Imagem que ilustra a ida de estudantes de Boa Esperança à Festa Internacional da Palavra, em Itaúnas.

Escola rural de Boa Esperança foi à 2ª Festa da Palavra

Turmas do Centro Estadual Integrado de Educação Rural (CEIER) de Boa Esperança deixaram a sala de aula e foram até o distrito de Itaúnas, em Conceição da Barra, para acompanhar a 2ª Festa Internacional da Palavra. A ida integrou um projeto interdisciplinar da própria escola, montado em torno da leitura, da escrita e da valorização da diversidade cultural. O que a divulgação oficial descreve é presença, não disputa: não há nela apresentação de trabalho, concurso, seleção nem premiação de estudante algum. A viagem também já passou — o texto da Sedu é de 29 de maio de 2025 e situa a ida apenas na semana anterior, sem informar em que dias a Festa aconteceu.

O que os alunos fizeram na Festa Internacional da Palavra

A resposta que o material sustenta é curta: eles assistiram e escolheram por onde andar. A programação citada enfileira mesas-redondas, contação de histórias, slam, shows musicais e lançamentos de livros. Os professores, ouvidos no mesmo texto, somam a essa lista palestras, atividades interativas repartidas entre tendas e obras de autores locais. O detalhe que mais informa sobre o desenho do dia vem em seguida: cada estudante escolheu em que tendas queria entrar, pelo próprio interesse, e o material registra que a circulação se deu de forma autônoma, sem roteiro fechado pela escola.

Duas ressalvas cabem aqui. A primeira é que as duas listas do texto não se encaixam: uma fala em mesas-redondas, a outra em palestras, e o material não diz se são a mesma atividade chamada de dois jeitos ou coisas distintas. A segunda é que nenhum dos formatos é explicado. Quem nunca ouviu falar de slam — nome que se dá às disputas de poesia falada, em que o autor apresenta o próprio texto diante de plateia — fica sem saber o que havia naquela tenda, porque o aviso apenas enfileira os nomes.

O trabalho da escola veio antes e depois da viagem

Separar as etapas muda a leitura do que aconteceu. A parte em que os estudantes produziram alguma coisa não foi a Festa: foi o que veio em volta dela.

  • Antes — em sala, os alunos leram e debateram obras assinadas por autores capixabas, escolhidas pelo enfoque na diversidade étnico-racial.
  • Durante — visita ao evento, com escolha livre das tendas e sem nenhuma tarefa descrita no material.
  • Depois — de volta à escola, uma rodada de reflexões e a criação de produções digitais, destinadas a repartir com os colegas o que a turma trouxe da viagem.

O aviso usa o passado para as produções digitais, ou seja, elas foram feitas. O que ele não diz é que forma tomaram — vídeo, texto, podcast, mural on-line —, se chegaram a ser exibidas, para quem, e se ficaram guardadas em algum lugar acessível a quem não estuda ali. O destinatário declarado é interno: a comunidade escolar.

Quem foi: turmas multisseriadas do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental e as três séries do Ensino Médio, acompanhadas por quatro professores da área de Linguagens — Andreia Tambaroto Bitencourt, Aline Mendes da Costa, Gisleangela do Carmo Neris e Marcel Merlo Mendes. Turma multisseriada é aquela que reúne, na mesma sala e com o mesmo professor, estudantes de mais de um ano escolar; o arranjo aparece no texto sem uma linha de explicação, embora seja justamente ele que distingue a rotina de uma escola do campo. E vale reparar no que falta: o material descreve as turmas pela série que cursam e nunca por quantas pessoas são. Não há número de alunos, número de turmas nem número de ônibus. Somar séries não produz esse dado.

Internacional no nome, sem um único nome no texto

A lacuna mais visível do aviso é de nomes próprios do lado da literatura. O evento se chama Festa Internacional da Palavra e o texto não registra um convidado estrangeiro, um país, uma delegação de fora ou uma obra traduzida. Também não nomeia nenhum dos autores capixabas lidos na preparação, nenhum dos autores locais encontrados nas tendas, nenhum livro lançado e nenhum poeta ouvido no slam.

Isso tem consequência prática. Um professor de outra escola que leia o material atrás de repetir a experiência sai sem saber o que os colegas colocaram na mão dos alunos. E o leitor comum sai sem saber por que a Festa se apresenta como internacional. Preencher essas lacunas aqui — citando obras, autores ou países — seria escrever por conta própria sobre um evento que o texto oficial não descreve.

Falta também a escala, e sem escala não há tamanho. O aviso não diz quem organiza a Festa, com que apoio, quantas escolas ou redes estiveram lá, de quantos municípios, se a entrada era paga e o que ocorreu na primeira edição — informação que o próprio do nome pressupõe.

As falas que o aviso traz, e por que os nomes ficam fora daqui

O texto oficial ouve duas estudantes e um estudante, todos da 1ª série. Elas destacaram o ganho de aprendizado em arte e cultura, e o aviso resume a avaliação em discurso indireto, sem transcrever o que disseram. Só ele aparece com declaração literal:

Participar da Festa da Palavra foi um momento especial. Voltei a sonhar com a escrita e fortaleceu o desejo de continuar meu sonho.

Quem diz é um estudante da 1ª série, que segundo o aviso saiu do evento disposto a voltar a um sonho antigo, o de virar poeta.

A Sedu publica os três nomes completos, com a série. Aqui eles não entram, e a razão é de aritmética, não de pudor. Uma série do Ensino Médio numa escola do campo cabe numa sala; some o nome à série, à escola e ao município e o conjunto deixa de descrever um grupo e passa a apontar um adolescente, num registro que buscador nenhum apaga depois. Nada se perde com a troca: a fala vai inteira, sem corte por dentro, e a função basta para o leitor saber quem fala. O caso seria outro se o nome fosse o próprio fato — estudante eleita representante, premiada em disputa pública, escolhida em seleção. Não é o que ocorre neste material: aqui o nome só ilustra uma opinião sobre um passeio de estudo. Os quatro professores continuam identificados, porque assinaram a iniciativa no exercício do cargo.

O aviso conta o que houve e cala sobre quase todo o resto

Reunidas, as ausências do texto oficial são estas:

  • quantos estudantes foram, e de quantas turmas;
  • em que dias a Festa ocorreu e quanto tempo a escola permaneceu no local;
  • quem organiza o evento, desde quando e com que apoio;
  • quantas escolas, de que redes e de que municípios estiveram lá;
  • se a entrada era franca e se as famílias podiam acompanhar;
  • que obras e que autores foram lidos na preparação e encontrados nas tendas;
  • o que sustenta o Internacional do nome do evento;
  • como a viagem foi custeada e transportada;
  • em que suporte ficaram as produções digitais e onde elas podem ser vistas;
  • se está prevista uma terceira edição da Festa — e, se estiver, quando e onde.

Sobre esta última, convém ser exato: o texto não anuncia uma próxima edição, o que é diferente de dizer que não haverá. Ele simplesmente não trata do assunto, e o silêncio de um comunicado de divulgação não decide o futuro de um evento. Quem quiser a data da 3ª edição terá de perguntar a quem organiza — que o material, aliás, também não nomeia.

Há ainda um ponto sobre a origem do relato. Todo o texto é comunicação da rede estadual sobre uma escola da rede estadual, com falas colhidas dentro da própria escola: professores e alunos que estiveram na viagem. Nenhuma família, nenhuma pessoa da organização do evento e ninguém de fora avalia o que se fez. Isso não desmente uma linha do que está escrito. Apenas fixa o alcance do documento: ele prova que a atividade aconteceu, não que ela produziu o que promete produzir — e o próprio aviso, ao falar em gosto pela literatura, comunicação oral e escrita e experimentação artística, não apresenta um indicador sequer para nenhuma das três.

Ler, escrever e cruzar disciplinas: o roteiro já rodou em outras escolas

A preparação com foco étnico-racial não nasceu neste projeto. Cerca de quatro meses antes da viagem, no início de 2025, a rede estadual havia distribuído às escolas um calendário de datas indígenas e afro-brasileiras para orientar o trabalho do ano — material anterior a esta atividade, que ajuda a entender por que a leitura preparatória tomou esse rumo.

O formato de amarrar várias disciplinas a uma única atividade também é rotina na rede, e não invenção de uma escola só. Em dezembro de 2024, outra escola estadual cruzou o ensino de língua inglesa com conteúdo de história e de geografia num mesmo projeto. E, em outubro de 2024, a poesia já havia entrado numa escola estadual pela porta da música. Os dois registros são anteriores a esta viagem, tratam de outras turmas e de outros municípios, e nada no material os relaciona ao trabalho do CEIER.

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