Imagem de divulgação da campanha Maio Amarelo em escola estadual de Guarapari

Maio Amarelo em Guarapari: alunos testaram óculos de álcool

A palestra contada abaixo aconteceu na quarta-feira, 28 de maio de 2025, e o material oficial não anuncia nenhuma repetição: já se passou mais de um ano. Naquele dia, a Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Zuleima Fortes Faria, em Guarapari, recebeu representantes do Departamento Estadual de Trânsito do Espírito Santo (Detran/ES) para uma atividade da campanha nacional Maio Amarelo. Foi essa a ação do Maio Amarelo em Guarapari divulgada pela rede estadual de ensino naquele mês — organizada dentro da própria escola pela coordenadora do curso técnico em Segurança do Trabalho, a professora Tatiane da Silva, sob o tema Mobilidade Humana, Responsabilidade Humana.

O Maio Amarelo em Guarapari, na prática: ouvir, ver vídeos e vestir os óculos

O comunicado oficial trabalha com palavras largas — palestra educativa, momento de reflexão, sensibilização. Debaixo delas há duas ações concretas, e são só duas. Na primeira, os estudantes assistiram a uma exposição que juntou números, vídeos e cenas de rua para mostrar como o que decide um motorista, um ciclista ou um pedestre atinge quem está em volta. Na segunda, eles vestiram os óculos de um circuito simulador de alcoolemia, montado ali como atividade prática.

A distinção não é implicância de redação. Ela separa o que a nota descreve do que a nota apenas deseja: conscientização e formação de cidadãos responsáveis são o objetivo declarado por quem organizou, não um resultado medido. Palestra realizada é atividade, e o texto oficial não apresenta indicador nenhum — não há aplicação de questionário, não há acompanhamento posterior, não há qualquer aferição do que aquela turma sabia sobre trânsito antes e depois do dia 28.

Os óculos que imitam álcool, sono e droga — e o desequilíbrio com a aluna parada

O circuito simulador de alcoolemia é a parte da ação que sai do terreno do discurso. São óculos especiais usados para imitar, em quem está sóbrio, aquilo que o álcool, uma substância entorpecente ou o sono fazem com o corpo. Pelo relato oficial, o que os alunos notaram ao vesti-los recai sobre três pontos: a coordenação dos movimentos, o equilíbrio e o tempo que se leva para reagir.

Convém marcar o que o material não descreve: não há menção a nenhum veículo conduzido, a pista, a simulador de direção ou a qualquer teste ao volante. O exercício é com os óculos. E o detalhe mais forte do depoimento publicado é exatamente esse — a perda de coordenação apareceu sem que a estudante saísse do lugar. Uma aluna do 3º ano do curso técnico em Segurança do Trabalho contou assim:

A palestra do Maio Amarelo com o Detran foi muito importante. Entendi que no trânsito, cada um tem responsabilidade pela segurança de todos. Usar os óculos que simulam o efeito do álcool e da sonolência me mostrou como é perigoso dirigir nessas condições. Foi impressionante sentir como nossa coordenação e equilíbrio ficam prejudicados, mesmo estando parada. Isso me fez entender o quanto é perigoso dirigir nessas condições. Saio dessa ação com mais consciência sobre a minha responsabilidade no trânsito e com o compromisso de sempre agir com cuidado e respeito. Acho que todos deveriam passar por essa experiência.

Quem organizou tem nome; quem veio do Detran/ES, não

Tatiane da Silva coordena o curso técnico em Segurança do Trabalho e foi ela quem puxou a atividade para dentro da escola. Falando ao canal oficial da rede estadual sobre o dia, ela resumiu o que viu:

Foi muito gratificante acompanhar a participação ativa dos alunos durante a palestra do Maio Amarelo, especialmente com o Detran como parceiro nessa ação tão importante. O tema ‘Mobilidade Humana, Responsabilidade Humana’ é fundamental para que nossos jovens entendam que o trânsito é um espaço coletivo, onde cada um tem um papel essencial para garantir a segurança de todos

Sobre a parte prática, a professora voltou ao assunto no mesmo material:

Ver os alunos experimentando os óculos e percebendo, na prática, os riscos da combinação de álcool, drogas e direção reforçou a mensagem de forma clara e duradoura. Acredito que essa experiência contribui significativamente para a formação de cidadãos mais conscientes, responsáveis e preparados para agir com empatia no trânsito

Do outro lado da parceria, o texto é impessoal do começo ao fim: fala em representantes do Detran/ES e para por aí. Não diz quantos foram, de que setor vieram, que cargo ocupam, quem conduziu a apresentação nem quem operou o circuito dos óculos. O tema da campanha também chega pronto — Mobilidade Humana, Responsabilidade Humana aparece duas vezes sem que ninguém explique quem o definiu, a que ele obriga ou o que ele pede de uma escola.

Nenhum número de aluno, nenhum dado de trânsito de Guarapari

O comunicado é curto e deixa de fora justamente o que dimensionaria a ação:

  • Quantos estudantes participaram. Não há total de participantes em nenhuma linha — nem estimativa, nem número de turmas presentes.
  • Quais séries foram alcançadas. A única que aparece é o 3º ano, e aparece por acaso: é a série de quem deu o depoimento. O texto não diz se a palestra foi só para o curso técnico em Segurança do Trabalho ou para a escola inteira.
  • Quanto tempo durou e onde foi. Nem horário, nem duração, nem o espaço da escola em que a atividade ocorreu.
  • O que ficou depois. Nenhuma menção a cartilha, folheto, atividade em sala, trabalho avaliativo ou qualquer desdobramento na semana seguinte.
  • Números de trânsito. O material não traz um único dado de acidentes, feridos ou mortes — nem de Guarapari, nem do Espírito Santo. Também não explica o que a campanha nacional se propõe a fazer, quem a promove ou desde quando ela existe.
  • Se houve outra edição. O texto não informa se a escola repetiu a atividade em outro ano, nem se o Detran/ES levou o mesmo circuito a outras unidades de Guarapari.

O que faltou a quem lê: nenhum telefone, nenhum endereço, nenhum pedido

Matéria sobre segurança no trânsito costuma fechar com o que fazer. Esta não fecha, porque a origem não deu com que fechar. O comunicado não informa telefone, site, formulário ou setor a que outra escola de Guarapari possa recorrer para pedir a mesma ação; não diz se o circuito simulador de alcoolemia é itinerante, quantas unidades ele atende ou mediante qual solicitação; e não indica onde uma família encontra orientação sobre álcool, sono e direção. Preencher essas linhas com um número de telefone plausível seria fabricar serviço — e serviço fabricado manda gente ao balcão errado. A ausência fica registrada como ela é: a maior falha do material.

Por que o nome da aluna não está neste texto

A nota oficial traz o nome completo da estudante que falou. Aqui ele não entra. Um depoimento sobre uma palestra não vale mais nem menos com sobrenome; o que muda é o que passa a ficar indexado, por anos, no nome de alguém que ainda cursa o ensino médio. E o cruzamento é curto: uma escola, um curso técnico, uma série — bastaria isso para apontar uma carteira específica dentro de uma turma. A fala foi mantida palavra por palavra, sem corte por dentro, e o que saiu foi só a assinatura. O nome da professora permanece porque ela responde profissionalmente pela iniciativa que organizou.

Duas vozes, ambas de dentro da atividade

Tudo o que se sabe sobre aquela quarta-feira veio de um comunicado da própria rede de ensino, e as duas pessoas ouvidas nele estavam na atividade: a professora que organizou e uma aluna que participou. Não foram consultadas as famílias, nem profissionais que estudem educação para o trânsito fora da escola, nem alguém capaz de dizer se uma palestra de um dia altera comportamento. O Detran/ES, apesar de citado como parceiro, não aparece em nenhuma declaração. Isso não indica que alguém tenha criticado a ação — indica que o formato do texto oficial não abriu porta para ouvir ninguém de fora dela.

A escola voltou ao mesmo tipo de prática seis semanas depois

A atividade dos óculos não ficou isolada no calendário daquela turma. Em julho de 2025, já fora do Maio Amarelo, estudantes do mesmo curso técnico dessa escola foram ver, numa empresa de treinamento, como se trabalha em altura com equipamento de proteção — episódio posterior a este, com outro tema, mas com a mesma lógica de tirar a segurança do papel.

Dois dias antes da palestra, na mesma cidade, uma turma de curso técnico de outra escola de Guarapari foi acompanhar de perto a linha de produção de uma fábrica de chocolates, atividade independente desta e anterior a ela por 48 horas.

E o próprio Detran/ES já havia levado educação de trânsito para fora da sala de aula antes disso: em outubro de 2024, o órgão ofereceu um curso gratuito de pilotagem de motocicleta dirigido a mulheres já habilitadas, com vagas esgotadas naquele mês e sem nova turma anunciada desde então. São iniciativas separadas, em municípios diferentes e sem ligação entre si além do órgão que as promoveu.

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