem declaração registrada. Ausência de crítica no material oficial não equivale a ausência de crítica.
As demais falas divulgadas — do secretário de Estado da Agricultura, Enio Bergoli, do vice-governador Ricardo Ferraço e do diretor-presidente do DER-ES, José Eustáquio de Freitas — tratam de expectativa e de balanço da gestão, sem acrescentar dado verificável sobre as obras. Ferraço atribuiu à Cesan a entrega da estação de tratamento de esgoto lembrada pelo governador, o que reforça que quem aparece na inauguração nem sempre é quem executou o serviço.
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