Estudantes do 6º ano da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Agostinho Agrizzi, em Vargem Alta, moldaram células com massinha de modelar, EVA e material reciclado para reconhecer com os dedos aquilo que o livro didático mostra em desenho plano. A atividade foi batizada de Célula Tátil: Conhecendo a Vida com as Mãos e nasceu para que o conteúdo de Ciências chegasse também a quem tem baixa visão na escola. A aula é de junho de 2025, há mais de um ano, e nada nela pede providência de quem lê agora: não há inscrição, prazo nem visita a agendar.
Uma célula tátil é o que o nome diz: uma maquete em relevo, em que cada parte ganha forma, textura e espessura próprias, de modo que núcleo, membrana e organelas possam ser distinguidos com a ponta dos dedos, sem depender da cor impressa na página.
Massinha, EVA e reciclado: como a célula tátil foi montada
Antes de montar qualquer coisa, a turma parou para conversar. O material oficial diz que o projeto abriu com discussão em sala: o que muda no dia a dia de quem enxerga pouco, por que respeitar a diferença é assunto da aula de Ciências e para que serve o sistema Braille, além do peso que o tato assume para quem aprende sem contar com a visão. O Braille é um sistema de escrita em pontos em relevo, reconhecidos com a ponta dos dedos, usado para letra, número e notação científica.
Depois vieram as células. Cada uma foi construída com massinha, EVA e recicláveis: objetos que se pegam na mão e que, ao contrário da ilustração colorida do livro, podem ser lidos pelo toque. Dois meses antes, em outra escola da rede, uma turma montou a célula com bolo, brigadeiro e laranja, num modelo que se via, se apalpava e no fim se comia: outra escola, outra turma, mesma saída de tirar a célula da página.
A parte que virou braile aconteceu no AEE
O trecho que menos aparece no título é justamente o que produziu material adaptado. Segundo a professora Ednai Bispo dos Santos, o trabalho teve complemento no Atendimento Educacional Especializado (AEE), com pesquisas e atividades sobre células adaptadas em braile. São duas entregas concretas e diferentes entre si: a maquete tátil serviu à turma inteira, enquanto o texto em relevo é adaptação de conteúdo para quem lê pelo tato.
A sigla AEE atravessa o texto oficial sem uma linha de explicação. É o serviço de apoio que funciona dentro da própria escola e refaz material e estratégia de ensino sob medida, para que o conteúdo do dia chegue a quem não o alcança do jeito em que ele vem pronto — no caso descrito, foi onde as atividades de Ciências viraram material em relevo. Três semanas depois desta aula, um registro de outra unidade da rede mostrou o mesmo serviço em outra frente, quando estudantes atendidos pelo AEE montaram um supermercado dentro da escola, com lista de compras, pesquisa de preço, etiqueta e caixa.
Conversar sobre acessibilidade e instalar acessibilidade são coisas diferentes
Vale separar as duas metades do que foi divulgado, porque o título original as mistura numa palavra só. De um lado houve conversa: inclusão, respeito e diferenças tratados como tema de aula. De outro saíram dois objetos: as células em relevo e as atividades em braile feitas no AEE. As duas metades são legítimas, e nenhuma substitui a outra.
Acessibilidade escolar também se mede por itens que o material não cita uma única vez: rampa, piso tátil, sinalização em relevo, banheiro adaptado, prova ampliada ou adaptada, lupa, software leitor de tela, intérprete e formação continuada de professor. O texto não afirma que a escola deixe de ter essas coisas — ele simplesmente não fala nelas. Para a família que precisa matricular uma criança com deficiência, é essa a informação que decide, e ela não está no material.
Esse projeto foi de grande importância para que os estudantes pudessem compreender a importância da inclusão em sala de aula.
Delcilene Ronchi de Almeida Lopes, uma das duas professoras do AEE que trabalharam ao lado do coordenador, escreveu essa avaliação no próprio texto de divulgação da atividade. A frase descreve compreensão; não apresenta medida dela.
Quantos alunos, quantas turmas, quanto tempo: a divulgação não diz
O professor Iago Valentim de Oliveira, que leciona Ciências e Práticas de Ciências, coordenou o projeto ao lado das duas professoras do AEE. Fora isso, o material oficial deixa em branco quase toda pergunta prática:
- quantos estudantes participaram, e se foi uma turma de 6º ano ou mais de uma;
- quantas aulas o projeto ocupou dentro de junho, e se usou o horário regular de Ciências;
- quanto custaram a massinha, o EVA e a impressão em relevo, e de qual verba saíram;
- quantos estudantes com deficiência a escola atende, e quantos profissionais o AEE tem na unidade;
- se o prédio é acessível, e desde quando;
- se as células em relevo e o material em braile continuaram em uso depois de junho;
- se a experiência foi levada a outras disciplinas, a outras turmas ou a outras escolas do município;
- a que canal a família recorre para pedir adaptação de material didático.
Sobre resultado, o texto oficial afirma compreensão mais concreta do conteúdo e mais envolvimento e cooperação entre os alunos. São observações de quem conduziu a atividade: não há nota, prova comparada, avaliação externa nem retrato de antes e depois. O que está descrito é o que foi feito; o efeito continua sem indicador.
Iniciativa da escola, e não programa de rede
Nada no material aponta programa estadual, meta, calendário comum ou orçamento próprio: não há cronograma, número de portaria, edital nem nome de programa. O que existe é uma escola da rede estadual que montou o projeto e um texto de divulgação oficial que o registra depois de pronto. Enquanto não houver coordenação e financiamento descritos, o que se pode dizer é que a iniciativa é da unidade.
Também não aparece no texto ninguém de fora da escola: nenhuma família de estudante com deficiência de Vargem Alta, nenhum profissional responsável pela educação especial na rede, nenhuma outra unidade que tenha tentado a mesma coisa. Quem escreveu o material é quem executou a atividade, e o registro sai com o ângulo de quem a fez.
Sobre o que veio depois de junho de 2025, o material não afirma encerramento nem continuidade — cala. Saídas e projetos escolares do município já apareceram antes: um mês antes desta aula, outra escola de Vargem Alta levou uma turma a uma trilha e a um roteiro histórico na comunidade quilombola de Monte Alegre, em atividade sem relação com esta.
Nenhum aluno do 6º ano é identificado nesta página
Este texto não publica o nome de quem estuda na educação básica, ainda que o material oficial o divulgue e ainda que o registro seja elogioso. Nomear alguém que cursa o 6º ano custa pouco hoje e cobra caro depois: a página continua no índice de busca quando essa pessoa estiver prestando prova, procurando estágio ou trabalhando. Pela mesma razão, dado de saúde ou de deficiência capaz de apontar uma pessoa determinada fica de fora, e a fala de estudante que o material oficial reproduz não foi aproveitada aqui. Os nomes do coordenador e das duas professoras permanecem: são adultos que assinam um trabalho profissional e podem ser procurados por ele.
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