Seis cães em maus-tratos e outro morto em Vitória — Direto Notícias

Seis cães em maus-tratos e outro morto em Vitória

O que se lê a seguir é o registro de uma diligência de maio de 2025, e tudo o que se sabe sobre ela vem de uma única nota oficial daquela semana. Naquela quarta-feira (07), equipes da Polícia Civil do Espírito Santo (PCES), por meio da Delegacia Especializada de Proteção ao Meio Ambiente (DEPMA), estiveram no bairro Maruípe, em Vitória, atrás de uma denúncia de maus-tratos a animais. No endereço, encontraram seis cachorros em situação de maus-tratos — e outro cão, já morto.

O cão que a conta de seis não inclui

A distinção é do próprio material oficial e não é detalhe de redação: são seis cachorros vivos, em situação de maus-tratos, e mais um encontrado sem vida no mesmo endereço. Quem lê apenas o número seis entende que todos os animais foram achados com vida, e não foi isso que a equipe relatou.

“Pelo que verificamos, ele estava em um cômodo trancado e teria morrido de fome e sede. Nós chegamos até esse local após uma denúncia. A colaboração da população, por meio de denúncias, é fundamental para o êxito das investigações. Informações repassadas de forma segura e anônima muitas vezes são decisivas para que possamos agir com agilidade e precisão”

Marcelo Nolasco, delegado titular da DEPMA, deu esse relato e, na mesma fala, emendou nele um pedido de colaboração a quem mora perto — a parte da declaração que o fim deste texto retoma.

A nota não diz se os seis cães saíram do endereço

É a pergunta que vem logo depois, e o material oficial não a responde. As palavras resgate, retirada e encaminhamento não aparecem uma única vez na nota. Ela descreve o que a equipe encontrou e para por aí: não informa se os animais foram levados do local, quem passou a responder por eles, se receberam atendimento veterinário, nem qual seria a destinação seguinte.

E não diz o contrário disso. A nota não afirma que os cães permaneceram onde estavam — ela apenas não trata do assunto. Registrar a lacuna é diferente de concluir que nada foi feito. Nenhum canal de acolhimento ou de adoção foi divulgado no material, de modo que, por esta nota, quem quisesse ajudar não teria a quem se dirigir a respeito destes seis animais.

Que essa informação aparece quando o órgão decide dá-la, o próprio noticiário policial capixaba mostra: em ocorrência distinta, cerca de seis meses depois, em outro município e envolvendo outras pessoas, a Polícia Civil informou para onde foram levados os animais retirados de um apartamento em Vila Velha. Ali a destinação foi divulgada; aqui, não.

Três instituições no mesmo endereço, uma só com papel descrito

A nota apresenta a diligência como uma ação da PCES, por meio da DEPMA, em conjunto com a Prefeitura de Vitória e com a CPI dos Maus-Tratos contra os Animais da Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales). São três instituições de esferas distintas — polícia estadual, executivo municipal e uma comissão do Legislativo estadual —, e por isso o arranjo não é o caso, comum em notas policiais, de uma mesma corporação distribuindo tarefas entre as próprias unidades.

O que o material não faz é dizer o que cada uma fez ali. A função da polícia está descrita: recebeu a denúncia, foi ao local, fala pelo caso e conduz o inquérito. Da Prefeitura de Vitória, a nota informa a participação e nada mais. Da comissão parlamentar, também não. Uma CPI é um instrumento de investigação do Legislativo, que colhe depoimentos, requisita documentos e produz relatório — não é órgão de fiscalização administrativa nem de diligência policial.

Isso não indica irregularidade alguma: a presença pode ser inteiramente rotineira e legítima. O ponto é outro — o leitor termina a nota sem saber se os dois participantes atuaram na verificação, acompanharam a equipe ou apenas foram informados do resultado.

O par formado pela delegacia especializada e por uma prefeitura, esse sim, já tinha precedente: três meses antes desta visita, 21 animais foram retirados de um ferro-velho na Serra num caso apurado do mesmo modo — outro município, outras pessoas, sem relação com este.

A família encontrada no local e a entrada da Polícia Federal

O trecho mais pesado da nota não está no começo dela. Além do que encontrou junto aos animais, a equipe constatou que uma família morava no endereço e levantou a hipótese de que essas pessoas estivessem em condição análoga à escravidão. O termo é o do material oficial, e ele aparece ali no condicional: o texto registra uma suspeita erguida na hora, não uma conclusão.

“Após verificar essa situação, acionamos a Polícia Federal (PF), que tem atribuição para investigar e apurar esse tipo de crime. Um delegado se deslocou até o local e fará toda a análise da situação”

Nolasco explicou assim por que essa parte do caso mudou de mãos no mesmo dia. A partir de uma única visita, portanto, correm duas frentes distintas: os maus-tratos aos animais, com a polícia estadual, e a suspeita sobre as condições em que aquelas pessoas viviam, com a federal.

Sobre a segunda frente, a nota não informa quantas pessoas eram, se foram atendidas ou retiradas do imóvel e a que conclusão chegou a análise do delegado federal. Nem traz atualização posterior sobre isso.

Identificado não é indiciado, e apurar não é julgar

Sobre quem responde pelos animais, a nota diz três coisas e só três: a pessoa não estava no local, foi identificada e a conduta será apurada no curso do inquérito policial. Esse é o teto do que se pode afirmar hoje, e por isso não há nome nem endereço dessa pessoa neste texto.

O material não menciona prisão, flagrante, autuação, mandado nem termo circunstanciado, e não nomeia nenhum enquadramento penal para os maus-tratos. A diferença entre as etapas costuma ser confundida, e aqui ela decide o que se pode dizer: o inquérito é a fase em que a polícia apura e reúne elementos; a acusação formal é ato posterior, de outro órgão; e a condenação, se houver, vem depois de processo e defesa. Identificar alguém é saber quem é — não equivale a indiciar, acusar ou condenar.

A nota também não informa como a equipe entrou no imóvel: não diz se houve autorização de quem morava ali, se a situação foi tratada como flagrante ou se existia ordem judicial. Ela situa o endereço em Maruípe, mas não diz de quem é o imóvel.

O pedido de denúncia veio sem o caminho para denunciar

Na mesma fala em que descreve o cão morto, o delegado atribui à colaboração da população o êxito das investigações e destaca o valor da informação prestada de forma anônima. A nota oficial, porém, não traz um telefone, um endereço, um formulário ou qualquer outro canal para quem quiser relatar uma situação semelhante. O pedido está no texto; o caminho para atendê-lo, não.

O canal estadual de denúncia anônima com uso documentado nesse tipo de caso é o Disque-Denúncia 181: um balanço da própria polícia contabilizou 1.455 denúncias de maus-tratos a animais recebidas por esse número no Espírito Santo, divulgado duas semanas depois desta diligência. A característica do serviço é a mesma que o delegado destaca na declaração: não é preciso se identificar para relatar o que se viu.

As informações reunidas aqui vêm da nota divulgada pela Polícia Civil do Espírito Santo (PCES) sobre a diligência daquela quarta-feira (07).

Compartilhe essa publicação, clicando nos botões abaixo:

Sobre Redação

Portal Direto Noticias - Imparcial, Transparente e Direto | https://diretonoticias.com.br | Notícias de Guarapari, ES e Brasil. Ative as notificações ao entrar e torne-se um seguidor. Caso prefira receber notícias por email, inscreva-se em nossa Newsletter, ou em nossas redes:

Veja Também

PCES Age Agora Contra Crime Organizado em Todo o Espírito Santo

A Polícia Civil do Espírito Santo intensificou, nesta semana, uma série de operações simultâneas em …